
Davi Marcelgo
Adaptações de quadrinhos são mais interessantes quando abraçam as características dessa mídia física para transferir ao Cinema. De Batman – O Homem-Morcego (1966) a Homem-Aranha no Aranhaverso (2018), esses filmes se destacam na expressividade aos militares Vingadores: Era de Ultron (2015), por exemplo. Claro que o contexto do surgimento dessas produções é importante para entender o porquê são assim. No caso da sequência da equipe do MCU, ela está imersa na paranoia deflagrada na Arte americana após os ataques de 11 de setembro de 2001 e em um mundo que trouxe sucesso à trilogia sisuda do Batman, dirigida por Christopher Nolan. Assim, em que momento global e da Sétima Arte, Cara-de-Barro (2026), terceira aposta do novo universo da DC Comics nos cinemas, está ao nível de escolhas estilísticas e, por que não, mercadológicas?
James Watkins, diretor da obra, se aproxima mais da abordagem realista de Coringa (2019) ao adaptar a história de um vilão, tanto em enredo – ambas as histórias humanizam seu personagem – quanto no estilo. Porém, em matéria de gênero, este longa nega as cores vibrantes das HQs para adequar-se ao Terror. A trama de Matt Hagen (Tom Rhys Harries) não é para os fracos de coração, afinal, ele é desfigurado por uma gangue e tem sua carreira como ator perdida, logo quando é indicado ao Oscar. Antes de se tornar o Cara-de-Barro, o protagonista vai passar por uma série de procedimentos médicos para trazer sua aparência – e vida – de volta, sendo o body horror e a frontalidade da violência os pilares que sustentam os sentimentos dessa narrativa.
Podemos dizer que Watkins, de filmografia forjada em porões escuros, consegue fazer um filme de gênero, que situado em outro período, teria uma outra análise (pelo menos nesta crítica). Observamos que Hollywood, nos últimos 15 anos ou mais, mergulhou suas produções em poços distantes da iluminação; dos contos de fadas da Disney aos vigilantes mascarados, a indústria impediu as cores de existirem. Agora, em um movimento inverso, ela procura remediar o vírus que criou, dando ares lúdicos a musicais como Wonka (2023) e até fazendo correções de cores em relançamentos – Vingadores: Ultimato Encore, em 2026, a título de exemplo. Mormente, a avaliação final de Cara-de-Barro deve-se ao caráter do representante mor do DC Studios, James Gunn, que iniciou esta leva de filmes com o simpático, esperançoso e ensolarado Superman (2025).

Portanto, o cineasta se compromete em criar planos agonizantes da gangue abrindo o rosto de Hagen, de seu nariz aberto com as cartilagens expostas ou dos assassinatos viscerais que comete quando se torna um monstro. Esses atos são singulares: ora elimina um inimigo arrancando sua traqueia, ora usa sua própria pele para sufocar outro, sendo uma experiência prazerosa para os aficionados por boas mortes no gênero. Mike Flanagan, nome hypadinho das séries de streaming, assina o roteiro e cria situações nas quais o Terror Corporal é protagonista, como a tensa cena do avião – essa que tem uma piscadela bem sacana sobre o enjoo que o público está sentindo na sessão.
A cidade de Gotham é utilizada como dispositivo que desperta o subgênero de máfia em Cara-de-Barro, estruturando quadros e arquétipos do noir. Os becos são sempre bem-vindos às paisagens da metrópole, com toda a sujeira pertencente a eles, e refletem a corrupção das falidas instituições responsáveis por proteger civis, e o tropo narrativo femme fatale está presente. Assim como o longa protagonizado por David Corenswet, este tenta driblar a má gestão dos filmes de herói durante a década dominada por Kevin Feige. A história não só brinca com os gêneros, mas permite (ufa) que suas personagens sejam pessoas: elas possuem empregos, amigos, amantes, problemas reais. Caitlin Bates (Naomi Ackie) e seu noivo (Max Minghella) enfrentam problemas em território íntimo ao serem atravessados pela narrativa principal.

Este filme não se concentra em tecer um futuro, em encaminhar a próxima etapa nas cenas pós-créditos (algo que está sendo criticado por quem também vê utilidade na Arte) ou tornar seus heróis meros peões de uma máquina feita para fazer dinheiro. Tampouco ele segue fórmulas em escala comercial como o MCU. Cara-de-Barro se compromete em ser apenas um filme e, como filme, quer que o espectador sinta repulsa, medo (com os jumpscares) e até tesão – algo escasso nos puristas produtos da Casa das Ideias. Muitas interações de Hagen e Bates mergulham na tensão sexual – com uma leve inspiração naquele beijo de Homem-Aranha (2002) – e há uma cena de sonho erótico explícito e romântico.
Para curar suas cicatrizes, Hagen passa por um procedimento que envolve aplicações de seringas em seu rosto, conduzidas por Bates. A primeira vez que o objeto fálico toca seu rosto pode ser considerada como o sexo entre a dupla protagonista, que remonta a uma passagem de Junky (1953), literatura beat escrita por William Burroughs, em que o personagem principal recebe uma injeção de drogas do amigo: “Afrouxei a gravata e o conta-gotas despejou na minha veia. A cocaína me atingiu a cabeça, uma tontura e tensão agradáveis, enquanto a morfina se espalhava pelo meu corpo em ondas relaxantes. ‘Foi bom?’, perguntou Ike, sorrindo. ‘Se Deus criou algo melhor, guardou para si’, eu disse“. Hagen conquista a beleza, Bates o sucesso da sua criação; ambos chegam a algum lugar.
Falando em criação, há uma dinâmica gótica de criador e criatura conduzida em Cara-de-Barro. Tal como Frankenstein (1818), a cientista se sente culpada por criar um monstro que, em busca de vingança, deixa corpos pelo caminho e tenta eliminá-lo, conforme sua relação com ele se estreita gradativamente. Ela brinca de Deus ao tentar impedir a morte, a doença e conservar a beleza. Assim como o noir, o filme discute questões inquietantes do nosso tempo; a geração beat subvertia o estilo de vida normativo americano e propiciava uma nova linguagem. Não que Watkins seja um expoente de um movimento cinematográfico, seria um exagero afirmar isso, mas ele evita cair nos espaços comuns do subgênero de herói e compõe um rico horizonte de referências: do Terror Gótico do século XIX aos filmes de bonecos da década de 2010. Filme legal é assim mesmo.
