O fantástico enquadramento do vazio: A pretensão do Cinema minimalista em A Mensageira

Cena de A Mensageira. Em primeiro plano há as mãos e parte do rosto de Myriam segurando o celular e fotografando a cena. No centro, Anika sorri e aponta para uma placa que exibe a ilustração de um cachorro com auréola e os dizeres "El Cielo - Cementerio de mascotas a 300 mt" com uma seta para a esquerda.
O longa aborda, às vezes de forma irônica, o uso da capacidade médium de uma criança para obtenção de dinheiro (Foto: Filmes do Estação)

Mariana Gomes e Arthur Caires

O cinema latino-americano possui uma longa tradição em buscar o fantástico nas frestas do cotidiano. Obras como Suçuarana (2024), de Clarissa Campolina e Sérgio Borges, exemplificam como o insólito – ali manifestado pela relação de comunidade que ronda o pragmatismo da paisagem industrial – pode aprofundar o peso da realidade. Em A Mensageira (2025), o diretor argentino Iván Fund tenta capturar essa mesma força ao nos apresentar Anika (Anika Bootz), uma jovem do interior com o dom de traduzir os pensamentos da fauna local, do luto de um ouriço à jornada solitária de uma capivara. 

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Depois, a Névoa revela o que resta quando o tempo se dissolve

Um plano médio de César (Pablo Limarzi) no filme 'Depois, a Névoa'. Ele é um homem de meia-idade com barba e cabelo grisalhos, vestindo um casaco de couro escuro e um cachecol marrom grosso. Ele olha diretamente para a câmera com uma expressão séria, em um ambiente externo à noite, com luzes de rua ou carros desfocadas ao fundo.
A travessia de César é também a travessia do olhar (Foto: Punto de Fuga Cine)

Arthur Caires

Há algo de ritualístico em Depois, a Névoa, segundo longa-metragem de Martín Sappia, exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na categoria Competição Novos Diretores. O filme se inscreve na tradição do cinema cordobês – vertente argentina que há anos busca capturar a serenidade e o isolamento de personagens mergulhados em paisagens interiores tanto quanto geográficas. No entanto, Sappia não apenas revisita esse território: ele o observa como se fosse a primeira vez, como se cada névoa, cada pedra e cada sopro de vento ainda tivessem algo a revelar sobre o que significa existir no mundo.

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