
Guilherme Moraes
Fuga para Odessa (1994), primeiro longa da carreira de Gray, foi exibido na seção Homenagem e Retrospectiva James Gray. Um dos maiores nomes da geração noventista de Hollywood é o homenageado e o tema da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, com direito a abertura do festival com seu lançamento Tigre de Papel e a assinatura do cartaz do evento. Sua estreia não é nada menos do que uma obra-prima, e sua relação com a pintura já se mostrava desde essa época, quando transformou seu filme em uma tragédia barroca sobre os hábitos como herança, e a violência masculina como forma de comunicação e expressão.
A premissa é simples: Joshua (Tim Roth), um assassino profissional, precisa voltar a Little Odessa, região de Nova York em que ele foi criado e que reside sua família e conhecidos. Dentre eles estão seu irmão Reuben (Edward Furlong), um garoto solitário e perdido; seu pai Arkady (Maximilian Schell), homem violento e infiel; sua mãe Irina (Vanessa Redgrave), que é carinhosa e está frágil e doente; alguns antigos amigos que são bandidos e sua ex-namorada Alla (Moira Kelly). A volta de Joshua abala todas as estruturas daquele vilarejo e, assim como o diabo, ele vem para expurgar os pecados e criar novos pecadores.

James Gray explora a violência masculina como fruto de uma cultura, ela é reproduzida e ensinada a partir do olhar. Gray e Tom Richmond (diretor de fotografia) filmam os pecados de Joshua e Arkady em uma posição de voyeur, eles estão sendo vistos e inspirando Reuben. Tem uma passagem em que Joshua encontra seu alvo e vai atrás dele para matá-lo. Nesta cena, a câmera filma em zoom como se estivesse do outro lado da rua. Em outro momento, Arkady tenta fazer sexo com sua mulher, mas esta grita em agonia; a cena é gravada a partir de uma fresta na porta. É dessa forma, a partir da observação, que Reuben vai aprendendo a ser violento e até pervertido. Quando o próprio tenta olhar por baixo da roupa de Moira Kelly, essa atitude vem carregada de um passado.
O filme então é, acima de tudo, sobre relações paternais. Reuben, mesmo sendo jovem já é um fumante, e vemos a mãe, em sua primeira aparição, sendo observada pedindo um cigarro. Nenhum dos personagens se dá conta da influência que tem na formação do garoto, o próprio Joshua não percebe o momento em que ele se torna essa figura paterna para seu irmão. Arkady também demonstra essa alienação quando diz para Joshua “Eu não sei o que te deixou assim”. Ele, com as agressões em casa e sua promiscuidade, tornou seu filho um assassino. A violência não dá fim em si mesma, ela é contínua e aumenta a cada próximo alvo.

A bestialidade dos personagens masculinos é uma maneira de se comunicar com o outro. Nesse sentido, ele lembra muito o Oeste Outra Vez (2024) de Erico Rassi (que inclusive já admitiu ser fã do James Gray) em que os homens recorriam às armas pois não conseguiam conversar. Se os homens são forjados sobre um discurso de masculinidade e virilidade culminando na supressão de seus sentimentos, é a partir de atos agressivos que eles aprendem a se expressar. Para dar bronca em seus filhos, Arkady bate neles; para se conectar com Reuben, Joshua dá soquinhos nele, e para mostrar amor, Joshua enforca Alla durante o sexo e toca seu corpo de forma bruta. A violência é linguagem, é cultura, mas nem toda cultura é boa e, nesse caso, é destrutiva.
O irônico é que a única pessoa que parece perceber a necessidade de romper com as estruturas é Joshua. Tim Roth traz um personagem travado e contido, incapaz de expressar alguma reação. No entanto, é possível ver a tentativa de fugir de padrão e as barreiras que se impõe. Joshua não consegue se abrir com Alla mesmo querendo e demonstra carinho e preocupação com Reuben. No entanto, todo gesto de afeto é interrompido por um ato hostil. Como, por exemplo, no momento que os irmãos estão no zoológico, e Joshua faz um carinho no cabelo de Reuben e logo em seguida aponta a arma para o zelador. Joshua resolve qualquer mínima ameaça assim. É dessa forma que se vê o poder de uma cultura, pois ela comanda a maneira de uma sociedade pensar e sentir a vida, tornando o processo de mudança extremamente difícil.

Essa história ruma à tragédia e Gray filma como um quadro barroco. É impressionante a capacidade de James Gray em compor cenas logo em seu primeiro longa, se utilizando muito de luz e sombra e do figurino (Michael Clancy) que conversa com os cenários (Michael Preston e Charles Ford) e define os personagens. A maioria deles usam roupas escuras de forma que se destacam em ambientes caseiros, como se não pertencessem àquele mundo, mas se mesclam à escuridão das ruas e fazem parte das sombras da cidade de Little Odessa. A exceção são Reuben, que ainda carrega a inocência da juventude, e Irina, que carrega a pureza e a beleza nos gestos de carinhos cotidianos.
O barroco é historicamente um movimento artístico ligado às contradições e extremamente religioso. O diretor então se aprofunda nesses aspectos. A imagem não só uma pintura, como também diz muito sobre as próprias complexidades dos personagens e daquele mundo. A trilha sonora de Dana Sano traz consigo esse aspecto mais religioso, muito usado nas cenas com a mãe. É uma divindade que perde sua força vital por causa de sua família corrompida. Se Irina é uma deusa, Joshua é o demônio, contudo, não por sua maldade. O objetivo do Diabo não é trazer o mal, e sim expor os pecadores e criar novos. Joshua então volta para Little Odessa para mostrar todos os pecados do pai. Dessa forma, a religiosidade também se apresenta para o mal, como o momento em que o protagonista executa um homem de joelhos.
O conflito derradeiro acontece por causa que Arkady avisa os inimigos de Joshua onde ele está e isso culmina na morte de seu filho mais novo. O filme termina com Alla e Reuben falecendo em um tiroteio. Reuben morre pelas mãos de um amigo de forma acidental, porque no final de tudo a violência não tem lados e acerta todos que se vêem presos nesse ciclo. A escolha final de Arkady foi a derradeira. No fim, o filho pagou pelos pecados do pai.
“Quando um menino tem seis anos ele diz que seu pai pode fazer tudo. Aos 12, ele diz que seu pai pode fazer quase tudo. Aos 16, ele diz que o pai é um idiota. Aos 24, ele diz então que seu pai não era tão idiota. Depois, aos 40 anos, ele diz: ‘ah, se eu pudesse perguntar isso ao meu pai…’ Receio que os meus filhos nunca vão dizer isso”
