
Mariana Bezerra
Uma Família, filme belga e holandês, do diretor Mees Peijnenburg, faz parte da programação da 50ª Mostra Internacional de São Paulo na seção competitiva Novos Diretores. A história acompanha dois irmãos, Nina e Eli, o caçula, em meio ao divórcio conflituoso de seus pais. A obra é dividida em três partes: a primeira mais extensa, na perspectiva de Nina (Celeste Holsheimer), a segunda sob a de Eli (Finn Vogels) e a terceira, que divide um pouco da visão de ambos. Os dois primeiros atos apresentam praticamente os mesmos acontecimentos sob perspectivas distintas, o que pode soar monótono, mas, na verdade, carrega uma sensibilidade e delicadeza emocionantes.
A razão da separação do casal, para além da nítida indiferença e ódio, não é esclarecida, o que, de forma alguma, representa um problema para o filme. Pelo contrário, o roteiro assinado por Peijnenburg e Bastiaan Kroeger centraliza a narrativa no processo enfrentado pelos filhos diante desse contexto, seja na esfera pessoal ou familiar, além de tecer uma análise interessante e específica sobre o impacto do caos sobre o laço fraternal. Assim, o longa mergulha nas mentes e corações de uma adolescente e uma criança tentando entender a si mesmas em fases que já são naturalmente desafiadoras e marcadas por incertezas.
No caso de Nina, a adolescência, o relacionamento com sua namorada e as aulas de dança, ocupam o centro de sua vida. É perceptível como a tensão familiar impacta esses eixos e alimenta inseguranças sobre o seu relacionamento amoroso. Aqui, a clássica – e muitas vezes estereotipada em outros contextos – revolta adolescente se manifesta. No entanto, entre portas sendo batidas, o irmão ignorado e tons de ironia que irritam, o filme não falha em captar o desgaste emocional que ela carrega na posição de filha e irmã mais velha. Nesse sentido, é interessante que o roteiro permita à garota ao erro, a falha comunicacional, especialmente com o caçula que deseja e precisa do seu acolhimento, construindo um arco de amadurecimento delicado e compreensível.

A jovem atriz desempenha um ótimo papel ao representar essa oscilação de sentimentos. Em uma cena emblemática, na casa da família onde agora vive o pai, Nina acorda ao som de uma música eletrônica e dá de cara com o irmão e o pai dançando livremente. É nítida a dificuldade da menina de se soltar e descarregar as angústias. Quando isso de fato acontece, o resultado é um bálsamo de harmonia em meio ao caos: os três membros se divertindo, sem uma preocupação sequer, na sala de estar que já foi mais do que um espaço físico, um lar. Aqui, a música e a dança ocupam esse lugar no cinema, assim como em Aftersun (Charlotte Wells), onde pai e filha se divertem ao som de Under Pressure.
Essa casa, claro, ocupa um espaço simbólico na narrativa. Os cenários são bem construídos e manifestarem antíteses: o apartamento em que antes vivia a família é cheio de livros, estampas e cores, enquanto o lugar provisório ocupado pela mãe (Carice van Houten) não parece menor em espaço ou inferior em qualidade, mas é, definitivamente, apático. Esses ambientes também provocam uma movimentação pendular dos filhos, que se organizam entre rápidas organizações de mala e se deslocam de uma casa para a outra, com tanta frequência – e exaustão – que o espectador se adapta a esse dinamismo muito bem conduzido pela câmera.
O impacto desse deslocamento parece ainda mais impactante para Eli, que não só perdeu a união dos pais, como precisa lidar com o distanciamento da irmã. A genialidade do filme está em valorizar as múltiplas perspectivas sem necessariamente sobrepor uma à outra. Nesse sentido, é revigorante ter contato com o clássico e genuíno fardo da irmã mais velha, mas também com a dor de uma criança, transmitida em grande parte pela rigidez do corpo de Vogels, esse pequeno-grande ator. É somente nos últimos momentos do longa que vemos os seus olhar, tão tenso ao longo do filme, descansar ao abraçar a irmã.

Uma Família, em português, não culpabiliza nenhum dos pais pela situação e realmente abarca as densas e múltiplas camadas que envolvem esse cenário: o cansaço e as incertezas que os quatro membros carregam. No entanto, é interessante perceber como, de certa forma, os padrões sociais se apresentam de forma quase natural quando o pai reafirma a sua posse sobre a casa, como provedor e ‘pagou pelo piso’, por exemplo, ou mesmo quando faz as crianças trocarem as roupas em suas malas por estarem sujas e dizer que a mãe estaria fazendo isso de propósito.
Além da perspectiva intimista criada pela divisão em atos, o filme também se diferencia pela capacidade de emocionar com o cotidiano. Diferente de outras obras com premissas semelhantes, como História de um Casamento (2019) e Kramer vs. Kramer (1979), Uma Família não vai ao tribunal, nem mostra advogados, mas compartilha com esses títulos um drama bem executado e encara a realidade nua e crua de uma forma que infringe a dor porque simplesmente é humano demais para que não o faça e, de alguma forma, com que isso parece reconfortante.
Logo no início das partes um e dois, em uma conversa particular, a juíza faz perguntas aos irmãos e, em cada ato, apenas um dos perfis está nítido, e o outro, desfocado, mas ainda lá. Entre tantos outros momentos, a fotografia (Jasper Wolfse) se destaca por seus quadros fechados. E, apesar da narrativa deles aparecer mais ou menos em determinado momento, há a certeza que, em meio ao caos, Nina e Eli estarão sempre lado a lado.
A Family | Official Trailer | Film by the Sea door het jaar 2026
