A nevasca que cobre Buenos Aires em O Eternauta só não é mais densa que a história que ela simboliza

Cena da série O Eternauta, da Netflix. A cena mostra a silueta de Juan Bolsa (Ricardo Darín) caminhando por uma rua coberta de neve, a sua esquerda é possível ver um ônibus abandonado e a sua direita dois carros em estado semelhante, às margens da via existem prédios altos também cobertos de neve, toda paisagem está envolta em um espesso nevoeiro.
O Eternauta reflete uma história de violência e opressão comum à toda América do Sul (Foto: Netflix)

Guilherme Dias Siqueira

Quando se fala em adaptações de quadrinhos logo nos vem à cabeça grandes produções de Hollywood sobre super-heróis vestidos em roupas coloridas e muita ação. Mas isso é uma fração da verdadeira diversidade dos quadrinhos, que não só cobrem uma variedade de temas e estilos, como também de culturas e subtextos regionais. No contexto latino-americano, uma riqueza de obras permanece vastamente inexplorada pela maior parte do público. Um desses materiais, talvez o mais importante de todos, foi retirado dessa semi-escuridão pela Netflix este ano: O Eternauta, a obra-prima de Héctor Germán Oesterheld e Francisco Solano Lopes.

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Nonnas é simples, mas dá um aconchego no coração

Quatro mulheres brancas mais velhas estão em uma cozinha industrial, todas usando aventais da cor bege, interagindo entre si Ao fundo, há prateleiras com mantimentos, utensílios pendurados e portas de cozinha.
O filme conta a história de um dos restaurantes mais incríveis de Nova York (Foto: Jeong Park/Netflix)

Lucas Barbosa 

É legal em um domingo à tarde, pós almoço, você sentar no sofá com a família e ver um filme aconchegante, Nonnas é isso: faz da dor da saudade e do luto, uma maneira de se reencontrar na vida. O longa do diretor Stephen Chbosky (cineasta de As Vantagens de Ser Invisível – 2012) se baseia na história de vida de Joe Scaravella. O filme tem uma gama de personagens que são puro carisma, e um roteiro que fala sobre amor, luto, tradição e redescobertas. Continue lendo “Nonnas é simples, mas dá um aconchego no coração”

Mountainhead: um filme mais interessado em parecer inteligente do que em o ser, assim como os bilionários

Corte da capa do filme “Mountainhead”, dirigido pelo diretor Jesse Armstrong. Na foto, quatro homens estão em frente a uma grande janela panorâmica que revela uma montanha coberta de neve. Eles usam roupas modernas e são iluminados pelo fogo da lareira atrás deles. As expressões sérias passam uma atmosfera de suspense.
Após o final da aclamada série Succession, Jesse Armstrong se aprofunda na sátira verossímil do longa Mountainhead (Foto: HBO)

Gabriel Diaz

Tal qual uma festividade caseira entre amigos num final de semana comum, quatro bilionários se reúnem em uma mansão isolada nas montanhas para jogar pôquer, beber uísque caro e compartilhar trivialidades. Só que, neste caso, as trivialidades envolvem desestabilizar economias nacionais, incitar guerras civis com deepfakes e debater a aquisição de países inteiros como se fossem startups promissoras. 

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Suçuarana demonstra que o caminho também pode ser o destino

Dora, uma mulher de pele escura e cabelos crespos, está sentada em um degrau de tijolos do lado de fora de uma cabana rústica. Ela usa uma camiseta de manga comprida e jeans, com as mãos cruzadas sobre os joelhos. Ao lado dela, Ernesto, um homem de pele clara e cabelos grisalhos, está sentado em um banco, comendo em um prato. A luz dourada do sol poente ilumina a cena, lançando sombras longas. Em primeiro plano, o cachorro Encrenca, de pelo marrom avermelhado, olha para Ernesto, como se esperasse um pedaço de comida.
Estradas, encontros fugazes e paisagens em transformação constroem a jornada de Dora (Foto: Anavilhana)

Arthur Caires

A estrada é sempre mais do que um caminho: é um espaço onde a permanência só existe no movimento. Em Suçuarana, de Clarissa Campolina e Sérgio Borges, essa imagem se alia ao próprio animal que dá nome ao filme – o felino furtivo e limítrofe, que habita territórios entre mundos, sempre à margem e sempre em trânsito. É nesse mesmo limiar que se encontra Dora, personagem guiada por memórias e pela insistência em seguir, mesmo quando o destino parece escapar. Mais do que narrar uma jornada, o longa se constrói como um gesto de recusa ao previsível: desloca-se entre paisagens devastadas e coletividades possíveis, tensionando o pertencimento como experiência instável, aberta e inquietante.

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Entre Montanhas é híbrido genérico com linguagem de videogame

Cena do filme Entre MontanhasNa imagem, a personagem Drasa segura uma arma com mira. Ela está no canto direito da foto, empunhando o objeto com as duas mãos. O cenário é noturno, há algumas luzes amarelas ao fundo e no canto direito. Drasa é uma mulher branca, de cabelos curtos e pretos, na faixa dos 30 anos.
Em entrevista ao Omelete, o diretor elogiou a química da dupla protagonista (Foto: Apple TV+)

Davi Marcelgo

Scott Derrickson possui uma filmografia interessante, seja dirigindo um blockbuster como Doutor Estranho (2016) ou um excelente Terror, O Telefone Preto (2021).  Apesar de ser um diretor regular, nada poderia preparar os assinantes do Apple TV+ para o desastroso Entre Montanhas (2025), a obra mais genérica do cineasta, que parece, inclusive, um embutido das sobras de um filme que nunca aconteceu. Estrelada por Anya Taylor-Joy (Drasa) e Miles Teller (Levi), a produção passeia por gêneros e não consegue acertar em nenhum.  Continue lendo “Entre Montanhas é híbrido genérico com linguagem de videogame”

A volta de Bridget Jones em Louca Pelo Garoto mostra que dá para fazer um clichê gostoso em 2025

: A esquerda Bridget Jones, uma mulher branca, está vestida com uma blusa branca e uma jaqueta jeans olhando para frente e rindo. Ao seu lado, Roxster, um homem branco, está molhado com uma camiseta branca com a mesma expressão de Jones. Eles estão na frente de uma piscina em um dia ensolarado.
Renée Zellweger foi indicada a Melhor Atriz no Oscar de 2001 com o papel de Bridget Jones (Foto: Alex Bailey/Universal Pictures)

Isabela Nascimento

Após nove anos de O Bebê de Bridget Jones (2016), a personagem de Renée Zellweger está de volta. Agora com duas crianças, uma amizade curiosa com a sua antiga paixão, Daniel Cleaver (Hugh Grant), dois jovens apaixonados e uma indicação de Melhor Filme para Televisão na 77ª edição do Emmy Awards. Baseado no quarto livro da autora Helen Fielding de 2013, Bridget Jones: Louca pelo Garoto, retrata a jornada da volta da protagonista à sociedade após a morte traumática de seu marido, Mark Darcy (Colin Firth).  Continue lendo “A volta de Bridget Jones em Louca Pelo Garoto mostra que dá para fazer um clichê gostoso em 2025”

Live-action de Como Treinar o Seu Dragão encanta visualmente, mas carece de ousadia narrativa

 Cena do filme Como Treinar o Seu Dragão. Na imagem, vemos Soluço montado em Banguela. Soluço é um jovem branco com cabelos castanhos. Ele veste uma roupa de couro escura. Banguela é um dragão preto com olhos grandes e verdes brilhantes. Eles voam acima das nuvens ao entardecer, com o céu em tons dourados e alaranjados ao fundo
Sendo originário de uma das animações mais amadas e de maior sucesso já feitas, o live-action estreia com a difícil missão de agradar os fãs da produção (Foto: Universal Studios)

Stephanie Cardoso

O tão aguardado live-action de Como Treinar o Seu Dragão, escrito e dirigido por Dean DeBlois (que também comandou a trilogia animada), finalmente chegou aos cinemas em 2025. A adaptação tenta replicar o sucesso da animação de 2010, que cativou o público com uma história comovente de amizade, crescimento e aceitação. Embora o novo filme mantenha a essência emocional da narrativa original, ele tropeça em decisões criativas conservadoras e uma execução que, por vezes, parece excessivamente preocupada em agradar aos fãs antigos sem se reinventar.

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Elio: uma jornada pelo espaço e pelo luto que, infelizmente, ninguém quer pagar para ver

Texto alternativo: Cena do filme ElioNa imagem, o personagem principal, Elio Solis, está deitado na areia da praia com capacete e capa colorida improvisados aguardando ser abduzido por aliens.
Elio, novo lançamento da Pixar, acompanha um garotinho realizando seu maior sonho: o de ser abduzido (Foto: Walt Disney Pictures)

Mariana Bezerra e Valentina Ferri

Após o enorme sucesso de Divertida Mente 2 (2024), a Pixar retorna às telonas com Elio, uma aventura inédita e divertida sobre um garoto de mesmo nome que, após perder os seus pais e passar a morar com sua tia, desperta o estranho desejo de ser abduzido por alienígenas. Infelizmente, o desinteresse  do público por histórias originais, além de diversos conflitos durante a produção do longa, fizeram com que um longa bonito e emocionante como esse se tornasse a pior estreia do estúdio até então.  Continue lendo “Elio: uma jornada pelo espaço e pelo luto que, infelizmente, ninguém quer pagar para ver”

Quando o camp é vitalício: os 35 anos de Darkman – Vingança sem Rosto

Cena do filme DarkmanNa imagem, o personagem Darkman olha para frente com expressão de desespero. Ele possui o rosto desfigurado, com cicatrizes na região da boca, bochechas e olhos, com exceção do lado esquerdo do rosto e o nariz. Na face, há ataduras. Darkman é um homem de pele branca e olhos azuis. Ele veste um paletó preto.
Darkman possui duas sequências, mas com Raimi fora da direção (Foto: Universal Pictures)

Davi Marcelgo

Entre as discussões sobre as produções da Marvel Studios, há aquelas que apontam o cinismo como principal característica dos longas. Um desprezo em abraçar o estilo cafona e ingênuo dos gibis, material base dessas adaptações. Ao contrário de Kevin Feige, chefe por trás do maquinário, o diretor Sam Raimi é alguém que jamais renegou a natureza barata das histórias de super-heróis, presente, principalmente, na sua obra mais popular: a trilogia Homem-Aranha. Porém, 12 anos antes do lançamento da primeira teia, o americano criou seu próprio (anti) herói e assumiu o espírito cartunesco como ninguém em Darkman – Vingança sem Rosto (1990). Continue lendo “Quando o camp é vitalício: os 35 anos de Darkman – Vingança sem Rosto”

Amores Materialistas é fútil e previsível, mas, ainda sim, realista

Aviso: este texto contém spoilers

Cena do filme Amores Materialistas. A cena retrata um casal, Pedro Pascal e Dakota Johnson, em um ambiente urbano, com estilo casual e foco nas expressões e interações sutis entre eles. O homem, mais alto, tem cabelos castanho-escuros, bigode e veste casaco bege com camisa castanho-alaranjada, exibindo expressão neutra. A mulher, de cabelos castanho-escuros em camadas com franja, veste um casaco de couro preto e apresenta semblante levemente sério. O enquadramento é próximo, destacando o casal contra um fundo urbano desfocado, criando profundidade e realce visual. A iluminação natural e difusa indica uma cena ao ar livre durante o dia, com tons neutros e abordagem realista, sem efeitos estilísticos marcantes.
Os três protagonistas do filme já participaram da Marvel (Foto: Killer Films)

Marcela Jardim

Vendido como uma comédia romântica charmosa e leve, Amores Materialistas chega aos cinemas embalado por cartazes luminosos, diálogos espirituosos e a promessa de um romance improvável. No entanto, sob a direção de Celine Song, a obra se revela muito mais próxima de um estudo sociológico do que de um escapismo açucarado. Ao centro da trama está Lucy (Dakota Johnson), cuja construção é deliberadamente marcada por uma frieza controlada e uma beleza comum. Ela é a síntese da protagonista superficial: elegante, discreta, previsível e incapaz de se despir da persona que criou para si. A personagem atua como casamenteira em uma agência que trata encontros como transações de mercado — uma espécie de ‘Tinder humano’ em que o amor é reduzido a compatibilidades de status, aparência e renda.

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