Dependência emocional e ansiedade são as correntes de locket, de Madison Beer

Capa do álbum locket de Madison Beer. A imagem mostra a cantora Madison Beer, uma mulher de pele branca e jovem. Ela aparece de perfil, com os olhos baixos e uma expressão melancólica. Seu cabelo escuro está preso em um penteado meio-preso, com mechas soltas emoldurando o rosto. Ela segura delicadamente um medalhão dourado em formato de coração contra o peito. O fundo apresenta uma parede azul clara e o topo de um sofá vintage bege.
locket é o quarto disco da cantora (Foto: Epic Records)

Marcela Jardim

Madison Beer passou boa parte da última década ocupando um lugar ingrato no pop: visível o suficiente para gerar expectativas, mas sempre à sombra de um ‘potencial ainda não realizado’. Desde o início viral, ainda adolescente, sua trajetória foi marcada por tentativas de se desvincular da imagem de fenômeno da internet e se afirmar como artista completa. Silence Between Songs (2023) já indicava uma virada mais autoral e confessional; entretanto, ainda soava como um álbum de transição. Com locket, Beer finalmente parece entender que maturidade artística não é apenas cantar sobre dor, é organizá-la em uma narrativa coesa. O disco surge como um ponto de consolidação, em que a vulnerabilidade é uma forma de linguagem.

Essa busca por uma estética própria aproxima a cantora de carreiras como as de Zara Larsson e Sabrina Carpenter. Ambas passaram anos orbitando hits esporádicos até compreenderem que sucesso duradouro nasce quando imagem, som e discurso se alinham. Zara encontrou força ao assumir um ritmo mais nostálgico e com vibe de verão. Já Carpenter deslanchou quando abraçou ironia, sensualidade e bagagem pessoal sem medo do julgamento. Madison, em locket, faz movimento semelhante ao entender que sua marca está no íntimo, no frágil e no desconfortável. A produção não tenta competir com tendências de TikTok ou refrões fáceis, ele constrói atmosfera. É o momento em que a artista para de perguntar quem deveria ser e começa a mostrar quem é.

O disco se apresenta como um álbum de término, mas escapa do óbvio ao transformar a separação em um relicário emocional – um espaço onde cada faixa guarda fragmentos de memória, padrões e feridas recorrentes. Logo na abertura, locket theme estabelece esse tom íntimo, quase etéreo, como se Madison convidasse o ouvinte a ‘abrir’ esse pingente simbólico e encarar o que foi guardado ali dentro. 

Esse gesto inicial se desdobra em bad enough, onde a artista mergulha na dependência afetiva com uma honestidade desconfortável – quando ela admite aceitar migalhas afetivas, há uma sensação implícita em vários trechos, como em: “Taken, but it’s holding me back and I feel kind of bad about that, but I don’t wanna be alone” (“Estou comprometida, mas isso está me atrapalhando e me sinto meio mal por isso, mas não quero ficar sozinha”). A repetição emotiva presente na canção reforça justamente essa estagnação, já que em vez de dramatizar a toxicidade, a produção retrata a autossabotagem de forma íntima, mostrando como a carência sentimental faz relações insuficientes parecerem mais suportáveis do que a solidão. Isso sintetiza o conflito central da produção. Aqui, Madison Beer não romantiza a dor; ela a disseca, expondo o apego ao que machuca como algo mais suportável do que o vazio de ir embora.

Esse olhar se aprofunda em healthy habits, onde a fragilidade emocional se conecta diretamente com ansiedade e autossabotagem. A canção ecoa a vulnerabilidade introspectiva que Taylor Swift apresenta em faixas como The Archer e mirrorball, especialmente quando Beer canta sobre o esforço constante de parecer bem enquanto tudo desmorona. Já em you’re still everything, o álbum atinge um de seus pontos mais sufocantes: a perda total de identidade dentro de um relacionamento. A sensação de insuficiência permeia a faixa, como se a própria existência dependesse do outro, reforçando a ideia de que o fim não é apenas amoroso, mas também psicológico.

Musicalmente, locket funciona como um mosaico coeso de referências do pop contemporâneo sem perder identidade própria. Há ecos da delicadeza vocal de Ariana Grande nas harmonias suaves e nos vocais quase sussurrados, usados para transformar fragilidade em textura sonora. Já a influência de Billie Eilish aparece na atmosfera claustrofóbica: silêncios, graves abafados e distorções criam a sensação de ansiedade constante. A teatralidade sensível de Chappell Roan surge nos contrastes entre contenção e explosão, intensificando o drama das relações retratadas. Em make you mine, tudo isso se encontra em uma produção sedutora que acompanha a obsessão inicial da narrativa, fazendo o álbum soar como um fluxo contínuo de pensamentos e emoções.

Esse curso encontra um ponto de virada em bittersweet, onde Beer começa a ensaiar um rompimento emocional. O sentimento agridoce da faixa – algo como “Now that it’s over, you’ll blame it all on me. I know I should be bitter, but baby, right now I’m bittersweet” (“Agora que acabou, você vai colocar toda a culpa em mim. Eu sei que deveria estar amargurada, mas, meu bem, agora estou agridoce”) – traduz o conflito entre alívio e luto. Em complexity, essa virada se transforma em autoanálise: a artista reconhece padrões, questiona suas escolhas e aponta para a necessidade de amor próprio antes de qualquer nova relação. Ainda assim, não há soluções fáceis.

O encerramento com nothing at all mantém essa coerência ao recusar um final redentor. A música abraça o vazio do pós-término, sugerindo um silêncio carregado de incerteza – “I’m comfortable, I’m okay, I’m not that miserable. I’m somewhere in the middle of it all. I honestly just don’t wanna spend my energy, fixing all these broken things” (“Estou confortável, estou bem, não estou tão infeliz assim. Estou mais ou menos no meio disso tudo. Sinceramente, só não quero gastar minha energia consertando todas essas coisas quebradas”) sintetiza o medo, a letargia sentimental e a inevitabilidade do fim.

Além da construção sonora, a obra também se expande visualmente. O videoclipe de make you mine mistura a estética colegial com elementos de slasher para transformar a paixão obsessiva em algo quase ameaçador: os corredores, os enquadramentos escuros e a atmosfera de perseguição sugerem que o romance já nasce contaminado pela dependência emocional. A sedução deixa de parecer inocente e passa a carregar tensão constante, como se o perigo estivesse escondido dentro da própria idealização amorosa. Já bittersweet aposta em alegorias e sátiras midiáticas para representar o desgaste do relacionamento. O excesso visual, a artificialidade das cenas e o tom performático reforçam a ideia de que o amor também pode virar espetáculo – algo consumido, encenado e romantizado até perder autenticidade. 

No fim, locket não busca oferecer catarse ou superação imediata. Madison Beer transforma carência afetiva, ansiedade e autossabotagem em eixo narrativo, criando um álbum que entende a paixão tóxica não como exceção dramática, mas como um ciclo silencioso de apego, medo e desgaste psicológico. Ao unir produção atmosférica, letras confessionais e uma identidade visual cuidadosamente construída, a artista consolida sua fase mais madura até aqui. Mais do que reinventar o pop, Beer encontra força justamente na honestidade emocional – fazendo da obra um retrato íntimo de tudo aquilo que permanece preso mesmo depois do fim.

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