
Davi Marcelgo e Isabela Pitta
Segunda-feira, 26 de outubro de 2026, um dia após as eleições presidenciais do Brasil. Um tucano visita a janela da casa de alguém, que publica no X (antigo Twitter). Um outro usuário responde ao tweet, dizendo “[…] Vocês acham que a sabedoria ancestral dos pássaros, os cães com bandeira do Lula, o cérebro descentralizado dos fungos, a comunicação intraterrena das árvores, não sabiam o que estava em jogo? Muitos mundos foram salvos no domingo”. O texto incita uma crença no invisível, num conhecimento que pode ser considerado místico, oposição do racionalismo e ceticismo que engoliu as dinâmicas de relações intrapessoais e não deixou que nem o Cinema pudesse escapar do movimento. O Bosque Selvagem (2026), produzido pela Laika, materializa a fé por meio da favorita técnica stop motion.
Chris Butler, que já firmou parceria com o diretor Travis Knight outras duas vezes, escreve um enredo clássico (adaptado do livro homônimo de Colin Meloy). Crianças que adentram um mundo fantástico e passam por transformações, ganhando atributos como coragem, força e espírito de liderança. No entanto, Prue McKeel (Peyton Elizabeth Lee) já possui todas essas características – confronta um bando de corvos assustadores no primeiro ato – então, o que precisa ser encontrado no interior da garota? O credo no quimérico. Apesar de seu pai (Jake Johnson) contar mitos para a família, ela é cinica quanto aos respaldos dessas narrativas na realidade. A tradição da oratória e a crença em histórias que atravessam gerações, das lendas urbanas das pequenas cidades às superstições banais do cotidiano, estão sob ameaça, sobretudo porque o realismo impera e pela ausência das reuniões em comunidade, sozinhos em nossos celulares.
Esse afastamento das ficções lúdicas e folclóricas interfere na experiência de espectador e filme, fazendo com que aquele adote uma postura enfadonha com a obra. Recentemente, no obsoleto aplicativo do passarinho azul (veja como há uma segunda referência a redes sociais neste texto), uma pessoa questionou como os personagens de Jurassic Park (1993) não notaram o tiranossauro no clímax. Não é só o clássico dirigido por Spielberg que passa por dúvidas sobre seus acontecimentos, o que aponta para um comportamento que mina o desprendimento para curtir a Arte. O Cinema é mentira, não é necessária uma resposta lógica para o surgimento do dinossauro, mas ser afetado emocionalmente pelo o que está em cena – deve-se dar importância no como acontece e não o que acontece.

O Bosque Selvagem suscita a crença no tradicional ao materializar a produção na animação stop motion. Em uma era dominada pela Inteligência Artificial (IA), em que desconfiamos o tempo todo se o que vemos é verdade ou manipulação, Travis Knight dirige uma obra feita por mãos humanas, que discursa sobre aceitar experiências naturais, como a morte, direito que está em jogo pela IA. Pessoas que morreram são inseridas em vídeos abraçando parentes ou chegando no paraíso, enquanto outras têm a velhice reimaginada, processo humano profanado ao construir um caminho linear na vida de alguém, sem acidentes, doenças ou tristezas. A antagonista Alexandra (Carey Mulligan) cria um clone de seu filho morto e promove o caos para obter o que uma vez a pertenceu.
Como é de praxe do estúdio Laika, conhecido pelo primor estético entregue em Coraline e o mundo secreto (2009), a animação deste novo filme impressiona tanto que parece ser uma união técnica harmônica entre tecnologias de impressão 3D e estruturas físicas feitas manualmente. A extrema fluidez dos movimentos e a veracidade das expressões das personagens faz com que, em muitos momentos na sala de cinema, os olhos do telespectador esqueçam, por completo, que aquela produção foi executada quadro a quadro.
Com o avanço tecnológico, o conceito de Arte é colocado em xeque e cria-se uma caça por aquilo que é excessivamente lapidado. Em busca de uma perfeição ilusória, fatores artísticos importantes são deixados de lado até mesmo no artesanato. Parte da experiência mágica de assistir a um stop motion é imaginar, intrinsecamente, as mãos que possibilitaram que todo aquele universo existisse, em seus mínimos detalhes e, também, em seus defeitos mais inatos. Em O Bosque Selvagem, esse sentimento é confuso e a produção parece, em certos pontos, mais uma produção 3D qualquer.

Apesar disso, o filme não somente se apoia no artesanato ao nível temático e material, também engloba o discurso de ‘a união faz a força’, algo que remete ao mês de outubro brasileiro. A mobilização estudantil, a harmonia de jovens e idosos, provocou a virada no resultado das eleições presidenciais em uma trama repleta de milagres e marcadores singulares “Nunca antes na história deste país”, diziam os jornais na manhã seguinte ao segundo turno. Todas essas pessoas que tomaram as ruas para si e foram votar, fizeram pela fé. Acreditando que seu esforço faria a diferença no resultado – e fez. A vilã do filme é derrotada porque os povos se unem e creem: “são pessoas boas e honestas que merecem viver, querida, e se tivermos que lutar, que assim seja”.
Como se trata de um filme sobre acreditar, o cineasta costura dúvidas em quem assiste. O mundo diegético está dividido, há governos em guerra, prisioneiros políticos e versões da mesma narrativa; até uma certa altura, é difícil saber qual é o lado certo dessa história. A protagonista, entre nós e o longa, é a única a se posicionar e subverter a narrativa clássica em que o personagem fica em uma encruzilhada: faz isso pelo instinto, algo irônico para quem não enxerga sem a razão.
Assim, essas eleições foram – e ainda estão sendo – uma disputa de narrativas, ainda que os resultados sejam verificados e possuam evidências na realidade. A fé foi um impulsionador fundamental para a virada no rumo do Brasil e até a superstição, aquela que parecia perdida, voltou. Seja com a coincidência do número do candidato na comanda de um restaurante ou na hora mostrada no relógio. O Bosque Selvagem, portanto, induz o movimento de acreditarmos, novamente, nas ilusões do Cinema e no mundo invisível, a partir de um milagre bobo e infantil, que fizeram de Sinais (2002) um filme emblemático nesse sentido.
