Dez anos depois, ANTI ainda soa como despedida e consolidação

A imagem apresenta a capa do álbum "ANTI", da cantora Rihanna. No centro da composição, vemos o retrato em tons de cinza de uma criança que segura um balão preto por um fio fino. Sobre seus olhos, repousa uma coroa dourada de metal que funciona como uma venda, contendo inscrições em Braille gravadas em sua superfície. O fundo branco é interrompido por uma grande mancha de tinta vermelha vibrante, que parece escorrer do topo e cobrir a metade superior do corpo da criança, criando um contraste visual intenso. Por toda a extensão da arte, notam-se pequenos pontos em relevo, que formam um poema completo em Braille, convidando ao toque.
Após um vazamento na internet, ANTI foi lançado antes do previsto pela equipe de Rihanna (Foto: Christopher Polk)

Sinara Martins

Em 2016, depois de um período de expectativa e silêncio, Rihanna apresentou ANTI como um marco definitivo em sua trajetória. O álbum se sustenta como uma obra-prima pela segurança das escolhas e pela identidade muito bem definida. Desde a primeira faixa, fica evidente que existe uma direção artística clara e uma artista no controle absoluto do que quer comunicar. É um trabalho maduro, coeso e consciente, que assume riscos com tranquilidade e confia na própria proposta.

O reconhecimento acompanhou essa força artística. ANTI estreou no primeiro lugar da Billboard 200 e se manteve por semanas entre os álbuns mais consumidos. Na Billboard Hot 100, Work chegou ao topo e permaneceu por nove semanas na liderança, enquanto Love On The Brain e Needed Me também alcançaram posições altas no ranking. No Grammy de 2017, o disco recebeu indicação a Melhor Álbum Urbano Contemporâneo, e Work venceu como Melhor Performance de Rap. Mesmo com uma sonoridade menos imediata do que os trabalhos anteriores, o impacto comercial foi expressivo.

Existe também uma base conceitual forte. A própria Rihanna explicou que o título faz referência a alguém que se posiciona contra padrões estabelecidos e escolhe não seguir automaticamente aquilo que se espera. Em seu oitavo álbum de estúdio, a cantora priorizou trabalhar com produtores negros e nomes mais ligados ao R&B alternativo e à cena underground, alguns com influências caribenhas, o que reforça sua identidade cultural e amplia as texturas sonoras do disco. Com 13 faixas, na versão Deluxe, com 16, inclui uma releitura de New Person, Same Old Mistakes, originalmente do Tame Impala, que ganha nova camada dentro da atmosfera densa do projeto.

Retrato em primeiríssimo plano (close-up) da cantora Rihanna contra um fundo branco infinito. Ela olha diretamente para a câmera com uma expressão serena e lábios levemente entreabertos. Seu cabelo castanho escuro está solto e bagunçado, com várias mechas sopradas pelo vento cruzando seu rosto. Ela usa brincos de argola dourados com textura trançada e uma maquiagem em tons terrosos e naturais. Parte de uma tatuagem é visível em seu ombro esquerdo.
Kevin Parker, vocalista do Tame Impala, contou em entrevista que ouvir a própria música sendo interpretada por Rihanna foi uma experiência surreal (Foto: Paolo Roversi)

Se há um arco narrativo, ele passa pela frustração emocional e pela solidão que pode surgir quando as relações falham. Sob uma superfície de autoconfiança e sensualidade, existe um sentimento constante de decepção e introspecção. As letras falam de confiar e se decepcionar, abordam o ato de se fechar para evitar novas dores e exploram a dificuldade de equilibrar independência e vulnerabilidade. Em Desperado, por exemplo, a ideia de ser autossuficiente aparece junto com o peso de carregar essa solidão. Essa camada emocional dá profundidade ao álbum e o distancia de um discurso superficial.

O que mais chama atenção é que não há música fraca. Todas as faixas têm função dentro do conjunto e ajudam a manter a coerência sonora que atravessa o projeto. O disco funciona como experiência completa, pensada para ser ouvida na ordem, permitindo que o clima se desenvolva gradualmente. Não é apenas uma sequência de possíveis singles, mas um corpo único.

Kiss It Better apresenta uma atmosfera sensual com guitarras marcantes e influência retrô, valorizando a interpretação vocal. Work, parceria com Drake, mistura dancehall com naturalidade e consolidou mais um capítulo da colaboração entre os dois, que já haviam dividido faixas em outros momentos da carreira. A química entre eles é recorrente e sempre gera repercussão justamente pela sintonia musical que demonstram. Yeah, I Said It aposta na simplicidade e na intensidade contida e Love On The Brain evidencia uma entrega vocal mais potente, com forte influência soul e uma das interpretações mais marcantes do álbum.

Fotografia de perfil de Drake e Rihanna no palco do VMA. À esquerda, Drake, um homem negro com barba curta e cabelo raspado, veste um smoking preto clássico com gravata borboleta e olha para Rihanna com um sorriso leve. À direita, Rihanna, uma mulher negra com cabelos longos e lisos penteados para trás, usa um vestido longo de cetim dourado pálido e brincos de diamante pendentes. Ambos seguram juntos um troféu. O fundo é composto por linhas horizontais de luzes brancas brilhantes sobre um painel escuro.
A faixa Work começou como uma demo minimalista com batida de Dancehall, que depois foi refinada até chegar à versão final (Foto: Michael Loccisano)

A presença de SZA como compositora em Consideration, faixa de abertura, reforça o diálogo com um R&B mais alternativo e contemporâneo. As colaborações são pontuais e bem integradas, ampliando o alcance do disco sem comprometer sua identidade central. O feat traz uma energia mais introspectiva, que conversa diretamente com o clima do projeto e ajuda a estabelecer o tom emocional que se desenvolve nas faixas seguintes. A iniciativa não soa como estratégia comercial, mas como decisão artística alinhada à identidade.

A sonoridade é construída com minimalismo e atenção aos detalhes. Os graves são bem definidos, as batidas têm espaço, e os arranjos priorizam textura e atmosfera. O soul é um pilar do projeto, com influências de reggae e pop alternativo que enriquecem o resultado final. A produção evita excessos de efeitos vocais e se concentra em performances limpas, o que valoriza ainda mais a interpretação de Rihanna. Esse direcionamento revela um lado mais alternativo da artista e demonstra evolução na forma como ela conduz a própria voz.

Fotografia de plano médio da cantora Rihanna durante uma performance ao vivo. Ela segura um microfone com a mão direita e gesticula com a esquerda. Rihanna veste uma jaqueta puffer branca volumosa e uma faixa preta na cabeça com a palavra "FEAR" escrita em letras azuis e vermelhas com efeito de "escorrido". O fundo é composto por luzes de palco vermelhas intensas e desfocadas, criando uma atmosfera quente e energética. O cabelo dela está solto, longo e cacheado.
A música Love On The Brain teria sido gravada em poucas tomadas, já que Rihanna queria preservar a emoção e a intensidade da interpretação vocal (Foto: Christopher Polk)

Talvez seja por tudo isso que faça sentido que ela não tenha lançado outro álbum depois. Superar um trabalho tão coeso, bem estruturado e artisticamente sólido é um desafio grande. ANTI representa um ponto alto da carreira, um momento em que visão criativa, maturidade e execução caminham juntas. Quando um projeto alcança esse nível de qualidade e identidade, qualquer passo seguinte precisa estar à altura, e talvez seja justamente essa exigência que explique o intervalo desde então.

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