Zootopia 2 e o peso de existir: uma continuação ansiosa, política e necessária

Aviso: O texto contém alguns spoilers

Cena de Zootopia 2. A cena mostra Nick Wilde e Judy Hopps em um ambiente noturno elegante, vestidos formalmente e voltados um para o outro em um plano médio que destaca sua interação. Nick, em um terno preto e com seu olhar charmoso e irônico, contrasta com Judy, que usa um vestido amarelo vibrante e exibe uma expressão atenta e confiante. O fundo desfocado com luzes festivas e neve cria uma atmosfera romântica e acolhedora. A arte digital, com estilo próximo ao da animação 3D da Disney, apresenta cores vibrantes, texturas cuidadosas e iluminação suave, reforçando o clima íntimo e celebrativo do momento.
A versão brasileira do filme conta com o retorno de Monica Iozzi e Rodrigo Lombardi como os protagonistas (Foto: Walt Disney Animation Studios)

Marcela Jardim

Depois de quase uma década da primeira produção, Zootopia 2 chega como uma continuação que entende a própria pressão de existir, e faz disso um tema, uma ferramenta narrativa e um comentário metalinguístico. Desde o primeiro ato, o filme assume uma necessidade que é necessário se provar a todo tempo, ecoando o dilema dos próprios protagonistas, Judy Hopps (Ginnifer Goodwin) e Nick Wilde (Jason Bateman), que continuam carregando a tensão entre ser reconhecidos e ser suficientes. Esse jogo reflexivo de evidencia quando o novo prefeito, um ator vaidoso e caricatural, surge como sátira da política-espetáculo: um líder cuja função é performar confiança, não construí-la. A piada é ácida e evidente, mas funciona como crítica ao modo como celebridades e figuras públicas ocupam cargos de poder numa sociedade que trata governar como entretenimento.

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Em seu aniversário de 85 anos, o tempo prova que Rebecca é mesmo uma mulher inesquecível

Cena de Rebecca, Uma Mulher Inesquecível. Esta é uma foto em preto e branco em close-up de duas mulheres. A mulher em primeiro plano, mais jovem, olha para a esquerda (fora da câmera) com uma expressão de apreensão ou incerteza. Ela tem cabelos cacheados e presos, e usa um vestido com ombros à mostra. Atrás dela, uma mulher mais velha, vestida com roupas escuras e gola alta de renda, olha intensamente na mesma direção, com uma expressão severa e quase ameaçadora. A iluminação destaca o rosto da mulher mais jovem, enquanto a outra permanece parcialmente nas sombras.
Rebecca, A Mulher Inesquecível foi o primeiro filme hollywoodiano de Alfred Hitchcock (Foto: Selznick International Pictures)

Guilherme Moraes

Em Rebecca, A Mulher Inesquecível, uma jovem – cujo o primeiro nome nunca é revelado – e o viúvo, Maxim de Winter (Laurence Olivier), se conhecem, apaixonam e, rapidamente, se casam. Após o noivado, esta garota começa a ser conhecida por Segunda Sra. de Winter (Joan Fontaine), e é assombrada pela memória muito viva da primeira Sra. de Winter: Rebecca. A figura da mulher morta não é novidade no Cinema de Alfred Hitchcock, a maioria sempre irá se lembrar de Vertigo (1958) como o filme mais marcante nesse sentido. Entretanto, já em 1940, sob outro contexto cinematográfico, sem o peso da própria história, o maior nome do suspense do Cinema já lidava com esse mesmo tropo.

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25 anos de O Auto da Compadecida: humor, tradição e cultura nordestina

Obra de arte de estilo sacro representando uma cena celestial. No centro, a Virgem Maria aparece de pé, vestida com túnica vermelha e manto azul, irradiando luz dourada. Acima de sua cabeça, dois anjos seguram uma coroa dourada. Ao redor, há santos e figuras religiosas com auréolas douradas, entre eles homens e mulheres em posição de oração ou contemplação. Dois anjos de túnicas vermelhas, posicionados abaixo, empunham lanças contra figuras demoníacas monstruosas que surgem em meio às chamas, com dentes afiados e expressões agressivas. O fundo é azul, repleto de estrelas douradas, reforçando a atmosfera celestial e simbólica de vitória do bem sobre o mal.
A narrativa aclamada alcança uma harmonia única entre a cultura popular e a riqueza da criação literária (Foto: Globo Filmes)

Sinara Martins

Baseado na obra de Ariano Suassuna, O Auto da Compadecida é considerado um clássico do cinema nacional não à toa. Lançado em 2000, o filme une a cultura popular nordestina, a literatura de cordel e tradições religiosas para contar as aventuras de João Grilo e Chicó. Entre astúcias, trapalhadas e denúncias sociais, a narrativa conquista o público ao mesmo tempo em que valoriza a identidade cultural do Nordeste, faz críticas e reafirma a força do imaginário popular brasileiro.

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Persona Entrevista: Joscha Bongard

O diretor alemão comentou sobre o processo de criação de seu novo filme Babystar em sua primeira vez no Brasil

Card gráfico de entrevista em estilo editorial. No fundo, um padrão abstrato em tons de verde escuro e turquesa cria ondas fluidas que remetem a gravuras japonesas. À esquerda, aparece o logotipo em forma de olho e os textos “Persona Entrevista” e “49ª Mostra Internacional de Cinema – São Paulo Int’l Film Festival”. À direita, dentro de um enquadramento de bordas arredondadas, há o retrato de um homem branco de cabelos castanhos, que utiliza uma blusa branca e está segurando as mãos. Ele está sentado em uma poltrona vermelha e olha para frente.
Joscha veio para o Brasil para a divulgação do seu novo filme, que concorreu na categoria de Novos Diretores na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Arte: Arthur Caires)

Mariana Bezerra 

Quando se pensa em um longa sobre família, é possível que venha à mente uma imagem romântica e afetuosa de pessoas com laços parentescos vivendo em harmonia, ou, pelo menos, lidando com conflitos que consideramos inerentes à vivência humana. No entanto, Joscha Bongard resolveu falar sobre essa temática em Babystar (2025) sob uma outra perspectiva.

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Era Uma Vez em Gaza mistura o absurdo dentro e fora do cinema

Fotografia de um grupo de homens reunidos em uma sala em ruínas, com paredes em tons claros descascadas e iluminação branca artificial e intensa. À esquerda, um homem sentado ergue as mãos, enquanto uma câmera e um microfone gravam em meio à técnicos de filmagem que o cercam. Soldados armados, à direita, completam a cena, em que a linha entre encenação e realidade parece se dissolver.
Filmado na Jordânia, o longa confirma o cinema palestino como uma força estética global (Foto: Les Films du Tambour)

Gabriel Diaz

Era uma vez… um território que só conhecia ruínas. Era uma vez, também, o Cinema que tenta recontar suas próprias feridas. A fórmula clássica dos títulos que começam com ‘Once Upon a Time’ sempre carregou o peso de um mito. De Sergio Leone a Quentin Tarantino, é a indústria que fala de um tempo inventado, quase mítico, em que o real e a fábula se confundem. Era Uma Vez em Gaza, dirigido pelos irmãos Arab e Tarzan Nasser, adota esse mesmo artifício, mas o subverte. 

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Sepideh Farsi comprova a existência de um filme antiguerra em Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe

Cena do filme Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe.Na imagem, há um celular em chamada de vídeo com Fatima Hassouna. O celular está apoiado em uma mesa de madeira e atrás dele há uma outra tela, logada em um e-mail. Hassouna é uma mulher palestina, na faixa dos 25 anos. Ela usa óculos arredondados, o lenço de sua cultura chamado de hijab, na cor verde, e uma roupa estampada. Ela está sorrindo.
O documentário foi exibido no Festival do Rio (Foto: Filmes do Estação)

Davi Marcelgo

Em uma aula no segundo ano da graduação, minha professora de Jornalismo Textual disse que os materiais utilizados durante uma entrevista são fundamentais para o afastamento ou a aproximação entre repórter e personagem. Uma câmera, um notebook ou qualquer outro aparelho distante da realidade documentada pode ser um instrumento de poder. Em Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe, a diretora iraniana Sepideh Farsi constrói afinidade com Fatima Hassouna, fotojornalista da Palestina, para saber seu ponto de vista sobre os ataques de Israel na Faixa de Gaza.  Continue lendo “Sepideh Farsi comprova a existência de um filme antiguerra em Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe”

Há 40 anos, o Studio Ghibli plantava um legado que floresce até hoje

Esta é uma imagem com o logo do Studio Ghibli, um famoso estúdio de animação japonês. O fundo é de um azul vibrante e sólido. No centro, há um desenho de contorno preto do personagem Totoro, uma criatura grande e peluda com orelhas pontudas, visto de perfil. Em cima de sua cabeça, há um Totoro menor. Sobre a imagem, está escrito "STUDIO GHIBLI" em letras brancas, com caracteres em japonês logo acima.
Há rumores entre os fãs que o nome do estúdio remete ao modelo de avião italiano desenvolvido durante a Segunda Guerra Mundial, Caproni Ca.309 Ghibli, uma referência a paixão de Miyazaki pela aviação (Foto: Studio Ghibli)

Henrique Marinhos e Maira Cavenaghi

Originalmente marcado do dia 18 de setembro ao dia 1 de outubro de 2025, a primeira parte do Ghibli Fest, festival de cinema realizado a fim de comemorar os 40 anos do célebre estúdio de animação japonesa Ghibli, fez tanto sucesso entre o público brasileiro que estenderam a programação em mais 15 dias. Durante quase um mês, 14 longas metragens foram relançados em cinemas de todo o país, incluindo tanto grandes clássicos, como A Viagem de Chihiro (2001) e Meu Amigo Totoro (1988), quanto obras menos conhecidas do estúdio, porém não menos surpreendentes, como Eu Posso Ouvir o Oceano (1993).

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Persona Entrevista: Ana Endara e Paulina García

À esquerda, sobre um fundo vermelho texturizado, está o texto "Persona Entrevista" em letras brancas, com um ícone de olho estilizado que contém um símbolo de play. Abaixo, em letras brancas maiores, lê-se "Ana Endara e Paulina García". À direita, há uma fotografia de duas mulheres sorrindo em um evento de cinema. A mulher à esquerda tem cabelos curtos e grisalhos, usa óculos redondos e uma camisa bege. A mulher à direita, com cabelos curtos e grisalhos e um casaco preto, aponta para a outra mulher com a mão direita. Logotipos do TIFF (Toronto International Film Festival) são visíveis ao fundo da fotografia.
A atriz não conhecia a diretora antes do convite para o filme, mas logo embarcou no projeto quando assistiu a um dos documentários de Endara (Arte: Arthur Caires)

Mariana Bezerra 

Diante do lançamento de Querido Tropico no Brasil, a diretora panamenha Ana Endara e a atriz chilena Paulina García estavam reunidas para mais uma rodada de entrevistas a respeito do novo filme. Elas vêm percorrendo festivais de cinema e vários países para a divulgação do longa, que chegou a fazer parte da programação do Festival do Rio em 2024 e do Festival Internacional de Cinema de Toronto em 2025. Essa é a primeira vez que a diretora se arrisca na direção ficcional. 

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Menos impactante que o primeiro, mas ainda valioso, Wicked: Parte II

Na imagem, há duas personagens: à esquerda, uma mulher de pele verde com trajes escuros e expressão séria e à direita uma mulher de pele branca com uma roupa delicada e sorrindo suavemente. As duas estão em um ambiente de luz quente olhando para o horizonte.
Segundo filme utiliza uma paleta de cores mais escura para marcar a virada dramática da história (Foto: Universal Pictures)

Jhenifer Oliveira

Wicked: Parte II, um dos lançamentos mais esperados do ano, chega às telonas trazendo o desfecho da história que marcou a Broadway e encantou diversas pessoas em sua adaptação para o cinema. O diretor Jon M. Chu, que transformou Wicked – Ato I em uma das experiências cinematográficas mais arrebatadoras de 2024, agora amplia esse triunfo em 2025 ao explorar o espetáculo com mais profundidade emocional e maturidade estética.

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Sem vírgula ou conectivo, Pai Mãe Irmã Irmão é sobre laços quebrados

Cena do filme Pai Mãe Irmã Irmão. Três mulheres sentadas ao redor de uma mesa redonda posta para um chá da tarde elegante. À esquerda, uma mulher de perfil com cabelo rosa e suéter vermelho segura uma xícara. Ao centro, uma mulher mais velha com cabelos curtos e grisalhos sorri levemente enquanto ergue sua xícara. À direita, uma terceira mulher de camisa azul clara está de costas para o observador. A mesa está coberta por uma toalha branca e repleta de louças de porcelana florida, macarons e doces finos. O ambiente tem paredes azuis escuras e quadros ao fundo.
O produtor Atilla Salih Yücer esteve presente na Mostra como membro do júri (Foto: Mubi)

Guilherme Moraes

Um dos grandes nomes da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, sem dúvidas, é Jim Jarmusch. O diretor de Estranhos no Paraíso (1984) e Amantes Eternos (2013) chega ao evento com seu mais novo filme: Pai Mãe Irmã Irmão, que faz parte da seção Perspectiva Internacional e conta três histórias independentes. O cineasta estabelece apenas um ponto de conexão nessa tríade de contos: os laços familiares rompidos.

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