Aviso: O texto contém alguns spoilers

Guilherme Machado Leal
“O amor é cego” e “o amor vence tudo” são provérbios populares usados aos montes por aqueles que veem o romance como algo incondicional. De fato, em alguns casos, ele pode ser. Mas o que fazer quando você descobre algo problemático sobre a paixão da sua vida dias antes do casamento? Essa é a história que O Drama pretende contar aos espectadores durante os 105 minutos que marcam o longa-metragem.
No meio de um dia corriqueiro e cheio de afazeres, Charlie (Robert Pattinson) para em um café e se encanta com Emma (Zendaya), que lê um livro e aproveita o momento de descanso. Inicialmente, ele tenta falar com a moça, porém é ignorado. Isso porque ela usa fone de ouvido e por conta de sua deficiência auditiva no lado direito do ouvido. Com o objetivo de se aproximar da jovem, o rapaz finge saber sobre a obra literária e, a partir disso, os dois interagem.
Anos se passam e os protagonistas estão prestes a se casar. Ensaios fotográficos, criação dos discursos da noiva e do noivo e a escolha das comidas, bebidas e da música que irão tocar no dia especial preenchem a semana atarefada do casal, que tem como padrinhos a dupla Rachel (Alana Haim) e Mike (Mamoudou Athie). Durante um dos compromissos pré casório, o quarteto decide brincar de “Qual é a pior coisa que você já fez na vida?”.

Atos como bullying e artimanhas infantojuvenis marcam o papo acompanhado por doses de vinhos. No entanto, a partir da revelação de Emma, tudo até aquele momento passa a ser questionado pois, na adolescência, a protagonista chegou a tramar um massacre na escola que estudava, mas desistiu ao perder a audição devido ao barulho provocado pelo disparo da bala quando fazia testes. Assim que conta o maior pensamento que já passou pela cabeça, ela entende que o seu casamento e a maneira como é vista por terceiros mudará para sempre.
Embora tenha como tema central de sua narrativa a discussão sobre a política de armas dos Estados Unidos, o roteiro e direção de Kristoffer Borgli utilizam da situação para garantir o tom cômico da história. Seja pelo uso do verbo shoot (atirar no inglês) em uma das cenas mais divertidas do longa – quando uma fotógrafa utiliza o verbo para falar a respeito das fotos que podem ser tiradas com parentes e amigos, mas Charlie associa a palavra ao ato de disparar uma bala – ou pela quantidade de produtos, como canecas e camisetas, que referenciam materiais de armamento, as paranóias de Charlie se alastram pelas áreas de sua vida. Antes, a noiva era sinônimo de perfeição, novidade e calmaria. Agora, ele não a reconhece, tem medo dela e pensa se algum dia conheceu aquela que será a sua esposa nos próximos dias.
Utilizada como bússola moral da produção, a personagem principal segura o tranco daqueles que tinha como família: Rachel está descontente com o que escutou e o seu futuro marido não se sente mais confortável de ficar ao seu lado. A partir dessa situação problema, há a questão que o filme tenta solucionar: você se casaria com alguém mesmo após descobrir um segredo perturbador dessa pessoa? Em um dos papéis mais interessantes de sua carreira, Zendaya interpreta uma mulher tímida, encantadora e inexplicável. Como essa jovem adulta com o emprego e o noivado perfeitos seria capaz de entrar em uma escola e matar os colegas durante uma época de sua adolescência?

Com uma sucessão de momentos desconfortáveis, o clima é criado para ser atingido no ápice do casamento em uma das tradições mais convencionais de festas como essas: o discurso do recém casal. Aqui, a comédia de constrangimento é clássica e bem retratada. Após a destruição do que era para ser a noite mais especial de suas vidas, Charlie e Emma se encontram por acaso em uma lanchonete e se apresentam novamente como se não se conhecessem.
Você não sabe se os dois terminarão juntos, se ela vai ser perdoada ou se essa marca a seguirá para sempre, mas o texto de Borgli e a química das estrelas hollywoodianas te fazem embarcar na história e pedir por mais. Sim, o que ela pensou em fazer é errado, condenatório e deve ser repreendido. Entretanto, o cineasta tenta ampliar a dicotomia provocada pelo duelo entre imaginar e de fato realizar. Emma pode ser perdoada pelo momento mais sombrio de sua vida? Dá para uma pessoa que é amada por tantos na vida adulta seguir em frente após o seu passado tenebroso marcado pela solidão?
