Há 10 anos, Solange ocupa a cabeceira da mesa com A Seat at the Table

Retrato aproximado de Solange, de frente para a câmera. Ela tem os cabelos soltos e volumosos, presos por diversos grampos coloridos, principalmente rosas e prateados. Usa maquiagem discreta e expressão serena. O fundo é claro e desfocado.
O álbum parte da experiência da dor para construir um espaço de cura (Foto: Carlota Guerrero)

Victor Hugo Aguila 

Com uma carreira artística consolidada, Solange é a prova de que a maturidade é uma raiz protuberante do sucesso. Através das objeções delicadas presentes no processo de crescimento pessoal, é desabrochado o trabalho mais emblemático e auspicioso da caçula da família Knowles, visto seu contato direto e familiar com a indústria fonográfica. A Seat at the Table, que completa 10 anos em 2026, rompe com a temporalidade, uma vez que as questões abordadas e o talento que o permeia são acrônicos. 

Sendo seu terceiro álbum de estúdio, o disco transpõe todas as produções anteriores de Solange. A cantora, que iniciou sua carreira ainda na adolescência como backing vocal e compositora, lançou trabalhos que já evidenciavam sua personalidade musical – como Solo Star, seu álbum de estreia, lançado em 2002 –, mas que, até então, não faziam jus ao tom marcante e maduro que conhecemos hoje. Após um hiato na carreira, a texana deteve a atenção do público novamente com o lançamento do single Losing You, em 2012. Sobrepondo uma melodia quase anedótica, Solange canta sobre os questionamentos dolorosos que surgem ao notar que uma relação está prestes a terminar – ou, pelo menos, mudar. 

Ainda que seu portfólio já impressione, A Seat at the Table consegue alcançar um outro patamar. Isso porque o disco funciona como um declaração fonográfica que atesta, sobretudo, a luta de Knowles como mulher negra, confrontando injustiças historicamente impostas e se situando enquanto sujeito. Através dos interlúdios com as falas de sua mãe, Tina, e de seu pai, Matthew, Solange cria um canal onde é possível transmitir as experiências de seus antepassados sem perder a ternura e a compreensão emocional. Nesse caminho, para além dos traumas geracionais cunhados pelo racismo, o álbum destrincha o luto e o autoconhecimento oriundos da experiência humana da artista. 

Foto de uma piscina em ambiente interno, com cinco mulheres negras usando biquínis claros. Algumas estão sentadas na borda da piscina, enquanto outras permanecem em pé dentro ou próximas à água. A mulher ao centro usa biquíni verde-claro e tem o cabelo decorado com diversas contas. A imagem tem iluminação baixa e uma tonalidade rosada, com reflexos das luzes na água.
Solange aborda identidade, racismo e pertencimento a partir de experiências pessoais e coletivas (Foto: Carlota Guerrero)

A canção que inaugura o álbum, Rise, funciona quase como um esboço: ocorre de maneira breve, mas nada tímida, no qual a melodia doce do piano somada a voz em tons de jazz de Solange cria uma narrativa com teor afortunado. Na faixa, a canceriana tranquiliza o ouvinte sobre o processo amargo – e quase virtuoso – de permitir sentir a dor como ela é, tendo esta como um caminho efêmero para atingir a plenitude. O verso “Caia nos seus caminhos, para que possa acordar e se levantar”, funciona como um incentivo sereno, no qual, apesar dos percalços, será possível sobressair e prosperar. 

Nessa mesma esfera, Cranes in the Sky surge para ilustrar de maneira engenhosa os mais atrevidos e viciantes mecanismos de fuga que se pode ter ao sermos confrontados com o peso das emoções. Com a estética etérea do videoclipe, a beleza da canção recai na humanidade crua que Solange nos apresenta: ela se permite ser vulnerável ao ouvinte, documentando de maneira intransigível sua busca por alívios temporários, ainda que mundanos. 

Berço da linhagem da família Knowles, uma parcela significativa do álbum foi gravado na Louisiana, mais precisamente em New Iberia. Ultrapassando a ideia comercial, A Seat at the Table também ocupa o lugar de manifesto e exaltação da música negra. Ao escutar o álbum, é perceptível que Solange bebeu de fontes musicais relevantes da indústria, como Minnie Riperton, Janet Jackson e Aaliyah. Desta forma, o LP se torna um monumento de valor cultural, visto que, introjetado em suas letras e melodias, está a memória de um acervo admirável de artistas. 

Em termos técnicos, o disco aperfeiçoa seus arranjos a cada faixa, com a voz da norte-americana sempre em seu cerne. Raphael Saadiq, co-produtor executivo do álbum, equilibra e divaga perfeitamente entre instrumentações clássicas e o futurismo. Em Don’t Touch My Hair, com participação de Sampha, Solange canta sobre a desvalorização da mulher negra, expondo fatos enquanto sua voz é emoldurada pelo baixo aveludado de Saadiq. 

Não toque em meu cabelo

Quando são os sentimentos que eu uso 

Não toque em minha alma 

Quando nela está o ritmo que conheço – Don’t Touch My Hair (ft. Sampha)

Solange aparece em pé, em um estúdio, usando uma regata rosa-clara, calcinha branca e uma peça de tecido bege sobre os ombros. Ela segura uma bolsa ou tecido volumoso preenchido com pequenos blocos brancos. Ao fundo, há um grande painel claro com marcas e manchas, sobre um piso de concreto.
O conceito de pertencimento atravessa toda a construção do disco (Foto: Carlota Guerrero)

De maneira palpável, o título da obra reforça a ideia de acolhimento, visto que seu sentido político – e metafísico – repousa na ideia de estar em espaços que historicamente foram negados ou apagados. “Um lugar à mesa”, em tradução livre, sintetiza a reivindicação por pertencimento e resgata a experiência individual de Solange a um olhar mais amplo quanto à identidade e as estruturas sociais que relegaram pessoas negras às margens. 

A essência de A Seat at the Table pode ser caracterizada enquanto genuína, sendo um cântico ao processo de cura de mulheres negras. Ao cantar suas inquietações, contradições e afirmações, Solange ainda encontra eco no presente e prova que sua forma de criar arte permanece ímpar. Fazendo jus ao verso de Scales, sua parceria com Kelela, ela, de fato, é uma superestrela e transformou sua forma de ver o mundo em uma obra musical coesa e sofisticada. É um álbum que permanece aberto a novas interpretações e que, mesmo uma década depois, ainda sabe exatamente o que quer dizer. 

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