
Sofia Ferreira Santos
Brendha Rangel, cantora capixaba que atende pelo nome artístico BUDAH, iniciou sua trajetória nas batalhas de rap de seu estado. Após marcar presença no line-up do festival The Town em 2025 e diversos outros festivais pelo Brasil, ela retorna em 2026 com seu segundo álbum, em que, logo na faixa de abertura, já faz questão de se apresentar ao novo ouvinte: “Muito prazer, minha vida, eu sou sua nova favorita”.
Para quem a acompanha desde seu projeto de estreia, Púrpura (2024), onde já brilhava com seu R&B apaixonante e letras sobre empoderamento, esse novo sucesso não veio do nada. É, na verdade, o desdobramento de um longo caminho cheio de acertos como o single Lingerie, lançado em 2020 com o rapper Yunk Vino; Sedenta (no EP BUDAH, de 2023); Medida Certa, em 2024, com os cantores Sotam e Aka Rasta, e tantos outros ritmos engajados.
Agora, em FREQUÊNCIA LUNAR, somos apresentados a uma nova faceta, mais profunda, de BUDAH: a que existe quando a noite cai, mas que perdura no íntimo quando o dia finalmente chega. Ao longo de suas 14 faixas – que somam rap, boombap, drill, ragga, house e elementos do pop contemporâneo –, a capixaba transita entre temáticas como empoderamento feminino, superação, racismo e as complexidades da fama, buscando se impor no cenário do rap brasileiro sem abrir mão de seu lado dançante. Esse peso narrativo reflete o esforço coletivo do disco, cujos singles reúnem nomes de peso como AJULLIACOSTA, Pabllo Vittar, Iza, Duquesa, Tasha e Tracie, Vita, Franco e The Sir, inspirando-se em histórias e experiências compartilhadas por diversas mulheres, além de suas próprias vivências.
“FREQUÊNCIA LUNAR é um projeto que nasceu de histórias intensas que ouço, observo e também venho vivendo ao longo do tempo. Muitas mulheres compartilharam experiências comigo, inclusive fãs que me enviaram relatos e sentimentos que acabaram me inspirando durante o processo criativo. Acho que é por isso que esse disco carrega tanta verdade”. – BUDAH para a Universal Music
O álbum se diferencia de Púrpura de um jeito radical: traz mais rap, mais drill e mais house, em detrimento do R&B contemplativo do disco de estreia. Batidas inquietas substituem as atmosferas etéreas, transformando o quarto do ouvinte em uma verdadeira pista de dança – uma mudança que, segundo a artista, chegou a assustá-la. Em entrevista à Billboard Brasil, ela contou que “entendeu que [o álbum] começava no pôr do sol, umas 17h40, e ia até 5h da manhã. Foi quando ficou claro: esse álbum é para a noite”. É esse trajeto, do anoitecer ao nascer do dia, que costura as 14 faixas em uma única história, ainda que cada uma explore um estágio diferente dela.
Esse percurso começa em SUA FAVORITA, faixa de abertura em que BUDAH já se mostra completamente diferente de seus projetos anteriores: ao lado de AJULLIACOSTA e Franco, The Sir, e mostrando referências musicais como SZA, a artista reforça a importância do apoio entre mulheres e sugere que essa voz que nos guiará pela noite não é, necessariamente, Brendha Rangel, mas pode ser muitas outras. A mesma energia de posse de si e do espaço se estende a SALTO 15, com IZA, em que o salto alto – símbolo de sensualidade e poder, afiado e marcante como quem o usa – vira metáfora para a autoestima, e a SKIN AFROPATY, que aprofunda essa celebração da estética e da identidade como um exercício constante de autoafirmação.
O ápice dessa vibração dançante, porém, está em VAMPIRA, parceria com Pabllo Vittar e, provavelmente, o destaque do álbum em termos de produção: linhas de grave magnéticas encontram vocais envolventes para sintetizar a busca de BUDAH por uma entrega mais intensa em suas performances. Como declarou à Billboard Brasil: “Eu sentia falta de uma entrega diferente, tanto nos shows quanto quando eu saía com minhas amigas e queria ouvir uma música mais animada, mais noturna, mais agitada, com um grave envolvente, para dançar”.

INTUIÇÃO acompanha o pressentimento de um relacionamento que começa a ruir, enquanto NOVO VOO marca a escolha por si mesma e pela própria liberdade – um deslocamento tanto geográfico quanto pessoal, resumido no verso “Outro canto, nova cidade / Outro canto, novo voo”. Já em QUEBREI SUA CASA, ao lado de MC Luanna, a destruição física vira metáfora para a libertação mental, sintetizada no verso “posso jurar que te amava, mas quem jura sempre mente”.

Todo esse arco de decepção e desapego encontra seu ponto mais alto em QUEM VOCÊ ESCOLHE?, faixa que desponta como o ápice desta análise sobre os dilemas afetivos do álbum. Longe de ser apenas um desabafo, a canção articula com precisão cirúrgica a decisão de romper com ciclos imaturos e desrespeitosos: é aqui que BUDAH estabelece um padrão de lucidez, reafirmando que sua estabilidade é autossuficiente e transformando a vulnerabilidade em uma declaração de soberania.
Ao priorizar a preservação do ‘eu’ diante da degradação de um parceiro que se revela insustentável através de suas próprias falhas, a artista entrega um momento de honestidade brutal que, pessoalmente, elevo à condição de favorito deste projeto – pela forma como encapsula a escolha de se manter íntegra ao invés de se perder em ilusões. Parafraseando o psicanalista Jacques Lacan em O Seminário, Livro 8: A transferência: “amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer”; para BUDAH, isso se faz muito presente nessa canção, e assim como nas outras faixas, de forma muito honesta. Apresenta-se essa falta não pelo fato de todos nós sermos faltantes em nossas especificidades, mas porque, quando o Outro não nos quer, é impossível nos doar, mesmo que de maneira faltante. Pensar em quem seu par escolhe, repetir essa ausência, é sobretudo, menos sobre o Outro.
A partir daqui, o álbum também assume sua dimensão mais identitária. Em VIDA DE ARTISTA, ao lado das irmãs Tasha e Tracie, BUDAH deixa claro que seu empoderamento não vem só de feitos e hits, mas de sua negritude: por meio de rimas ousadas e bem-humoradas, o trio ironiza um sucesso resumido ao luxo para desafiar padrões normativos de fama. Essa mesma crítica ao status ganha corpo em VIP (ninguém te conhece), parceria com Duquesa que é o primeiro single do projeto e, até o momento, a única faixa com videoclipe – uma colaboração pedida pelos fãs há anos e que fortalece a cena do rap brasileiro feito por mulheres. No clipe, com o auxílio de uma amiga caracterizada de forma idêntica – mesmo figurino, maquiagem e cabelo –, a personagem dopa a bebida do parceiro; em meio aos delírios dele antes de sua suposta morte, as duas mulheres alternam de lugar.
Paralelamente, a composição traz uma crítica contundente a dinâmicas afetivas baseadas em interesse por status: o privilégio do ‘VIP’ só se sustenta pela presença dela, evidenciando a dependência do companheiro para ser validado socialmente. Essa crítica de gênero ganha ainda outra camada em SUBMUNDO, com Vita, que estende o empoderamento negro e feminino à forma como a sociedade vê mulheres trans e travestis – no verso “na minha pele escura você vai se queimar” –, misturando o cotidiano difícil dessas mulheres à celebração da vida noturna e dos bailes.
Talvez, ao longo da audição, o ouvinte sinta falta de uma crítica mais direta ao racismo estrutural – tema que perpassa o álbum em referências pontuais, como em SUBMUNDO, sem nunca ganhar um desabafo frontal. É esse silêncio que MEU CRIME É EXISTIR vem preencher, no ápice reflexivo do projeto. Como observa a obra A cor do inconsciente: significações do corpo negro, o racismo não muda apenas a vida social da pessoa negra, mas também afeta sua psique – algo que o eu-lírico de BUDAH representa ao relatar um episódio em um shopping: ao encontrar um segurança negro de terno, sentiu uma identificação inicial, frustrada quando percebeu que era ela quem passava a ser encarada como uma figura suspeita, o “Outro”.
Segundo a psicanalista Isildinha Baptista Nogueira, esse tipo de comportamento ilustra como o racismo internalizado pode levar pessoas negras a manifestar, ainda que inconscientemente, um auto-ódio que se projeta em seus semelhantes; encarar a própria alteridade e acolher o outro, nesse contexto de racismo estrutural, torna-se então um desafio complexo. A música escancara uma das milhares de micro agressões e violências enfrentadas constantemente por pessoas negras – um desabafo sobre sobrevivência e resiliência de quem resiste a essas situações repetidas.
Ao lado de SUBMUNDO (com Vita), que dá visibilidade à cultura periférica e às vivências de mulheres trans e travestis na noite, o álbum ganha sua máxima profundidade reflexiva em MEU CRIME É EXISTIR. Na faixa, BUDAH expõe o peso do racismo estrutural e da hipervigilância a partir de episódios do cotidiano, tratando das marcas psíquicas provocadas pela alteridade rejeitada. É uma declaração vulnerável e visceral sobre resiliência e sobrevivência diante de violências diárias.
O álbum se encerra em PONTO MAIS ALTO, faixa que retoma o mesmo contraste entre passado e presente já esboçado em C’EST LA VIE, mas agora como síntese de tudo o que veio antes: como um pensamento que nos abate ao chegar em casa depois de um rolê feliz, o eu-lírico revisita experiências e felicidades de forma agridoce, revelando uma trajetória de autossuperação construída, sobretudo, à custa de muitas perdas.
Nessa nova frequência, BUDAH entrega um álbum coeso e significativo para a cena do rap, consolidando uma transição madura e audaciosa para o gênero. Ao transitar com maestria entre batidas dançantes e letras de profundidade emocional, a artista não apenas demonstra sua versatilidade, mas reafirma seu papel como uma das vozes mais potentes e necessárias da atualidade. FREQUÊNCIA LUNAR é, em última análise, um convite para mergulhar em sua própria verdade, transformando vivências pessoais em um projeto que nos convida a dançar, refletir e, acima de tudo, sentir.
