Por uma Arte Revolucionária

Editorial

Por carregarmos, com muito orgulho, o nome da universidade conosco, não pudemos nos posicionar de maneira mais clara e partidária nesse período eleitoral, ainda que seja bem óbvio a nossa posição nessas eleições. No entanto, a política não começa nas eleições e nem acaba nelas, se faz todos os dias, por isso, decidimos nos posicionar quanto a forma como a nossa cultura está se desenvolvendo. Já discutimos sobre os ataques que ela vêm sofrendo nos últimos anos, mas também é preciso pensar o tipo de cultura que fomentamos recentemente, afinal, ela também carrega culpa na ascensão do Bolsonarismo.

O Persona acredita que o posicionamento político vai além de escolher candidatos ou partidos, vai de encontro a um ideal de mundo. Somos um grupo de jornalismo cultural e preservamos a cultura e a Arte de nosso país a todo custo. Acreditamos e defendemos que ela não é apenas entretenimento, é uma forma de expressão individual e coletiva, um documento sobre o nosso tempo e, principalmente, uma forma de sentir, agir e interpretar a realidade. 

A Arte brasileira é rica e diversificada, uma das mais respeitadas historicamente no campo do Cinema, da Música e da Literatura, por exemplo. Em um país tão vasto, com olhares e experiências tão distintas, a cultura brasileira é meio de comunicação e identificação entre diferentes povos e regiões e são por esses motivos que devemos protegê-la.

A cultura, no entanto, não é boa ou ruim por essência, isso depende de como é usada e a pluralidade dela. Livros, filmes, jogos, música e outras formas de Arte muitas vezes contam histórias ficcionais, porém, elas também constroem a realidade. Essas obras contêm ideologias, podem ser utilizadas para disseminá-las junto com discursos preconceituosos; assim como também pode invisibilizar povos, silenciar grupos minoritários e ser empregado como forma de manipulação e a favor de interesses políticos.

Por esses motivos devemos refletir sobre a própria forma que nossa cultura adquiriu com o passar dos anos e como deixamos de produzir no campo artístico e cultural figuras como Rogério Sganzerla, Eunice Gutman, Glauber Rocha, Rita Lee, Pelé e Garrincha. Essas personas não são necessariamente revolucionárias, mas sua arte e linguagem sim. Dos decoloniais e conflituosos diretores de cinema, à cantora ativista e transgressora, até os dois homens negros que, em um país racista, trouxeram autoestima para uma nação. Na atualidade assistimos passivamente o surgimento de cantores que voltam suas obras e posicionamentos para o conservadorismo; diretores, atores e atrizes condescendentes com o domínio do cinema americano, e jogadores cada vez mais alienados e isentos. Uma arte revolucionária transformará um povo contestador, uma arte condescendente, fará um povo passivo.

Não é sobre a Arte não ser entretenimento, ou que ela sempre deve fazer refletir, mas ter em conta que ela sempre influenciará na construção de um imaginário popular. É preciso torná-la revolucionária, para que não se torne reacionária. Isso não quer dizer deixar de fazer filmes populares, pelo contrário, a MPB e as pornochanchadas eram muito populares e muito contestadores. Também não quer dizer sobre fazer arte especificamente voltada a esquerda, o estadunidense Clint Eastwood é conservador de direita, porém, faz longas mais questionadores e críticos do que muitos cineastas de esquerda.

Vencidas as eleições, a manutenção da cultura não é suficiente, ainda há muitas histórias não contadas e pessoas não ouvidas. Devemos tornar a cultura revolucionária porque ela não se resume a obras artísticas, mas também carregam valores machistas, racistas, homofóbicos e elitistas. Bom termos em mente que cultura e arte não são sinônimos. Enquanto a cultura não for revolucionária, ela estará ao serviço do capital e portanto irá englobar a Arte como forma de esvaziar o discurso.

“Cultura é a regra, a Arte a exceção” – Jean Luc Godard em Je vous salue, Sarajevo

Guilherme Moraes – Editor-chefe

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