
Guilherme Machado Leal
Quando chegou às telonas em 2006, High School Musical iniciava – ao lado de Hannah Montana e Zack & Cody: Gêmeos em Ação, séries de 2005 – uma nova era no Disney Channel. Há 20 anos, o amor entre o capitão do time de basquete da escola East High e a aluna recém chegada na cidade de Salt Lake abriu portas para uma trilogia que abordaria o crescimento da juventude, a busca pelos sonhos e o encontro da sua melhor versão.
Um mesmo ambiente, inúmeros grupos sociais, aulas das mais variadas matérias, tudo isso compõe o cenário escolar do filme. Assim como na cadeia alimentar, cada aluno foi designado a uma função. Se você gosta de esportes, tem duas opções: ser um(a) líder de torcida ou se juntar aos times do colégio. Caso sua vocação seja qualquer tipo de arte, o grupo de teatro é o ideal. E para aqueles que amam as matérias regulares, entrar em sessões de estudos garante a ida para uma faculdade de nome.
É nesse contexto que se encontram os seis personagens principais do longa-metragem dirigido e coreografado por Kenny Ortega. Troy Bolton (Zac Efron) é o homem mais popular do lugar. Semelhante à relação que fãs possuem com jogadores, naquele território quem manda são os Wildcats – o time de basquete. Enquanto isso, Gabriella Montez (Vanessa Hudgens) é a aluna com um desempenho acadêmico perfeito. No entanto, há um universo que foi aberto tanto para a moça quanto para o rapaz: o da música. O primeiro contato entre eles acontece na noite de Ano novo, quando os dois performam Start of Something New, em uma festa antes mesmo das aulas retornarem. A partir disso, um vínculo que se desenvolverá ao longo da trilogia foi criado dentro dos dois.
O número Stick To The Status Quo exemplifica a máxima da obra. Embora tenha um leque de especialidades para os estudantes, entendemos que o East High é um lugar para os alunos serem quem os pais e os amigos gostariam que eles fossem. “Faça aquilo que você sabe” é uma das traduções do título da canção e, se ancorada ao momento em que Ryan (Lucas Grabeel) e Sharpay Evans (Ashley Tisdale) gritam “Temos que colocar as coisas de volta no lugar delas”, percebemos o padrão levado à risca naquele universo. É como se não existisse espaço para se arriscar, mesmo vivendo em um ambiente próprio para o seu desenvolvimento pessoal e profissional.
Assim como no esporte, o mundo dos talentos artísticos também possui competições. Os irmãos Evans estrelam todos os musicais administrados pela Sra. Darbus (Alyson Reed), mas têm o seu reinado ameaçado com a possível inscrição de Troy e Gabriella para a peça de inverno. Muito antes das adaptações de heróis com uma roupagem que ia à direção oposta do maniqueísmo, os ‘vilões’ de High School Musical já tinham suas camadas dissecadas e eram amados justamente pelas imperfeições.
Há quem considere Sharpay invejosa; há quem a veja como um ícone incompreendido. Na produção, o sexteto adota características e opiniões diferentes dos fãs dependendo do ponto de vista analisado. Aqui, os dilemas, as ações e os sonhos dos personagens estão distantes de serem retratados de maneira banal. Na verdade, o anseio pelo futuro e a forma como eles irão chegar até lá são os combustíveis dessa corrida maluca que é o ensino médio. Chad Danforth (Corbin Bleu) e Taylor McKessie (Monique Coleman), assim como os seus amigos, são de mundos diferentes, porém juntos, tentam separar Troy e Gabriella.

No pensamento do aluno médio do East High, as coisas não se misturam. Ao passo que Chad deseja ser um atleta para além das quadras da escola, Taylor tem o foco de se tornar Presidente dos Estados Unidos. A aliança incomum gera questionamentos sobre o papel da dupla enquanto amigos: “Será que eles são tão diferentes dos Evans?”. A possibilidade de escolher, tentar, cair e levantar, assim como em qualquer outra época da vida, é inegociável ao ser humano. Crescer tem dessas: tentamos aqui, conseguimos ali, finalizamos um capítulo e iniciamos outro. Apesar disso, no final, podemos dizer que vivemos.
Dessa forma, impedir os dois protagonistas de explorarem outras áreas dentro de si mesmos é evidenciar a própria limitação dos personagens ao redor. Em Breaking Free, o dueto do atleta com a estudante, os versos mostram a mudança do casal: agora, eles não têm mais medo. Pelo contrário, batem no peito e entoam no refrão: “Estamos nos libertando!”. Já We’re All in This Together, faixa que encerra o primeiro filme, pontua assertivamente o aprendizado daqueles alunos.
“Eu finalmente entendi (sim, sim)/Que todos os nossos sonhos (uh) não têm limitações” – We’re All in This Together
Após 20 anos, o legado de High School Musical segue memorável e fresco como um vento em um dia quente. As vocações e crises existenciais daqueles seis adolescentes dialogam com aquela geração e com as próximas. Ter obras que te ajudam a ser um jovem em construção é muito especial, mas crescer com as produções dirigidas por Kenny Ortega é melhor ainda. Quem deles seis você é? Não importa! Nessa trilogia, há lugar para todo mundo. Como Troy Bolton, símbolo da intersecção desses dois mundos (o esporte e as artes), disse no discurso de formatura de High School Musical 3: “uma vez um Wildcat, sempre um Wildcat”. Nunca se esqueça, estamos juntos nessa.
