
André Aguiar
O que acontece quando fazer o que ninguém está fazendo te torna mais entediante do que original? Após um intervalo de 10 anos desde que lançou seu último projeto solo, Bruno Mars retorna com The Romantic, um trabalho em que o charme do Bruninho não é tão convincente como um dia já foi. Sua posição na indústria musical permite que ele não retroceda mesmo com críticas negativas e uma recepção agridoce do público. Entretanto, quem está aqui apenas pela boa música ainda se questiona se as decisões criativas do artista partem de um lugar de influência ou de conforto.
Há 10 anos, Bruno Mars era inevitável. Levando o seu já conhecido som nostálgico ao funk das décadas 1980 e 1990 com o disco 24k Magic (2016), ele se tornava cada vez mais merecedor do título de hitmaker que tem hoje. Nos últimos anos, o cantor se recusou a sair do radar do público e emplacou hits irritantemente bem-sucedidos no topo das paradas, como APT. com ROSÉ e a Grammy-winner Die With A Smile, dueto com Lady Gaga, que dispensa qualquer apresentação. Além disso, o projeto em parceria com Anderson .Paak, Silk Sonic, rendeu à dupla um álbum aclamado que se tornou um ponto alto da discografia de ambos os artistas, evocando uma sonoridade fresca espelhada no soul setentista. A decepção bateu quando o posterior ato solo do Bruninho chegou e o resultado era uma versão sem alma do que, anos antes, era inovador.
A maior parte de The Romantic soa como ideias que até tentam se desvencilhar do An Evening With Silk Sonic (2021), mas a sensação é a de que prevalece uma certa conformidade em refazer o que deu certo. Faixas como God Was Showing Off e Nothing Left não mostram muito esforço de Mars em se desafiar e prosseguir de uma das melhores fases de sua carreira, que aconteceu cinco anos atrás. As diferenças são mais notadas em leves nuances do que de fato em direções ou conceitos claramente definidos.
A banda Silk Sonic trouxe certa novidade ao som de Mars, em grande parte devido à presença de Anderson .Paak, uma voz conhecida em nichos do R&B e da música alternativa que, junto a um amigo das massas (Bruno Mars) fizeram mágica. A personalidade e a musicalidade de Paak em estúdio e nas performances ao vivo colaboraram para que a audiência não pensasse no ‘quão cafona são dois homens de quase 40 anos dançando em conjuntos revestidos de glitter com coreografias simples e sincronizadas’, tudo era envolvente, desde a música à estética, pois o compromisso era com a ideia em si.
No projeto compartilhado, o selo de qualidade e aprovação crítica vinham de Paak, e os números astronômicos e hits de rádio vinham de Mars. Na tentativa de reproduzir isso sozinho no novo disco, Bruno falha porque o que sobra fora do Silk Sonic é, em sua maioria, o que o torna parte do mainstream: o processado e o que é mais aparente como produto do que como obra de arte.

Nas poucas camadas inventivas de The Romantic, é possível perceber uma aura de grupos de vocalistas negros estadunidenses dos anos 1960, como The Flamingos e The Temptations. Seja na resposta de vozes no refrão da balada Why You Wanna Fight? ou na melosa faixa de encerramento Dance With Me, existe um espírito coletivo pairando ao decorrer do LP. Os últimos registros de destaque de Mars nesta década mostraram o poder de uma colaboração com o cantor e como ele se conecta com a atmosfera de ‘banda’, e talvez fosse melhor se tivesse continuado assim, de feat em feat. Deve ser difícil para o Bruninho – e talvez para alguns de nós – superar os dias de Silk Sonic.
Outro grande dilema de The Romantic é a linha finíssima, na verdade, quase invisível, entre imitação e referência. Mars ocupa o lugar tão cobiçado da indústria de ter um nome tão potente que dá a ele liberdade de fazer o que quiser, o que acaba caindo por terra quando o seu repertório resulta em cópias das suas musas. On My Soul é uma das canções mais cativantes do álbum, porém, sua inspiração original, Move On Up, de Curtis Mayfield, se torna uma experiência mais proveitosa, preenchida e instrumentalmente interessante do que a peça produzida por Bruno Mars.
A mesma coisa acontece com Something Serious, que poderia até ser creditada como sample ou interpolação da clássica Oye Como Va, interpretada originalmente pela banda Santana – liderada pelo mexicano Carlos Santana. O sentimento é de que o disco se ancora nas referências icônicas do vocalista e não dá conta de existir por si só.
Ninguém mais no top 50 do Spotify global leva jeito para re-introduzir obras tão emblemáticas do soul como Mars, e mesmo assim não é difícil questionar, na metade de The Romantic, se você já não ouviu essa música antes na tracklist. As únicas exceções e belas surpresas são as duas faixas que abrem o projeto: Risk It All e Cha Cha Cha que, envoltas por latinidade, remetem diretamente às raízes do Bruninho. A primeira é uma balada centrada no violão e numa linha melódica tão atemporal que, mesmo tendo uma sonoridade única comparada à discografia do artista, o ouvinte ainda sente alguma familiaridade.
Já na segunda, essa ânsia por trazer novos ares à ambiência de Leave The Door Open e Smokin Out The Window funciona melhor. Há mudanças agradáveis na dinâmica rítmica da canção e aquele molho apaixonante do cantor que é capaz de levar músicas tão complexamente projetadas à boca do povo. Para um disco que se prende tanto ao passado – do cantor e do soul – esses dois registros são pequenos passos de bebê rumo a uma nova fase artística.
The Romantic encaixa bem como título deste álbum, pois não revela nada novo sobre Bruno Mars. Ser romântico e piegas o levou ao topo 15 anos atrás, e hoje, mesmo que não seja tão convincente, ainda o deixa lá. I Just Might, lead single do disco, alcançou o primeiro lugar da parada da Billboard nos Estados Unidos na semana em que foi lançada. Ele é um dos únicos grandes artistas capazes de resgatar tão fielmente o som de uma época, incorporar numa roupagem atual, e dominar os charts com isso. Ainda assim, um truque feito tantas vezes pelo mesmo mágico, por mais fascinante que seja no começo, não te faz mais querer saber os segredos de quem está com o coelho de pelúcia na cartola o tempo todo, é só chato mesmo.
