Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe: O filme em que Sepideh Farsi rompe a fronteira que nos separa de Gaza

A diretora iraniana utilizou do Cinema como uma forma de ponte para um conflito que não parece chegar ao fim (Foto: Sepideh Farsi; Arte: Arthur Caires)

Guilherme Moraes e Arthur Caires

Há filmes que nascem de uma escolha estética, outros de uma inquietação pessoal, e há obras que só podem existir porque uma vida insiste em não ser apagada. Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe, documentário dirigido por Sepideh Farsi, nasce no centro de uma das maiores tragédias humanas deste século: a ofensiva militar israelense em Gaza, que desde 2023 transformou ruas, casas e escolas em escombros e submeteu toda uma população ao cerco, à fome e ao apagamento sistemático de suas vozes.

Continue lendo “Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe: O filme em que Sepideh Farsi rompe a fronteira que nos separa de Gaza”

Em Delírios, aprendemos que o passado é a casa que nunca nos deixa partir

Cena do filme Delírios (2024). Uma menina de cabelos curtos e expressão assustada espreita pela fresta de uma porta verde com uma cruz de ferro pregada no alto. O ambiente é escuro e frio, com um banco de madeira e vasos de plantas secas ao lado. A iluminação destaca a textura da madeira, criando um clima de suspense e isolamento.
Em Delírios, o medo se esconde nas frestas. Masha observa o mundo do lado de dentro, onde o silêncio pesa mais que qualquer ameaça (Foto: Cyan Prods)

Arthur Caires

Há casas que respiram, e em Delírios, cada parede guarda o som abafado de um segredo. Alexandra Latishev Salazar transforma o lar – esse espaço de suposta segurança – em um organismo adoecido, feito de memórias que se recusam a morrer. Masha, uma menina de onze anos, muda-se com a mãe para cuidar da avó doente, e o que deveria ser um gesto de afeto se converte em um ritual de exorcismo. A cada instante, o passado parece infiltrar-se pelos cantos, até que a casa se torna uma extensão da mente: um labirinto onde o medo e a lembrança convivem.

Continue lendo “Em Delírios, aprendemos que o passado é a casa que nunca nos deixa partir”

Depois, a Névoa revela o que resta quando o tempo se dissolve

Um plano médio de César (Pablo Limarzi) no filme 'Depois, a Névoa'. Ele é um homem de meia-idade com barba e cabelo grisalhos, vestindo um casaco de couro escuro e um cachecol marrom grosso. Ele olha diretamente para a câmera com uma expressão séria, em um ambiente externo à noite, com luzes de rua ou carros desfocadas ao fundo.
A travessia de César é também a travessia do olhar (Foto: Punto de Fuga Cine)

Arthur Caires

Há algo de ritualístico em Depois, a Névoa, segundo longa-metragem de Martín Sappia, exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na categoria Competição Novos Diretores. O filme se inscreve na tradição do cinema cordobês – vertente argentina que há anos busca capturar a serenidade e o isolamento de personagens mergulhados em paisagens interiores tanto quanto geográficas. No entanto, Sappia não apenas revisita esse território: ele o observa como se fosse a primeira vez, como se cada névoa, cada pedra e cada sopro de vento ainda tivessem algo a revelar sobre o que significa existir no mundo.

Continue lendo “Depois, a Névoa revela o que resta quando o tempo se dissolve”

Napoli–New York tenta ser uma homenagem italiana ao pós-guerra, mas é vista pelo olhar de um cartão-postal americano

Uma cena dramática em um corredor com piso de madeira e janelas altas. Em primeiro plano, o menino (Carmine), com uma jaqueta cinza-amarronzada, abraça a menina (Celestina), que está com um vestido. Os dois estão abraçados com expressões de afeto e talvez angústia, cercados por diversos fotógrafos que seguram câmeras de época grandes com flash, tirando fotos do momento. Dois homens mais velhos, um com óculos e outro espiando por um canto, observam a cena ao fundo. O ambiente sugere um evento de grande cobertura jornalística ou uma situação pública intensa.
O brilho americano visto pelos olhos de quem nunca saiu da guerra (Foto: Rai Cinema)

Arthur Caires

Sob o velho outdoor do “There’s no way like the American way”, Napoli–New York, escolhido para abertura da 20ª edição do Festival De Cinema Italiano, encontra o seu ponto de partida: entre a promessa estampada e a fome que a moldura insiste em esconder. Inspirado em uma história original dos cineastas italianos Federico Fellini e Tullio Pinelli, e dirigido por Gabriele Salvatores, o longa revisita o pós-guerra com um olhar colorido e melancólico, de quem acredita que a esperança ainda pode nascer entre escombros.

Continue lendo “Napoli–New York tenta ser uma homenagem italiana ao pós-guerra, mas é vista pelo olhar de um cartão-postal americano”

Ruas da Glória é uma travessia pela intensidade exaustiva até a possibilidade de recomeço

Um close-up noturno do personagem Gabriel, interpretado por Caio Macedo, no filme Ruas da Glória. Ele é um jovem de pele clara e cabelos castanhos ondulados, vestindo uma camisa de botão com estampa de leopardo. Gabriel olha para baixo e para o lado com uma expressão séria e introspectiva. O fundo está desfocado, preenchido por luzes brilhantes da cidade, sugerindo um ambiente externo à noite.
Gabriel passa por um batismo de amor regado em sal, cinzas e carne (Foto: Retrato Filmes)

Arthur Caires

Há algo de purificador no sal. Ele arde, corrói, mas também cicatriza. Ruas da Glória, de Felipe Sholl, começa e termina nesse movimento de luto – um mergulho que é tanto literal quanto emocional. O filme acompanha Gabriel (Caio Macedo), um jovem professor que, após perder a avó e romper com o pai, parte do Recife em busca de uma vida nova no Rio de Janeiro. O que encontra, porém, é o caos de um desejo que o consome por dentro. Entre becos iluminados por neon e corpos suados na penumbra, Sholl filma o amor como uma vertigem: belo, porém irremediavelmente doloroso.

Continue lendo “Ruas da Glória é uma travessia pela intensidade exaustiva até a possibilidade de recomeço”

Roussil – A Liberdade da Imaginação prova que o Cinema é uma das principais armas contra o esquecimento

Uma escultura alta e abstrata de Robert Roussil, de cor clara, com uma forma humanóide estilizada. A figura, que se assemelha a uma pessoa dançando com braços curvos e erguidos, está posicionada ao ar livre contra um fundo escuro de um paredão rochoso.
As esculturas de Roussil resistem ao tempo – monumentos de imaginação e aço (Foto: Tulp Films)

Arthur Caires

Há algo muito humano no ato de lutar contra o esquecimento. A Arte, quando nasce, já carrega em si uma resistência ao tempo, uma tentativa de permanecer quando tudo o mais se dissolve. R. Roussil – A Liberdade da Imaginação, dirigido por Maxime-Claude L’Écuyer e que está em exibição na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na categoria Competição Novos Diretores, surge como um desses gestos de resistência. Mais do que resgatar a figura de um escultor esquecido, o filme convoca o espectador a pensar na Arte como um modo de permanecer vivo na memória dos outros, mesmo quando a matéria se desgasta.

Continue lendo “Roussil – A Liberdade da Imaginação prova que o Cinema é uma das principais armas contra o esquecimento”

Finalista do 67º Prêmio Jabuti, Penélope Martins conta ao Persona sobre seu ‘trabalho de formiga’ na Literatura

A literatura juvenil de Penélope Martins conecta jovens e adultos por meio da mesma sensibilidade (Foto: Penélope Cruz; Arte: Arthur Caires)

Arthur Caires

Antes de aprender a escrever para crianças, Penélope Martins aprendeu a escutar. Escutava as conversas de família, a faladeira que se misturava à costura da mãe, o tricotar da avó na varanda e, entre uma história e outra, descobriu que o afeto também se comunica por palavras. Muito antes de publicar livros, já havia ali uma autora em formação: alguém que entendia o poder das narrativas que costuram o mundo.

Continue lendo “Finalista do 67º Prêmio Jabuti, Penélope Martins conta ao Persona sobre seu ‘trabalho de formiga’ na Literatura”

Novembro tenta honrar as memórias do passado, mas sucumbe na superficialidade

Em um close-up do filme Novembro, uma mulher loira com expressão angustiada e olhos arregalados cobre a boca e o nariz com um pano azul escuro. Ela veste uma jaqueta escura, e o fundo está desfocado com um tom esverdeado.
Entre o real e o encenado, Novembro busca dar forma ao trauma coletivo colombiano (Foto: Vulcana Cinema)

Arthur Caires

O cerco ao Palácio da Justiça da Colômbia, ocorrido em 6 de novembro de 1985, foi um dos episódios mais violentos e traumáticos da história do país. Integrantes do grupo guerrilheiro M-19 invadiram o edifício, em Bogotá, tomando magistrados, funcionários e civis como reféns em um ato que pretendia denunciar o governo e forçar um julgamento simbólico do presidente colombiano. A resposta militar foi imediata e devastadora: o exército cercou o prédio e iniciou uma ofensiva que durou cerca de dois dias, resultando em um incêndio que deixou mais de cem mortos, incluindo juízes da Suprema Corte. 

Continue lendo “Novembro tenta honrar as memórias do passado, mas sucumbe na superficialidade”

Um espelho quebrado por expectativas: A complacência de Taylor Swift em The Life of a Showgirl

Capa de álbum com a cantora Taylor Swift submersa em uma água de cor turquesa. Ela está olhando diretamente para a câmera com uma expressão confiante e usa um traje prateado e brilhante, cravejado de joias, no estilo de uma showgirl. A imagem tem um efeito de colagem ou de espelho quebrado, com pedaços da cena repetidos nas bordas. Sobreposto à imagem, o texto "THE LIFE OF A SHOWGIRL" aparece em uma fonte grande, laranja e com textura de glitter.
O novo trabalho de Taylor Swift retorna com produções pop e colaborações familiares (Foto: Mert Alas & Marcus Piggott)

Arthur Caires

O principal objetivo do marketing pode ser ao mesmo tempo o seu maior erro: as expectativas. Quando o público recebe algo diferente do que imaginava, a frustração se torna a primeira e mais duradoura impressão, exatamente o que ocorreu com The Life of a Showgirl, décimo segundo álbum de estúdio de Taylor Swift. Ao evocar 1989 (2014) e reputation (2017) como referências e complementar a campanha com ensaios fotográficos deslumbrantes, a artista criou a promessa de um retorno grandioso. Ao deixar Jack Antonoff e Aaron Dessner de lado, a reunião com Max Martin e Shellback apenas intensificou essa expectativa. Swift já provou que sabe juntar batidas intensas com letras inteligentes, o que torna ainda mais evidente a sensação de decepção diante da simplicidade e falta de senso do novo disco.

Continue lendo “Um espelho quebrado por expectativas: A complacência de Taylor Swift em The Life of a Showgirl”

Coração de Lutador traz Dwayne Johnson enfrentando o silêncio depois do ringue

Uma cena do filme Coração de Lutador, vista de dentro de um ringue de luta, focada em quatro personagens em um momento de alta tensão. Da esquerda para a direita: Bas Rutten, como um treinador, é um homem mais velho, careca, vestindo uma camiseta verde-escura. Ele se inclina para a frente com uma expressão de intensa preocupação e seriedade, olhando para o lutador. Atrás do lutador, Ryan Bader o segura firmemente pelos ombros. Ele está vestido de preto e seu rosto também mostra foco e preocupação, como se estivesse tentando conter ou dar apoio. No centro da imagem, sentado em um banco vermelho no corner do ringue, está o lutador Mark Kerr, interpretado por Dwayne Johnson. Ele está sem camisa, exibindo um físico musculoso, e veste shorts de luta brancos com detalhes em vermelho e uma joelheira preta. Sua expressão é de angústia e exaustão; seus olhos estão arregalados e fixos, e sua boca está entreaberta. À direita, do lado de fora das cordas, está Dawn, interpretada por Emily Blunt. Com cabelos longos e escuros e vestindo uma regata branca, ela olha para a cena com uma expressão de profunda tristeza, angústia e preocupação.
Dwayne Johnson no centro da narrativa de Coração de Lutador, entre força física e fragilidade emocional (Foto: A24)

Arthur Caires

Da glória nos ringues da World Wrestling Entertainment (WWE) ao domínio em franquias blockbusters milionárias de ação, Dwayne Johnson consolidou-se como um ícone do entretenimento. Mas todo herói carrega, em silêncio, uma fissura. O que falta a alguém que já parece ter conquistado tudo? Coração de Lutador faz dessa pergunta seu eixo narrativo, atravessando a persona inquebrantável de The Rock para revelar Mark Kerr, lutador real que habita a zona de instabilidade entre a vitória pública e a masculinidade frágil.

Continue lendo “Coração de Lutador traz Dwayne Johnson enfrentando o silêncio depois do ringue”