25 anos depois, já podemos parar de falar sobre Friends

I’ll be there for you (Foto: Reprodução)

Vitor Evangelista 

Friends é a grande série do século XX. A comédia sobre os seis amigos de Nova Iorque que conquistou a cultura pop num solavanco, hoje se prostra como uma das maiores produções televisivas da história. A sitcom comemorou vinte e cinco anos no fim de setembro e fãs mundo afora celebraram o legado e as piadas de Rachel, Joey, Phoebe e companhia. Mas, tanto tempo depois da estreia, Friends deveria deixar os holofotes de lado.

Grande parte do buzz do seriado vem da exibição global da Netflix. O fácil acesso aos 236 episódios exibidos originalmente pela NBC entre 1994 e 2004 é primordial para manter acesa a chama de discussão da série. Todavia, com todas as portas que Friends abriu, carreiras que lançou e conteúdos que originou, o grande público pode voltar atenções a outras grandes produções lançadas de lá para cá. E não há problema algum nisso.

Nenhuma série é eterna. Ciclos se findam e novos caminhos são traçados. Desde aquele 22 de setembro de 1994, quando a NBC exibia o clássico The Pilot (também conhecido como The One Where Monica Gets a Roommate), a televisão se reinventou uma centena de vezes. Renovações e cancelamentos, reboots e revivals. Mas existe uma certa aura ao redor da concepção de Friends. Um senso de grandeza e genialidade que seus criadores, Marta Kauffman e David Crane, provavelmente não tinham planejado logo naquele início.

Friends recebeu mais de trinta indicações a categorias de atuação no Emmy (Foto: Reprodução)

Uma cafeteria e um sofá laranja. Jovens adultos recém saídos da faculdade e muito, mas muito, tempo livre. A cena de abertura de Friends logo esboça seu esqueleto. Enquanto Seinfeld (1989 – 1998) extraia situações cômicas de momentos banais, sua sucessora natural buscava cavucar as nuances de seus seis protagonistas, sempre indo mais fundo na criação de humor físico, piadas recorrentes e, é claro, o talento absurdo de seus intérpretes.

A começar pela queridinha da América, Jennifer Aniston. Sua Rachel Green, a friend mais bem desenvolvida e multifacetada, esbanjava um fascínio cínico e, por ora, incompreendido. As caras e bocas, os penteados e a paixão por moda são alicerce seguro de uma personagem que tomava para si as situações a seu redor. Lizzo, a sensação da Billboard, já entoava em sua Truth Hurts, ‘Yeah, I got boy problems, that’s the human in me Bling bling, then I solve ‘em, that’s the goddess in me’, e Rachel transmuta essa máxima em sua complicada relação com Ross.

Ross Geller, o brilhante David Schwimmer, já é outro caso. Os comportamentos sexistas do antropólogo representam todo o ideal arcaico que o personagem leva nas costas. Com isso em mente, a performance de Schwimmer é a que melhor flui ao longo das 10 temporadas do show. E, por mais que doa admitir, é também o irmão de Monica que coleciona os melhores pedaços do roteiro da série. Destacados ficam a canção da gaita de fole, a conversa com o vizinho pelado e, não podendo deixar de ser citados, o bronzeamento artificial e o clareamento dental.

Unagi (Foto: Reprodução)

Monica Geller é o coração do grupo. Cuidadosa, forte e se apoiando no brilho de Courteney Cox, a irmã mais nova de Ross era a cola que mantinha os seis unidos. Não à toa seu enorme apartamento servia de cenário para a maioria das aventuras dos amigos. É um pecado sem igual o trabalho da atriz nunca ter sido reconhecido pelo Emmy. Dentre os protagonistas, Cox foi a única a nunca receber sequer uma nomeação a categoria de Melhor Atriz Coadjuvante em Comédia.

Voltando ao lado masculino do elenco, Matt LeBlanc performava um magnético Joey Tribbiani. Descendente de italianos, bronco, o friend sempre revelava seu lado sensível. O ator de novela, mulherengo e com pavor da literatura de Stephen King chegou a ganhar um seriado pra chamar de seu. Fracasso tanto de crítica quanto de público, o autointitulado Joey (2004 – 06) conseguiu durar duas temporadas, mas foi logo esquecido

Esse fator corrobora a máxima de que, em seriados e filmes de grupos de pessoas, é muito difícil derivar e separar personagens para conceitos isolados. A saga juvenil High School Musical já provou deste gostinho quando produziu (e fracassou com) A Fabulosa Aventura de Sharpay, em 2011. Todavia, Cheers (1982-93) gerou Frasier (1993-04), spin-off de sucesso estrondoso, marcando recordes no Emmy. Não vivemos de mesmices.

Friends foi sempre certeira ao criar momentos românticos entre seus personagens (Foto: Reprodução)

Phoebe Buffay, a loira cantora de baladas cafonas, ex-moradora de rua. A excentricidade de Lisa Kudrow talvez seja o traço que mais marcou Friends mundo afora. Phoebe sempre foi a personagem mais fora do eixo do Central Perk; sua bagagem fora do convívio com os friends no passado criava uma pequena barreira entre eles. Numa produção com tantas caricaturas pé-no-chão, a figura que tinha uma irmã gêmea atriz pornô e era amiga de assaltantes sem dúvida chamaria atenção. E a atriz consegue fazer malabarismo com todos os estranhos trejeitos da mulher, nunca caindo em mesmices ou chavões batidos. 

É um consenso o favoritismo de Chandler Bing em rankings de popularidade entre os protagonistas do seriado. Provindo do carisma de Matthew Perry, aliado ao texto ágil e sarcástico do personagem, o futuro publicitário poderia muito bem viver sorrindo frente às câmeras mas, quando a claquete parava de bater, a história era outra. Recentemente, diversos portais noticiaram a condição de saúde de Perry.

Matthew Perry sofre de depressão. Desde as gravações do show, já era perceptível a condição física do ator, passando por repentinas perdas de peso, além de não se lembrar de ter gravado várias temporadas da série. Esse tipo de situação abre margem para a questão do comediante na mídia e sua incessante (e doentia) necessidade de sempre parecer feliz. Jim Carrey, astro de Kidding (2018), já comentou sobre depressão e suicídio, reafirmando o papel desgastante que quem faz comédia é obrigado a desempenhar fora dos sets de gravação.

Janice (Maggie Wheeler) em cena; OH MY GOD (Foto: Reprodução)

Mesmo contando com tramas contínuas que percorriam temporadas inteiras, o foco e a graça de Friends sempre foram seus personagens. Não só os seis amigos, mas também os coadjuvantes que enfeitavam episódios notáveis. O cinismo de Susan (Jessica Hecht), as complicadas irmãs de Rachel, Jill e Amy (Reese Witherspoon e Christina Applegate, hoje dois grandes nomes de Hollywood). Até o Mike (Crap Bag) de Paul Rudd, mesmo aparecendo pouco, cria uma dinâmica quase fantabulosa com Phoebe; e a sequência do casamento na temporada final é disparada uma das melhores do show.

Friends ainda se esbaldava em convidados especiais. Quase todo o alto escalão norte-americano da época fez uma pontinha no seriado hit da NBC. Bruce Willis se surrupiou pra dentro do café por uma aposta com Matthew Perry. E a lista de celebridades continua: Ben Stiller, Robin Williams, George Clooney, os hilários Brad Pitt e Danny DeVito, Charlie Sheen, Alec Baldwin, Anna Faris, Ellen Pompeo, Hugh Laurie, Susan Sarandon. A maioria destes, aliás, protagonizava ou viria a estrelar séries próprias em outros canais.  

Em seu ano final, o elenco de Friends desembolsava a bagatela de 1 milhão de dólares por episódio. Número exorbitante na época, passados quinze anos de The Last One: Part 2 esses salários mostram um retorno inimaginável para quem distribui o seriado. Esse ano, a Netflix pagou cem milhões de dólares para manter os direitos do show. Além, é claro, das antigas cláusulas contratuais que garantem pequenas parcelas dos lucros até o presente, ajudando Jennifer Aniston a se manter no topo da lista das mais bem pagas de Hollywood, mesmo sem trabalhar tanto quanto no passado.

Bruce Willis e Christina Applegate (na foto) venceram o Emmy de Melhor Ator e Atriz Convidado em Comédia (Foto: Reprodução)

Mas nem só de lagostas e lasanhas congeladas vive o homem. Friends foi precursora, sim, em quebrar tabus, discutir assuntos importantes e dar protagonismo a quem não tinha voz naquela época do show business. Esses fatores são inegáveis, imutáveis. Em contrapartida, a criação de Marta Kauffman e David Crane certamente deslizou tanto em texto quanto em abordagem. 

A personagem de Rachel sempre diminuída frente à traição (de confiança) de Ross, a caricatura da Monica gorda na adolescência que beirava o cômico-ridículo e o tratamento desnutrido ao público negro e LGBT, quase sem nenhuma representatividade dentro do show, são apenas três focos de discussão de quem avalia o seriado em 2019. São pequenas arestas de uma produção de mais de duzentos episódios que, revistas num período regado a movimentos sociais e equidade dentro da indústria, mancham em parte a aura do programa. 

Não é nada que arruíne por completo os anos dourados de Friends no ar, pelo contrário. O ideal nesse tipo de leitura é aprender com os equívocos, reconhecer falhas e imprecisões. Usar do arcabouço teórico de agora para não deixar que as ranhuras aumentem, ou se repitam. Ainda é útil reforçar que Hollywood é dominada por homens e, vinte e cinco anos atrás, a situação era mais assustadora ainda.

Friends representou diversos tipos de mães ao longo da série: Rachel ficou grávida por meios convencionais, Phoebe foi barriga de aluguel e Monica adotou seus filhos (Foto: Reprodução)

Friends é a mãe de muitas séries de comédia. Grande parte do sucesso do seriado deu o gás para produções como Two and a Half Man (2003-15) e The Big Bang Theory (2007-19), ambas de Chuck Lorre. Lado a lado, o show da NBC ainda inflou sucessos como The Office (2005-13) e Parks and Recreation (2009-15), do mesmo canal, que caminham com a audiência para outros territórios cômicos. Outros seriados que ainda ecoam influências dos seis amigos são 30 Rock (2006-13), 2 Broke Girls (2011-17) e Mom (2013). 

Em 2019, como muito bem refletiu o Emmy e suas estatuetas de comédia, o gênero vive um momento de explosão e autenticidade. Seriados autorais, propostas inovadoras e muitas piadas gourmetizadas. A TV americana deixou de ser abastecida por sitcoms simples de vinte e dois minutos para dar espaço para propostas horizontais, cheias de pompa e forma. Prova disso é a ascensão do mercado do streaming, as séries on-demand e as temporadas mais curtas.

A década de 2010 diminuiu suas temporadas de comédia. Mais de vinte episódios por ano se tornaram inviáveis para uma audiência sedenta pela maratona. Friends não foi a primeira (nem a última) grande série no pacote TV aberta. O que difere os seis amigos do Central Perk de todo o resto é o prestígio pela nostalgia e pelo texto bem escrito. A atemporalidade das dez temporadas ecoa quase trinta anos depois. E muito provavelmente continuará a fazê-lo.

Rumores de um possível revival de Friends sempre rondam Hollywood, mas os criadores insistem em negar tais boatos (Foto: Reprodução)

E não, deixar de maratonar Friends diariamente não será o fim do mundo. Na verdade, prestigiar outras produções das mentes por trás do seriado pode ser tão bom quanto. A criadora Marta Kauffman é responsável por Grace and Frankie (2015); Lisa Kudrow fez The Comeback (2005), David Schwimmer esteve em American Crime Story: The People vs. OJ Simpson (2016). Já Courteney Cox estrelou Cougar Town (2009-15) e Matt LeBlanc é o astro de Man With a Plan (2016). Jennifer Aniston vai voltar às séries de TV com The Morning Show (2019), original da Apple TV+, ao lado de Reese Witherspoon e Steve Carell.

Por mais que o amor a Friends seja enorme, não medido e sem limites, parte da jornada é o fim. As piadas continuam lá, as palmas batidas na abertura chiclete também. Até mesmo os episódios de Ação de Graças permanecerão intocados. E, por mais que os seis amigos estejam lá para nós, isso não significa que devemos fazer o mesmo por eles. Mesmo que a chuva caia.

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