Persona Entrevista: Fernanda Tovar

Arte personalizada do Persona Entrevista para a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. No canto superior esquerdo, destacam-se o logótipo do Persona em forma de olho estilizado contornado em amarelo e o selo da '50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo'. Ao centro e à esquerda, os textos 'PERSONA ENTREVISTA' em letras maiúsculas brancas e 'Fernanda Tovar' em destaque amarelo. À direita, emoldurada por uma borda amarela irregular, surge a fotografia do rosto da cineasta Fernanda Tovar, com cabelos castanhos ondulados, camisa branca e um leve sorriso ao ar livre.
A diretora esteve em São Paulo para apresentar o seu filme na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Arte: Maria Fernanda Beneton)

Guilherme Moraes

O Persona entrevistou a diretora mexicana de 35 anos, Fernanda Tovar, durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, sobre seu primeiro longa-metragem, Chicas Tristes. A obra conta a história de amizade entre La Maestra (Rocio Guzman) e Paula (Darana Alvarez), que sofre transformações após um evento traumático acontecer durante uma festa.

A Ligação com o Brasil

Durante o filme, é possível perceber que há uma clara relação das personagens com o Brasil, desde as personagens que almejam viajar para o país até a trilha musical (Wissam Hojeij) que conta com Anunciação, de Alceu Valença, em uma passagem marcante. Fernanda Tovar conta que seu interesse pelo Brasil começou na escola de cinema, quando entrou em contato com documentários brasileiros e, dentre eles, citou que se interessa bastante pelo trabalho de Eduardo Coutinho e dos filmes Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo (2009) de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, e Santiago (2007) de João Moreira Salles.

Além disso, a cineasta falou sobre a importância de fazer com que os sonhos das personagens seja viajar para o Brasil, como uma mudança para uma mentalidade decolonial. “Para mim era importante que o sonho das personagens não fosse ir para os Estados Unidos […] porque eu acho que é importante trocar a mentalidade do que é aquisição do sucesso […]. Acho que não dá mais para continuar sonhando com os Estados Unidos”.

Foto das atrizes de Rocio Guzman e Darana Alvarez. Plano picado aproximado das duas jovens deitadas de costas numa cama com colcha azul escura, com as cabeças voltadas para a câmara e cabelos escuros espalhados. À esquerda, Rocio Guzman, uma jovem de pele morena e cabelos encaracolados veste um top azul-claro brilhante, encarando a lente com uma expressão serena. À direita, Darana Alvarez, outra jovem, surge com a cabeça deitada para o lado e sorrindo abertamente, vestindo um corpete vermelho com alças de pérolas decoradas com um laço prateado e um colar com pendente de coração azul. A fotografia tem uma iluminação direta de flash e textura nostálgica de película analógica.
Fernanda Tovar tem forte ligação com o Brasil, inclusive sabe falar portugues (Foto: Colectivo Colmena)

Amizade e esperança

O longa fala sobre uma temática sensível como o abuso sexual, mas ao invés de retratar a vida de Paula, a pessoa que sofreu, Fernanda Tovar prefere dar o protagonismo para La Maestra, sua melhor amiga. “Era impossível fazer o filme desse ponto de vista da vítima sem dar a prioridade para você falar da violência… Não fazer um filme sobre o que te mata, mas sobre o que te mantém com vida, e para mim era essa prioridade fazer um filme cheio de esperança”. A diretora explica que essa abordagem tinha a intenção de falar mais sobre a amizade e a solidariedade do que sobre a violência.

No entanto, apesar desse olhar, em nenhum momento Tovar abre mão de discutir sobre as questões envolvendo o abuso e o trauma. “Eu acho que o que eu queria provocar é uma reflexão sobre como é que a gente olha para as vítimas e as consequências… a gente nem imagina (o sentimento) a culpa, a vergonha, coisa assim”.

A diretora filma as cenas na piscina de forma que sempre valorize aquele espaço como um lugar de paz e tranquilidade. No momento em que Paulo sofre o abuso por parte de um membro da equipe de natação, aquele lugar se torna um território de disputa para a personagem. Assim, o longa transforma a luta pelo espaço físico, como uma briga para a superação dos traumas e demonstração própria de força. “Eu acho que também tem muita força em falar: ‘eu vou ficar aqui e esse é meu lugar’ e pronto… é importante também, falar o que aconteceu com os sonhos, o que acontece com os espaços, porque normalmente a mulher abandona tudo e pronto”.

Cena de Chicas Tristes. Grande plano detalhado de fragmentos pontiagudos de um espelho partido sobre uma superfície de pedra clara. Nos cacos de vidro refletem-se, de forma fragmentada, os rostos de Rocio Guzman e Darana Alvarez: no pedaço da esquerda vê-se um olho escuro atento de Rocio Guzman, enquanto nos pedaços centrais e da direita surgem fragmentos de nariz, lábios entreabertos e olhar compenetrado de Darana Alvarez. No canto inferior direito, vê-se parte de um pulso com pulseiras de miçangas e pequenos amuletos.
Fernanda Tovar mostra que por vezes a vítima de abuso sexual demora para processar o ocorrido (Foto: Colectivo Colmena)

A trajetória do longa de Fernanda Tovar conta com a vitória na Mostra Geração do Festival de Berlim, além de ser selecionado nos festivais de Cannes, Tribeca, San Sebastian e Cartagena. Ele chegou na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo na seção de Competição Novos Diretores e fez sucesso com público, além de arrebatar o prêmio do júri de Melhor Direção para Fernanda Tovar e o prêmio da crítica de Melhor Filme Internacional.

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