O controle de Resident Evil pertence a Zach Cregger

Aviso: Este texto contém spoilers

Cena do filme Resident EvilNa imagem, o personagem Bryan, de costas, corre por uma rua com carros abandonados e cobertos de neve enquanto pessoas se atiram do prédio, explodindo em sangue no chão e nos automóveis. O cenário é noturno, há edifícios e iluminação oriunda dos postes. Há neve por toda parte e Bryan veste calça e jaqueta escura.
O último live action da franquia foi em 2021 com Resident Evil: Bem-vindo a Raccoon City
(Foto: Sony Pictures)

Davi Marcelgo

Temer e rir são sentimentos conflitantes, mas Zach Cregger, que despontou no Terror com o excelente Noites Brutais (2022) e fundou, antes disso, o grupo comediante The Whitest Kids U’ (2007-2011), consegue tirar do público ambas sensações em Resident Evil, a mais nova tentativa de levar para o Cinema a adaptação do jogo homônimo. A franquia não é a única que ousou transpor para outra linguagem, mas esta pode ser uma das melhores experiências – não somente pelo sarrafo baixo – porque o cineasta reproduz elementos dos games sem esquecer que isto se trata da Sétima Arte. 

Bryan (Austin Abrams) faz entregas hospitalares quando descobre que sua namorada espera um bebê. Convidado a levar uma encomenda frágil até um remoto ambiente, o rapaz é cercado por um novo mundo, dominado por zumbis que incorporam outros seres para evoluir. O ato de ‘unir’ é a principal característica de Cregger para este longa: nas cenas de câmera subjetiva com o ponto de vista na mão segurando uma arma, na estrutura gamificada de coletar itens e completar missões (a cada novo cenário, um novo desafio) ou na piada envolvendo cadeados que não abrem com tiros – jogadores do gênero costumam fazer isso, sem sucesso, para abrir portas. Outra característica dos nerds de consoles é o interesse por descobrir a lore de cada passatempo e que está presente no jeito do herói, que observa as transformações dos zumbis com muita curiosidade. 

Nos anos 1920, Buster Keaton fez história no Cinema mudo ao criar um personagem que enfrentava obstáculos radicais, como correr de um trem em movimento ou fugir de uma multidão de noivas. O diretor, que escreve ao lado de Shay Hatten, empresta do ator os trejeitos atrapalhados para cedê-los ao seu protagonista, que vai conduzir Resident Evil. Os objetos adquiridos por Bryan ou a forma como uma situação leva a outra estão apegadas à sua personalidade e às imbecis escolhas que faz, não subitamente um checklist do que contém um jogo eletrônico; até suas atitudes com a namorada operam para uma crítica presente no enredo. As escolhas da direção estão mais a favor do personagem e do gênero que ao material original. 

Cena do filme Resident EvilNa imagem, em primeira pessoa há uma arma apontada para uma mulher zumbificada. A cena é noturna com pouca visibilidade. A única luz vem ao fundo de uma viatura policial capotada. Há neve no chão.
Certos planos se inspiram em jogos “first-person shooters” (Foto: Sony Pictures)

As decisões do principal incorporam os clichês dos filmes de Terror. O roteiro leva ao pé da letra tudo aquilo que os torcedores de nariz do gênero usam para criticá-lo e transforma em fator cômico. Depois de ver todas as bizarrices possíveis, Bryan ainda entra em trailers dizendo “Tem alguém aí?” ou questiona a uma figura nefasta se ela está bem, quando obviamente há uma ameaça à sua frente. O idealizador de A Hora do Mal (2025) cria um pacto com o espectador: este é inteligente o suficiente para superar o protagonista, mas não possui o controle de Zach Cregger, afinal isto é Cinema e somos todos conduzidos por uma câmera que vai nos manipular. No caso do Terror, terá como objetivo assustar. 

Em determinado momento, Bryan consegue abrir um cadeado usando uma arma e diz “foda-se os videogames”. O recado está dado. A partir deste trecho, o roteirista vai prosseguir com sua crítica sobre responsabilidade, esta que o personagem não assumiu ao declarar a máxima “seu corpo, suas regras” à namorada e se esquivar da função de pai ou de estar junto ao passar por um aborto. Sua escolha de levar o MacGuffin soa mais como uma tentativa de fugir da conversa do que uma boa ação para uma criança que precisa de um coração, como ele mesmo cita. A conclusão é o espelho do protagonista: cientistas que não assumem o que fizeram de errado e não descem até a realidade para resolvê-la, escolhendo se isolar em laboratórios blindados. 

O diretor olha para o passado do gênero, assim como fez com seu filme anterior ao criar uma lenda urbana dos subúrbios americanos, remetendo seu personagem ao Ash (Bruce Campbell) de Evil Dead (1981), um idiota que aprende a usar armas, e ao protagonista pateta de Fome Animal (1992), de Peter Jackson, que continua cuidando de sua mãe zumbificada, mesmo que isso já não tenha sentido algum. A sequência do atropelamento tem o espírito do jantar do longa da década de noventa, além do bebê monstruoso presente em ambas produções. Resident Evil tem pinta de videogame, mas Cregger não permite que o público seja totalmente ativo na situação, seja por suas referências ou seus jumpscares

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