
Isabela Nascimento
Depois de anos na tentativa de alcançar o sucesso mainstream, Charli XCX desistiu de se encaixar em um formato quadrado e resolveu apostar em si mesma em seu sexto álbum de estúdio, Brat (2024). Na sua era mais honesta, a britânica explorou suas inseguranças, questões com a fama, luto e sua vida como partygirl. O resultado foi um sucesso imediato e gigantesco, tornando-se uma popstar internacional nos seus próprios termos.
A fama foi uma surpresa tanto para os fãs como para a cantora. Do dia para noite, ela se tornou um nome bastante comentado em todos os lugares, até em noticiários políticos, como CNN e Fox News. Além disso, ela virou a cara de marcas famosas como YSL, Converse e Poppi. Não demorou muito para os executivos sugerirem um documentário sobre este momento único em sua vida, porém, esta ideia não cativou a britânica. Em entrevista ao The Hollywood Reporter, Charlotte Aitchison disse que este tipo de produção não representava o que ela é como artista.
Contudo, a pressão de criar uma produção deste gênero inspirou a britânica a criar um filme próprio que retratasse a indústria musical do jeito mais real e verídico possível. The Moment, dirigido por Aidan Zamiri e idealizado pela própria cantora, mostra Charli lidando com as complexidades da popularidade, ao mesmo tempo que ela está se preparando para a turnê em arenas.

Classificado como mockumentary, o último respiro de Brat é um retrato sobre a relação que temos com a cultura pop. A história usa uma ‘falsa’ realidade cheia de verdades implícitas e acontecimentos clássicos na vida de uma artista feminina para representar esta relação. O longa-metragem não tem um roteiro e uma direção ambiciosa, Aidan e Charli não tentaram criar um novo movimento, e sim mostrar uma versão crua, precisa e imperfeita desse mundo paralelo que é bem similar ao dela.
Para ajudar na verossimilhança, a produção é cheia de humor ácido, britânico e sem intencionalidade, principalmente nas cenas da cantora com os seus coadjuvantes que sempre têm uma crítica implícita sobre a indústria. Uma dessas cenas é acompanhada pela Kylie Jenner, interpretando ela mesma, em um encontro que cria um contraste interessante com a Grammy winner, de como cada uma lida com os holofotes da mídia. Outro destaque do elenco é Alexander Skarsgård, interpretando o personagem Johannes, um diretor de documentário bizarro, que, durante os encontros com a cantora, rouba a identidade visual dela, transformando-a em um produto comercial.
Os roteiristas Aidan Zamiri e Bertie Brandes também se aproveitam de alguns momentos do filme para mostrar como as produtoras lidam com o público LGBTQIAPN+. O lançamento do cartão queer de Brat e o desenrolar dele pontuam muito bem isso, e é uma das provas que a figura da cantora não foi tão bem entendida pelos executivos e Johannes.
A direção do irlandês vem acompanhada de uma trilha sonora e uma montagem impecável que se encaixa perfeitamente com a trama e estética. O responsável pelas músicas, AG Cook, uma figura já conhecida entre os fãs da britânica, contou em entrevistas que as faixas foram inspiradas pelo Brat, como se fosse uma nova versão do disco com um toque assombrado. A edição de Billy Sneddon e Neal Farmer faz o mesmo, a introdução do filme é igual à da turnê, cheia de luzes e imagens piscantes, apresentando quem é a protagonista e, em momentos de tensão, consegue captar a emoção das cenas e dos personagens.
The Moment soa como qualquer outro projeto de Charli XCX, entretanto desta vez em uma mídia diferente. A produção trata das mesmas questões de Brat, porém de um jeito crítico e reflexivo, como se toda essa experiência tivesse sido uma lição para ela. O objetivo da obra não é a perfeição, mas retratar os anseios da fama. O longa não é feito para o telespectador gostar, e sim, viver, sentir e experienciar The Moment, junto com Charli.
