Chicas Tristes encontram seu local de paz eu meio ao caos adolescente

Cena de Chicas Tristes. Plano zenital que mostra duas mulheres boiando de costas sobre a água azul-turquesa de uma piscina de azulejos. Ambas surgem de braços abertos e olhos fechados com uma expressão tranquila e de entrega. A mulher à esquerda veste uma roupa de banho estampado escuro, enquanto a mulher à direita usa uma roupa de banho liso vermelho. Os reflexos ondulados da água e sombras projetam padrões dinâmicos sobre os seus corpos submersos
O filme marca a estreia de Fernanda Tovar em longas metragens (Foto: Colectivo Colmena)

Guilherme Moraes

Chicas Tristes de Fernanda Tovar é um filme mexicano sobre a relação entre Paula (Darana Alvarez) e La Maestra (Rocio Guzman) que se torna conturbada após uma delas ser abusada sexualmente em uma festa. O longa faz parte da seção Competição de Novos Diretores da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e contou com a presença da diretora no evento.

François Truffaut dizia que não existe filme anti-guerra, afinal, a natureza espetacular e entretizante do cinema acaba por fascinar e embelezar. O mesmo ocorre com as cenas de abuso sexual e a maneira de representá-las sempre foi uma dúvida constante dentre os cineastas. Então, Fernanda Tovar segue o caminho já trilhado por Ida Lupino: não filmar a cena. Até por questões narrativas, essa escolha da diretora mexicana funciona na obra.

Paula é abusada no banheiro de uma festa, mas por ser muito nova e inocente, não tem noção da violência que sofreu, essa consciência vem depois de alguns dias e de se abrir com La Maestra e as duas pesquisarem sobre. Diferente do habitual, Tovar decide focar na melhor amiga de Paula, ao invés da vítima. De certa maneira, a diretora acaba não condicionando a personagem eternamente a esse posto de agredida ao escolher a protagonista.

Cena de Chicas Tristes. Plano médio visto de trás de duas jovens sentadas lado a lado em cadeiras de praia ao ar livre. Ambas erguem os braços em direção ao céu e juntam as mãos para formar a silhueta de um coração com os dedos. A menina da esquerda tem cabelo escuro apanhado com ganchos coloridos, enquanto a da direita tem cabelo castanho curto. Ao fundo, destaca-se um céu azul límpido pontuado por nuvens brancas volumosas.
O filme fez sucesso na seção de Novos Diretores da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Colectivo Colmena)

Paula receia estar nesse lugar de vítima. Ela diz que não gostaria que seu pai soubesse para que não a olhasse de forma diferente. No entanto, Fernanda Tovar é sagaz ao mostrar que independente de suas vontades, ela estaria nessa condição pela natureza do ato e do contato diário com seu agressor. Eles estudam na mesma escola e praticam o mesmo esporte (natação), logo, os espaços de refúgio que ela poderia ter são corrompidos.

A forma como a câmera de Rosa Hadit Hernández (fotografia) capta os corpos balançando na água, com tanta suavidade e naturalidade, com pouco enfoque nos rostos, traz a sensação de tranquilidade aos personagens. A música Anunciação de Alceu Valença, tocada em uma cena de nado, reforça esse lugar apaziguador para esses adolescentes. Desta forma, a obra reforça o poder destrutivo do ato, afinal ele perturba o espaço de paz de Paula e o torna um local de conflito e angústia. Todavia, é bonito como ele também se transformou em uma possibilidade de recuperação e força para a personagem. Ela não deixa de fazer o que ama pela ação de outros.

Chicas Tristes é uma obra surpreendente na seção de Novos Diretores. Fernanda Tovar mostrou muito potencial com muita sensibilidade para filmar questões delicadas sem explorar a dor dos personagens. Existem ideias de uma cineasta de verdade em sua obra que parece ir de Ida Lupino até Céline Sciamma. O longa escolhe a amizade, conturbada e amorosa, porque em um mundo violento, principalmente com mulheres, a amizade e o amor são refúgio.

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