The Last of Us, a sobrevivência e o que restou da humanidade no fim do mundo

Cena de The Last of Us. Close-up do rosto de Ellie, uma jovem com sardas e cabelos castanhos, olhando para cima com uma expressão de esperança ou admiração. Ao fundo, levemente fora de foco, Joel, um homem mais velho, barbudo, com cabelo e barba preta, com algumas partes grisalhas, é visto de perfil dirigindo um veículo. A iluminação é suave, destacando o olhar de Ellie.
O jogo ganhou uma continuação em 2020 (Foto: Naughty Dog)

Guilherme Moraes

Quando uma doença acometer a humanidade, o que será de nós? Em 2013, a Naughty Dog parecia muito interessada nessa questão ao lançar um dos jogos mais marcantes já feitos: The Last of Us. A história já é bem conhecida: o Cordyceps – um fungo capaz de parasitar insetos – sofreu uma mutação que lhe deu a capacidade de infectar corpos humanos, destruíndo o cérebro e as transformando em uma criatura agressiva. O mundo então entra em colapso, mais da metade da população foi contaminada ou morta, o exército da FEDRA tomou conta dos Estados Unidos, governando com punho de ferro e um grupo de revolucionários chamado Vaga-lumes luta contra a ditadura instaurada. O planeta virou de ponta cabeça com a doença e não há uma cura, até que surge uma pessoa imune ao fungo: Ellie (Ashley Johnson).

Nesse contexto entra o protagonista da história e que será o personagem controlado pela maior parte do game: Joel (Troy Baker), cujo objetivo é levar a garota para uma sede dos Vaga-lumes em que eles possam examiná-la. O jogo, então, é baseado em uma viagem no qual o destino não é tão bem definido. Parece um road movie, até mesmo pelo aspecto cinematográfico muito presente, com mais de uma hora de meia só de cutscenes.

Cena de The Last of Us. Joel e Ellie em um cenário pós-apocalíptico iluminado pelo sol. Joel, um homem de barba com camisa de sarja verde e mochila, olha para o alto. Ellie está ao lado dele, também olhando para cima com curiosidade. Ao fundo, uma estrutura abandonada coberta por vegetação.
Em 2023 a HBO Max fez uma adaptação do jogo para o formato série (Foto: Naughty Dog)

A base do jogo é a sobrevivência. Durante a viagem, a dupla precisa passar por diversos problemas com infectados, bandidos, militares ou qualquer um que ameace a vida deles. The Last of Us não te dá alternativas, nunca há a opção de poupar uma vida, o player é obrigado a matar qualquer ameaça. Logo no terceiro capítulo, A periferia, Joel, Ellie e Tess (Annie Wersching) encontram um homem vivo embaixo de escombros, o protagonista não hesita um segundo e somos obrigados a matá-lo. Entretanto, essa pouca flexibilidade não diz apenas sobre a necessidade, mas também da nossa limitação. Joel não é um avatar do jogador, ele representa a si mesmo e apenas somos permitidos acompanhá-lo e guiá-lo na jornada, no entanto, jamais o controlarmos.

Contrabalanceando essa rigidez, os confrontos com humanos ou ‘zumbis’ são mais permissivos, o jogador pode ser mais discreto ou mais direto dependendo do objetivo, porém, isso revela outro aspecto fundamental da obra: a humanidade. Em Ghost of Tsushima (2020), quando é preciso ser furtivo, o jogo não te permite fazer de outra forma, o erro é zero. The Last of Us está mais suscetível às falhas humanas, como ao tentar ser silencioso e não conseguir e ao improvisar diante do perigo.

Contudo, não é só nesses momentos que a humanidade aparece. Na realidade, é mais sobre quem seremos diante de uma situação como essa. A pandemia mostrou que o game não estava tão distante da realidade. Produtos básicos viraram luxo para muitas pessoas, o mundo polarizado, vidas negligenciadas, muitas mortes evitáveis e a união se tornou mais utópica. Na ficção, Vaga-lumes e FEDRA se matam enquanto mais e mais pessoas são infectadas; criminosos se unem para roubar e matar; na escassez alguns se tornam canibais e as histórias trágicas se acumulam.

Cena de The Last of Us. Joel e Ellie escondidos atrás de uma porta de madeira em um salão luxuoso e deteriorado. Joel estende o braço para proteger Ellie enquanto observa cautelosamente um inimigo armado com uma espingarda que caminha ao fundo. Joel tem uma máscara de gás pendurada no cinto.
The Last of Us ganhou o prêmio de Melhor Game de 2013 pela BAFTA Games Awards (Foto: Naughty Dog)

Sobrevivência e humanidade se misturam, principalmente na pele de Joel. A frieza expõe seu instinto, a raiva e a crueldade; e a memória da filha, o seu lado humano. A presença de Ellie evoca a lembrança de Sarah (Hana Hayes), e a relação dos dois cresce cada vez mais, arranhando as ranhuras desse Joel violento e revelando aquele visto no capítulo Cidade Natal. A ligação entre os dois será fundamental para o encerramento da obra.

Os elementos imersivos são essenciais The Last of Us. Uma característica do jogo é a possibilidade de interagir com o ambiente e coletar documentos. Cada carta coletada é um conto, os cenários com prédios destruídos cheios de escombros são carregados de histórias – todas elas terminando de maneira trágica, porém, elas podem ser belas ou apenas tristes, isso depende do ponto de vista de cada um. A forma de melhorar as armas é feita de maneira rústica. O personagem modifica à mão, com uso de alicates achados no mapa. Tudo colabora para uma experiência imersiva, porém, isso não é à toa, tudo tem um propósito.

Apesar da obra lidar com elementos do terror, ela pouco utiliza o jumpscare; o foco está na atmosfera amedrontadora e desconfortável, construída a partir dos sons dos estaladores, os esporos no ar, os corpos decompostos e os fungos nas paredes que criam uma sensação opressora. A tensão e o perigo constante são artifícios que tornam a jogabilidade interessante, e que, para além disso, serão fundamentais no encerramento.

Cena de The Last of Us. Retrato frontal de Ellie com uma expressão séria e melancólica. Seus cabelos estão levemente molhados e há sujeira em seu rosto. O fundo mostra uma paisagem montanhosa com árvores sob um céu nublado ao entardecer, criando uma atmosfera introspectiva.
O jogo foi remasterizado para versão PS4 (Foto: Naughty Dog)

Quando Joel e Ellie chegam ao hospital em que os Vaga-lumes estão sediando, Marlene (Merle Dandridge) – membro do grupo – a leva para a cirurgia e revela a ele que para conseguir uma cura, é necessário matar a garota para extrair o Cordyceps de seu cérebro. O protagonista então decide salvar Ellie, mesmo que tenha que condenar o mundo em troca. Uma decisão egoísta, porém, muito humana. Mas o que há de tão interessante nesse final? É a falta de controle do player e a autoridade do personagem. Enquanto jogamos, temos a falsa sensação de liberdade e domínio daquelas figuras, no entanto, quando Joel toma a decisão, é quase um tapa cara; o jogo se inverte, pois agora somos nós que seremos manipulado por ele, a única escolha que nos resta é completar a missão – matando todos os vaga-lumes – ou deixar de jogar. O nosso poder sobre ele era emprestado, o seu arbítrio é superior.

É interessante comparar com a produção da HBO Max, pois as linguagens são diferentes e, por consequência, geram efeitos diferentes. Por mais que se esforce, uma série jamais conseguirá ser tão imersiva quanto um jogo, a capacidade dos games de interagir e influenciar o ambiente faz o jogador estar muito mais presente naquele mundo. O problema da adaptação é não conseguir compreender essa diferença entre as linguagens, pois, por mais que seja muito fiel, o impacto no público é diferente. A relação entre Joel e Ellie na obra original é construída a partir das interações e missões, como uma ajuda para pegar uma escada, para atravessar um lago, a necessidade de protegê-la, etc; poucas vezes se utiliza de cutscenes com esse intuito. No seriado, a imagem e as dinâmicas entre os personagens é soberana, logo, a conexão com Ellie é mais profunda, porém, o medo e o sentimento de responsabilidade com o mundo é infinitamente menor. A decisão do protagonista no show é apenas dele, mas no game, parece ser um pouco nossa também.

The Last of Us não está interessado em falar sobre a humanidade como maligna, e sim falha. Há bondade, assim como há maldade; tem violência e carinho; amor e ódio. A necessidade de sobreviver não revela o lado ruim das pessoas, apenas explora todos os limites, das qualidades aos defeitos, e expõe que o humano é, acima de tudo, contraditório.

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