Aviso: Este texto contém spoilers

Ana Beatriz Zamai
O fim da rua segue uma família dos anos 80 que é transportada para a era pré-histórica junto com todo seu bairro. Enquanto se defendem dos animais do período jurássico, eles tentam entender o que está acontecendo e como voltar para suas vidas comuns. Parece apenas mais um filme de ficção científica com dinossauros, seguindo o padrão de algum dos Jurassic Park, por exemplo, mas não é. Diferente da famosa franquia, o longa vai além de ser apenas uma perseguição entre monstros e humanos e coloca os personagens para explorar as relações familiares enquanto lutam pela própria vida.
A história foca no casal Denise e Greg Platt, interpretados por Anne Hathaway e Ewan McGregor, casados já há alguns anos e que estão enfrentando uma crise no casamento. Os filhos também tem seus dilemas pessoais, sejam menores, como o do garoto Brian (Christian Convery), que quebrou o braço de um colega e agora precisa fugir do irmão mais velho dele, ou de Audrey (Maisy Stella), que está, talvez, descobrindo sua orientação sexual, o que é mostrado de forma muito sutil, principalmente em sua amizade com Jeannette (Jodan Alexa). De maneira quase imperceptível, no começo do longa, ela fica chateada quando o namorado da ‘amiga’ chega e demonstra afeto. É cômico o fato de Brian, o irmão, ter um crush na garota e ver, durante todo o apocalipse, ela se aproximando cada vez mais da irmã.
David Robert Mitchell, diretor e roteirista conhecido por trabalhar com suspense e terror, faz um bom trabalho em deixar outros fatores sutis espalhados pelo filme, sejam as pitadas de comédia – ou até de drama, quando, por exemplo, Greg é comido por um dos dinossauros e vivenciamos, junto com Denise, o luto que tem de ser vivido em apenas alguns segundos, pois ela precisa correr para sobreviver.

Outro detalhe que pode variar tanto entre apenas uma escolha visual do diretor quanto feita propositalmente é o jogo de câmeras (Michael Gioulakis, diretor de fotografia) quando a família termina de deixar a casa ‘a prova de dinossauros’, com tábuas de madeira e portas em todas as possíveis entradas. Nesta cena, o enquadramento deixa a câmera bem perto do rosto da mãe em um dos lados da tela, enquanto do outro, de corpo inteiro, aparece a filha; mesma coisa com o pai e o filho, além de ter também momentos em que os filhos estão aproximados e os pais afastados. Passa uma ideia de passado e presente, e como Denise é mais próxima de Audrey e Greg de Brian. Essa sensação da proximidade ser maior entre um e outro também pode ser vista quando as crianças saem da casa e na hora de procurá-los, Denise sempre chama por Audrey, enquanto Greg chama por ‘crianças’.
O ponto diferencial do filme para os demais clássicos de apocalipse é que os problemas familiares não são só um pequeno detalhe mostrado apenas no começo como forma de introdução, eles são contínuos. Já depois da metade, o casal encontra uma possível solução para voltarem à normalidade, e Greg pede para Denise ir primeiro, mas ela deixa claro que não vai se separar dele, mesmo que momentaneamente. É uma referência a uma cena anterior, quando, já durante o possível fim do mundo, o casal tem uma briga feia, e o marido admite que leu o livro que a esposa estava escrevendo e que sabe que ela quer ir embora de casa.
A obra em si não é ruim, é uma boa história, original, diferente do que Hollywood está fazendo recentemente, com tantas franquias e live-actions, porém ainda é básico e deixa a sensação de que falta algo. Mas talvez não exista muito o que possa ser feito, a história é assim e não há o que mudar. Adicionar mais fatores para tentar deixar de ser comum, pode deixar o filme demais, com muita informação e estragar o que já é bom. Das muitas obras de Anne Hathaway no cinema este ano, esta pode não ser a melhor, porém quando passar na Sessão da Tarde daqui alguns anos, certamente vai prender a atenção do telespectador.
