Diretora de No Céu da Pátria Nesse Instante, Sandra Kogut, fala do amor pela democracia, direito ao voto e a esperança na juventude

Na entrevista, cineasta revisita os pormenores do processo democrático ao conversar sobre documentário que retrata as eleições presidenciais de 2022

Diretora é conhecida pelos longas Mutum (2007), Campo Grande (2015) e Três Verões (2019) (Arte: Maria Fernanda Beneton)

Guilherme Machado Leal

“Tenho sangrado demais. Tenho chorado pra cachorro. Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”, versos da canção Sujeito de Sorte de Belchior e que foram interpolados pelo rapper Emicida em colaboração com Majur e Pabllo Vittar, exemplificam a sensação de esperança após um período repressivo. No contexto do documentário No Céu da Pátria Nesse Instante, idealizado e dirigido por Sandra Kogut, a música cinquentenária aparece durante os minutos iniciais da obra que retrata as eleições de 2022. Com início no oito de janeiro, um dos dias em que a democracia brasileira foi questionada, a cineasta retorna 4 meses e 3 semanas antes para mostrar o funcionamento da campanha eleitoral pela ótica da classe popular.

Para a produção, personagens dos dois lados foram escolhidos. Ao longo dos meses, a relação desses cidadãos com o exercício do voto, bem como o trabalho realizado por aqueles que acompanham os políticos durante as semanas que antecedem o primeiro e segundo turnos foram registrados. Reforço na importância das urnas eletrônicas, pormenores do curso realizado pelos mesários, proibição do porte de armas nos colégios eleitorais e importância do voto caracterizam a dinâmica de tópicos discutidos no evento que acontece a cada quatro anos desde 1989.

O 8 de janeiro mudou o recorte que o documentário teria (Foto: Acervo/Globo Filmes)

Em conversa  ao Persona Entrevista, a diretora explica de onde surgiu a ideia do recorte em que o filme se passa. “A gente estava em 2021, e era evidente que aquelas eleições de 2022 iam ser muito decisivas para o futuro, como está sendo de novo o momento agora. Naquela época, você via que aquilo ali podia determinar muita coisa. Eu tinha vontade de ter um leque de personagens muito diverso, de lugares diferentes do Brasil, de idades diferentes, momentos de vida diferentes, e queria que fossem dos dois lados do espectro político. De cara já era um filme impossível de fazer, porque para um documentário, você tem que criar uma relação de confiança com os personagens, e eu, claramente, era do lado da democracia. Como eu ia ter um personagem bolsonarista?”

O vermelho e o medo de voltar para um Brasil conservador preenche as campanhas de esquerda, enquanto o lado do bolsonarismo é muito calcado na religiosidade: em mais de um momento, há cenas dos eleitores na igreja, desejando um país melhor e orando pelo ‘bem’ do País. “De cara, esse já foi um problema. Fui tentando inventar um jeito de fazer um filme que pudesse chegar nesses dois lados de um jeito sincero e honesto, sem precisar usar de nenhum truque. Foi um desafio grande e envolveu várias etapas ao longo de um ano de filmagem”, afirma Kogut.

No Céu da Pátria Nesse Instante reforça direito ao voto e importância das urnas eletrônicas, pormenores do curso realizado pelos mesários (Foto: Acervo/Globo Filmes)

Ela explica que pediu aos personagens do documentário que usassem os próprios celulares como se fossem um diário. No entanto, ela percebeu que não conseguiria tocar a produção apenas com esse método: “Tive a ideia de criar equipes locais para não ter que viajar o tempo todo, focando em momentos-chave que ocorriam no mesmo dia em todos os lugares. Formei essas equipes no mundo de cada personagem para poder filmar regularmente. Foi um processo bem complexo e longo”. Por isso, no oito de janeiro, a cineasta mandou um fotógrafo de Brasília diretamente para as sedes dos Três Poderes da República.

“Quando a invasão aconteceu, eu estava em casa e liguei para o nosso fotógrafo em Brasília, que imediatamente se fantasiou de verde e amarelo e foi para o meio da invasão gravar. Fomos os únicos a fazer imagens de Cinema do 8 de janeiro”.

A partir desse momento, o recorte do documentário se torna outro. Ao se deparar com o ataque à democracia, a cineasta recalculou a rota da história que iria contar para que o público nunca se esquecesse daquela tarde. No Cinema, a memória serve como um registro do cotidiano de um povo. Mas aqui, esse conceito deixa de ser uma mera frase de uma crítica cultural. Na verdade, No Céu da Pátria Nesse Instante é a vida acontecendo em tempo real. Não é uma análise de uma outra nação. Pelo contrário, é um convite aos espectadores, para que adentrem às casas que sempre foram deles.

Conhecer os cômodos, limpar o chão, pensar soluções para decorar e dar vida àquele local onde a cidadania é exercida são algumas das funções que a produção carrega. A visita, neste caso, é do povo brasileiro, que percebe, por meio da experiência, como funciona o seu entorno. “Falar de democracia muitas vezes parece só um conceito abstrato, mas eu resolvi filmar todo o processo eleitoral porque ali é a democracia na prática, acontecendo de verdade”, expressa a diretora.

Um dos momentos mais formidáveis do documentário é a explicação para os jovens, detentores do futuro do Brasil, de como as eleições funcionam. A partir dos 16 anos, qualquer cidadão está apto para participar do processo democrático. Em relação ao papel da juventude, Sandra sintetiza a importância do poder que os mais novos possuem na política em 2026. “Estamos vendo uma mobilização linda nas ruas. Não podemos esquecer que metade do Brasil está trabalhando feito louco para garantir a democracia. O verdadeiro patriotismo é esse, desde as mesárias até as pessoas trabalhando voluntariamente pelo processo eleitoral na Amazônia e no Brasil inteiro”, destaca.

“Há muita esperança. Esse momento, apesar do medo, deu uma acordada em todo mundo. A juventude percebeu que as coisas não estão garantidas. Não podemos desanimar”.

No dia 8 de janeiro, invasores depredaram sedes dos Três Poderes da República em uma tentativa de destituir a democracia (Foto: Acervo/Globo Filmes)

A compreensão do passo a passo das eleições não foi uma novidade apenas para quem assiste à obra. De acordo com Sandra, ela também estudou sobre o Brasil durante a produção. “Naquelas eleições, as urnas eletrônicas estavam sendo muito atacadas e, talvez por isso, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) acabou me dando um acesso que, em tempos normais, eu não teria. Foi um acesso a todas as etapas do processo. Eu aprendi muito fazendo o filme, e não era uma questão retórica ou de argumentação, era concreto: o processo eleitoral é um exemplo de algo que funciona no Brasil”, frisa.

Em vez  de acompanhar personagens clássicos como os próprios candidatos aos cargos públicos, Kogut se afeiçoou pela particularidade daquele eleitor que você encontra na rua ao lado, na porta à frente. Para ela, era necessário analisar a relação do brasileiro com a política, sob a perspectiva de quem vive a alteração das tarifas de ônibus, a falta de leitos em hospitais e o aumento dos produtos nos mercados na pele.

“Escolhi personagens que estavam envolvidos com a eleição, mas sem ser as figuras clássicas, como candidatos. Queria os cidadãos comuns trabalhando nos bastidores para a eleição acontecer. Ao mesmo tempo, no lado bolsonarista, acompanhamos dois personagens que estavam diretamente ligados a essa ideologia. Como filmamos um ano inteiro, deu tempo de construir uma relação. Sempre fui muito transparente e direta; eles sabiam o que eu pensava. Eu dizia a verdade: não estava ali para convencer ninguém de nada, mas tinha uma curiosidade genuína de tentar entender como eles pensavam”, argumenta.

Estela, uma das personagens principais da obra, representa o brasileiro médio que apoia o processo democrático (Foto: Acervo/Globo Filmes)

As pessoas que aparecem no documentário sabiam da posição política da cineasta carioca, conhecida pelas produções Lá e Cá (1995), Um Passaporte Húngaro (2001), Mutum (2007), Campo Grande (2015) e Três Verões (2019), este último protagonizado por Regina Casé. Ao embarcar nessa jornada, Sandra se preocupou com a humanização de seus protagonistas. Por meio do cidadão, que tem o poder de escolha daqueles que irão cuidar da nação, ela contou um trecho específico da história nacional. “A principal regra era que o filme fosse guiado pelo fator humano. Eu tive muito cuidado de deixar o lado humano em primeiro plano”, ressalta.

“A radicalização da extrema direita destruiu o terreno comum que faz um país ser um país. Queria muito que o filme permitisse que a gente visse o ser humano ali, para tentar entender como aquela pessoa chegou a esse ponto de radicalização, porque só assim conseguiremos desatar esse nó. Não tem solução se não tentarmos o diálogo”, salienta a profissional. Entre um turno e outro, estratégias para a virada de voto são necessárias. Em momentos como esse, se despir e tentar convencer os indecisos é uma das principais funções dos que tentam lutar pela permanência da democracia. No ano de 2026, por exemplo, conversas com eleitores de candidatos que não ficaram entre os dois mais votados marcaram o período eleitoral.

A produção acompanha personagens engajados com as campanhas durante as eleições de 2022 (Foto: Acervo/Globo Filmes)

Sobre o contexto atual, Sandra compreende a seriedade do Brasil que vivemos, já que falas sobre alterar a Constituição Federal de 1988 e o tempo de um mandato presidencial foram mencionadas durante a campanha de Flávio Bolsonaro (PL). “De certa forma, acho o momento de agora tão ou mais difícil do que antes, porque achamos que já tínhamos superado essa tensão diária de ter a democracia ameaçada”, compara.

“As pessoas querem entrar pra história dessa forma, como criminosos. Você vê que eles não são cidadãos. Estão se igualando a terroristas mesmo. São fascistas”, frase dita por Estela, uma das personagens da obra, ao ver os ataques às sedes dos três poderes de Brasília sintetiza o sentimento vexatório que tivemos ao perceber a tentativa de desmantelar o nosso país.

O Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Palácio do Planalto tiveram suas estruturas depredadas e questionadas por aqueles que saíram de suas casas ‘em busca de um Brasil melhor’. Em certos veículos, foram chamados de ‘manifestantes’, ‘lutadores de sua pátria’. No entanto, a argumentação desses fiéis ao ex-presidente Jair Bolsonaro é pautada em destruir todo o sistema que faz a democracia ser a democracia, modelo de governo visto durante 105 minutos na obra de Kogut e que é marcado pela educação, compaixão e reconhecimento do direito ao voto.

Em uma das cenas mais impactantes da obra, adolescentes aprendem sobre a importância do voto (Foto: Acervo/Globo Filmes)

Para relembrar as palavras de Joaquim Osório Duque-Estrada, letrista do hino nacional, e os versos de Gonçalves Dias, responsável pelo poema Canção do Exílio, é preciso ter documentação e acesso a esse acervo histórico. É necessário preservar a memória. Linguagens como a do Cinema exemplificam um período de tempo. E o sol da liberdade, aquele sentido em raios fúlgidos, que ele brilhe no céu desta pátria e tenha a possibilidade de continuar irradiando o maior número de brasileiros possível. 

Por que como versou o poeta da primeira geração do Romantismo, “as aves, que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”. E um filho, este reverenciado no canto que representa o país, não foge à luta. O mantra, para aqueles que experienciam os primeiros anos da vida adulta, pode ser sentido em AmarElo, de Emicida. Quando ele nos pede para enxugar as lágrimas, respirar fundo e voltar pro ringue, é mais do que um hit, é um pedido de socorro. Com a fúria da beleza do sol, iremos atrás daquele diploma e (sempre) iremos escapar da prisão. Já dizia o rapper, faz essa por nóiz. Sempre faça isso por e pelos ‘nóiz’.  

Deixe uma resposta