
Sinara Martins
Em 2016, depois de um período de expectativa e silêncio, Rihanna apresentou ANTI como um marco definitivo em sua trajetória. O álbum se sustenta como uma obra-prima pela segurança das escolhas e pela identidade muito bem definida. Desde a primeira faixa, fica evidente que existe uma direção artística clara e uma artista no controle absoluto do que quer comunicar. É um trabalho maduro, coeso e consciente, que assume riscos com tranquilidade e confia na própria proposta.
O reconhecimento acompanhou essa força artística. ANTI estreou no primeiro lugar da Billboard 200 e se manteve por semanas entre os álbuns mais consumidos. Na Billboard Hot 100, Work chegou ao topo e permaneceu por nove semanas na liderança, enquanto Love On The Brain e Needed Me também alcançaram posições altas no ranking. No Grammy de 2017, o disco recebeu indicação a Melhor Álbum Urbano Contemporâneo, e Work venceu como Melhor Performance de Rap. Mesmo com uma sonoridade menos imediata do que os trabalhos anteriores, o impacto comercial foi expressivo.
Existe também uma base conceitual forte. A própria Rihanna explicou que o título faz referência a alguém que se posiciona contra padrões estabelecidos e escolhe não seguir automaticamente aquilo que se espera. Em seu oitavo álbum de estúdio, a cantora priorizou trabalhar com produtores negros e nomes mais ligados ao R&B alternativo e à cena underground, alguns com influências caribenhas, o que reforça sua identidade cultural e amplia as texturas sonoras do disco. Com 13 faixas, na versão Deluxe, com 16, inclui uma releitura de New Person, Same Old Mistakes, originalmente do Tame Impala, que ganha nova camada dentro da atmosfera densa do projeto.

Se há um arco narrativo, ele passa pela frustração emocional e pela solidão que pode surgir quando as relações falham. Sob uma superfície de autoconfiança e sensualidade, existe um sentimento constante de decepção e introspecção. As letras falam de confiar e se decepcionar, abordam o ato de se fechar para evitar novas dores e exploram a dificuldade de equilibrar independência e vulnerabilidade. Em Desperado, por exemplo, a ideia de ser autossuficiente aparece junto com o peso de carregar essa solidão. Essa camada emocional dá profundidade ao álbum e o distancia de um discurso superficial.
O que mais chama atenção é que não há música fraca. Todas as faixas têm função dentro do conjunto e ajudam a manter a coerência sonora que atravessa o projeto. O disco funciona como experiência completa, pensada para ser ouvida na ordem, permitindo que o clima se desenvolva gradualmente. Não é apenas uma sequência de possíveis singles, mas um corpo único.
Kiss It Better apresenta uma atmosfera sensual com guitarras marcantes e influência retrô, valorizando a interpretação vocal. Work, parceria com Drake, mistura dancehall com naturalidade e consolidou mais um capítulo da colaboração entre os dois, que já haviam dividido faixas em outros momentos da carreira. A química entre eles é recorrente e sempre gera repercussão justamente pela sintonia musical que demonstram. Yeah, I Said It aposta na simplicidade e na intensidade contida e Love On The Brain evidencia uma entrega vocal mais potente, com forte influência soul e uma das interpretações mais marcantes do álbum.

A presença de SZA como compositora em Consideration, faixa de abertura, reforça o diálogo com um R&B mais alternativo e contemporâneo. As colaborações são pontuais e bem integradas, ampliando o alcance do disco sem comprometer sua identidade central. O feat traz uma energia mais introspectiva, que conversa diretamente com o clima do projeto e ajuda a estabelecer o tom emocional que se desenvolve nas faixas seguintes. A iniciativa não soa como estratégia comercial, mas como decisão artística alinhada à identidade.
A sonoridade é construída com minimalismo e atenção aos detalhes. Os graves são bem definidos, as batidas têm espaço, e os arranjos priorizam textura e atmosfera. O soul é um pilar do projeto, com influências de reggae e pop alternativo que enriquecem o resultado final. A produção evita excessos de efeitos vocais e se concentra em performances limpas, o que valoriza ainda mais a interpretação de Rihanna. Esse direcionamento revela um lado mais alternativo da artista e demonstra evolução na forma como ela conduz a própria voz.

Talvez seja por tudo isso que faça sentido que ela não tenha lançado outro álbum depois. Superar um trabalho tão coeso, bem estruturado e artisticamente sólido é um desafio grande. ANTI representa um ponto alto da carreira, um momento em que visão criativa, maturidade e execução caminham juntas. Quando um projeto alcança esse nível de qualidade e identidade, qualquer passo seguinte precisa estar à altura, e talvez seja justamente essa exigência que explique o intervalo desde então.
