A Odisseia de Nolan é a representação heróica de um herói mundano

Aviso: Esse texto contém spoilers

Sob um céu pálido, um homem de barba grisalha e uma jovem com um lenço na cabeça encaram o horizonte com feições tensas e atentas. Ambos vestem trajes rústicos e estão cercados por uma imensa planície desolada de areia úmida, poças rasas e dunas ao longe.
Com orçamento de aproximadamente 250 milhões de dólares, é a produção mais cara feita por Christopher Nolan (Foto: Universal Pictures)

Lucas Barbosa

Após 72 anos da sua última grande produção nos cinemas, A Odisseia volta a grande tela com a magnitude de um poema épico da Grécia Antiga, o texto de Homero conta através de memórias a saga de Odisseu, Rei de Ítaca, que após a Guerra de Tróia, fica 10 anos na tentativa de voltar para sua terra natal. Coube a Christopher Nolan a responsabilidade de produzir, roteirizar e dirigir uma das maiores obras da humanidade. E para quem fez Interestelar (2014) e Oppenheimer (2023) é a garantia de um filme com todo o esplendor que a história precisa: Grandes navios, armaduras gigantescas, monstros grotescos, e uma fotografia primordial. O problema disso? A obra se simplifica em um filme de ação e em certo modo foge do épico mitológico do poema homérico.

Nolan tinha uma obra complexa para produzir, com uma estrutura narrativa que foge da ordem natural de três atos que já estamos acostumados a ler em livros e ver nos filmes. É um poema pautado em flashbacks e em relatos subjetivos, e assim o longa foi produzido. O filme propõe uma história que se baseia nas lembranças tanto de Odisseu (Matt Damon), quanto dos personagens que o acompanharam antes, durante e depois da guerra. Porém, o roteiro enfraquece certas relações entre o próprio protagonista com as divindades dentro da obra, foi mais adaptável a um conceito muito mais contemporâneo de herói e vilão, enfraquecendo uma relação lógica de Odisseu, que não era o guerreiro mais forte, mas que tinha mais astúcia dentro do campo de guerra, habilidade essa que foi pouco explorada, deixando exposta apenas uma força física que praticamente não existia.

Existe um problema que aconteceu também em outros filmes roteirizados pelo Nolan: a dificuldade em escrever personagens femininos. Penélope (Anne Hathaway) não é a personagem passiva que chorava pela saudade de Odisseu, toda a narrativa dos pretendentes pela mão da Rainha de Ítaca é uma das mais importantes para toda a obra, não teve nada além de uma personagem que sofria pela partida do marido sem explorar a complexidade e inteligência da Rainha. A presença de Atena (Zendaya) também é muito enfraquecida dentro do longa, se tornando uma personagem de suporte emocional para Odisseu, ao invés de uma divindade importante para a obra.

Em um antigo salão de pedra iluminado por tochas, uma mulher em primeiro plano veste um longo vestido azul, colar dourado e segura um arco. Ao fundo, ao lado de um trono esculpido, uma jovem de vestido escuro a observa.
Para manter uma fidelidade histórica ao filme, locações na Grécia, Itália, Marrocos foram utilizadas para a produção do longa (Foto: Universal Pictures)

Por final, a trajetória de Odisseu se transformou quase em uma jornada do herói, com as suas lembranças sendo o principal motor para o entendimento do filme, mas essas memórias reaparecem de forma distintas, pela relação de 7 anos de prisão do Odisseu pela Calipso (Charlize Theron) na Ilha de Ogígia, em que ele frequentemente comia Flor de Lótus. E quando acontece seu retorno a Ítaca, descobre que seu filho Telêmaco (Tom Holland) será atacado pelos pretendentes da mão de sua esposa a mando de Antínoo (Robert Pattinson) que pode ser declarado como o grande vilão do filme. E no fim, após conseguir salvar o filho, voltar a Ítaca e vencer o desafio do arco, elimina os rebeldes do seu reino, conseguindo sua redenção e partindo para o mesmo oceano que foi o seu maior desafio.  

A montagem feita pela Jennifer Lane é esplêndida, os momentos no palácio de Ítaca tem a tensão de um reino sem rei, a trilha sonora feita pelo Ludwig Göransson, é um ápice em toda a trajetória da Odisseia, consegue transmitir o vazio do oceano e também a tensão de uma guerra, tudo em uma mesma singularidade, os figurinos mesmo não sendo os mais fiéis a história e sua época, conseguem ser emblemáticos, a exemplo da Armadura de Agamenon (Benny Safdie), que mesmo sem nenhuma fala, sua postura e sua armadura emblemática são autoexplicativas.

Dois guerreiros com armaduras de estilo grego antigo estão frente a frente. O da esquerda veste uma armadura preta fosca com detalhes dourados e capacete fechado, enquanto o da direita, visto de perfil, usa um capacete com uma grande pluma rosa. Ao fundo, há mastros de navios sob um céu claro.
Agamenon, Rei de Micenas, foi o líder dos gregos para a Guerra de Tróia (Foto: Universal Pictures)

Nolan sabe como produzir filmes que tem uma ação contínua e envolvente, o terror em todas as cenas com o cíclope polifemo é agoniante e sombria, e os momentos da Guerra de Tróia são violentos e sustentam uma velocidade dinâmica ao longa. Ao mesmo tempo, reduz partes drásticas da história para defender um simbolismo não apenas heróico, mas uma meia culpa sentida por Odisseu no momento em que ele percebe que a construção do Cavalo foi o estopim para o fim da Era do Bronze e um começo da Era de Escuridão.

A Odisseia de Homero é uma história muito complexa, e seus personagens trazem uma profundidade imensa que o poema necessitava, A Odisseia de Nolan é uma guerra dos pensamentos de um herói arrependido, onde todos ao seu redor ficaram rasos, sem a expressão necessária para um poema épico, como um filme de ação é excelente, empolgante e tem uma tônica que uma guerra precisa, mas a história falha na tentativa de fazer de uma pessoa ardilosa, um cavaleiro heróico.

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