A Sessão da Tarde mal pode esperar para passar O fim da rua em alguns anos

Aviso: Este texto contém spoilers

A imagem mostra quatro pessoas dentro de um carro antigo de cor verde-clara. No banco dianteiro, um homem dirige enquanto uma mulher está ao volante; entre eles, no banco traseiro, estão dois jovens. Os quatro observam atentamente o que acontece ao redor, com expressões de preocupação e tensão. A cena é registrada de frente, através do para-brisa do veículo, com uma paisagem residencial ao fundo.
Anne Hathaway e Ewan McGregor vivem casal em mundo apocalíptico em O fim da rua (Foto: Bad Robot e Jackson Pictures)

Ana Beatriz Zamai

O fim da rua segue uma família dos anos 80 que é transportada para a era pré-histórica junto com todo seu bairro. Enquanto se defendem dos animais do período jurássico, eles tentam entender o que está acontecendo e como voltar para suas vidas comuns. Parece apenas mais um filme de ficção científica com dinossauros, seguindo o padrão de algum dos Jurassic Park, por exemplo, mas não é. Diferente da famosa franquia, o longa vai além de ser apenas uma perseguição entre monstros e humanos e coloca os personagens para explorar as relações familiares enquanto lutam pela própria vida.

A história foca no casal Denise e Greg Platt, interpretados por Anne Hathaway e Ewan McGregor, casados já há alguns anos e que estão enfrentando uma crise no casamento. Os filhos também tem seus dilemas pessoais, sejam menores, como o do garoto Brian (Christian Convery), que quebrou o braço de um colega e agora precisa fugir do irmão mais velho dele, ou de Audrey (Maisy Stella), que está, talvez, descobrindo sua orientação sexual, o que é mostrado de forma muito sutil, principalmente em sua amizade com Jeannette (Jodan Alexa). De maneira quase imperceptível, no começo do longa, ela fica chateada quando o namorado da ‘amiga’ chega e demonstra afeto. É cômico o fato de Brian, o irmão, ter um crush na garota e ver, durante todo o apocalipse, ela se aproximando cada vez mais da irmã.

David Robert Mitchell, diretor e roteirista conhecido por trabalhar com suspense e terror, faz um bom trabalho em deixar outros fatores sutis espalhados pelo filme, sejam as pitadas de comédia – ou até de drama, quando, por exemplo, Greg é comido por um dos dinossauros e vivenciamos, junto com Denise, o luto que tem de ser vivido em apenas alguns segundos, pois ela precisa correr para sobreviver.

A imagem mostra um homem e uma mulher dentro de uma casa, posicionados na entrada de um cômodo. Os dois seguram objetos que parecem ser usados como armas improvisadas e observam o ambiente com expressão de alerta e apreensão. O homem veste uma jaqueta azul, enquanto a mulher usa uma jaqueta escura sobre uma camisa azul. Ao fundo, aparecem paredes revestidas com papel de parede xadrez, um quadro e parte de um móvel de madeira, criando uma atmosfera doméstica e sombria.
O casal luta pelo casamento ao mesmo tempo que precisam sobreviver ao caos (Foto: Bad Robot e Jackson Pictures)

Outro detalhe que pode variar tanto entre apenas uma escolha visual do diretor quanto feita propositalmente é o jogo de câmeras (Michael Gioulakis, diretor de fotografia) quando a família termina de deixar a casa ‘a prova de dinossauros’, com tábuas de madeira e portas em todas as possíveis entradas. Nesta cena, o enquadramento deixa a câmera bem perto do rosto da mãe em um dos lados da tela, enquanto do outro, de corpo inteiro, aparece a filha; mesma coisa com o pai e o filho, além de ter também momentos em que os filhos estão aproximados e os pais afastados. Passa uma ideia de passado e presente, e como Denise é mais próxima de Audrey e Greg de Brian. Essa sensação da proximidade ser maior entre um e outro também pode ser vista quando as crianças saem da casa e na hora de procurá-los, Denise sempre chama por Audrey, enquanto Greg chama por ‘crianças’. 

O ponto diferencial do filme para os demais clássicos de apocalipse é que os problemas familiares não são só um pequeno detalhe mostrado apenas no começo como forma de introdução, eles são contínuos. Já depois da metade, o casal encontra uma possível solução para voltarem à normalidade, e Greg pede para Denise ir primeiro, mas ela deixa claro que não vai se separar dele, mesmo que momentaneamente. É uma referência a uma cena anterior, quando, já durante o possível fim do mundo, o casal tem uma briga feia, e o marido admite que leu o livro que a esposa estava escrevendo e que sabe que ela quer ir embora de casa. 

A obra em si não é ruim, é uma boa história, original, diferente do que Hollywood está fazendo recentemente, com tantas franquias e live-actions, porém ainda é básico e deixa a sensação de que falta algo. Mas talvez não exista muito o que possa ser feito, a história é assim e não há o que mudar. Adicionar mais fatores para tentar deixar de ser comum, pode deixar o filme demais, com muita informação e estragar o que já é bom. Das muitas obras de Anne Hathaway no cinema este ano, esta pode não ser a melhor, porém quando passar na Sessão da Tarde daqui alguns anos, certamente vai prender a atenção do telespectador.

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