
Eduardo Dragoneti
Há uma cena no primeiro episódio de O Cavaleiro dos Sete Reinos – O Cavaleiro Andante – em que um dragão de marionete aparece em quadro visivelmente menor do que o protagonista, Ser Duncan, o Alto (Peter Claffey). E como nada é por acaso no universo das Crônicas de Gelo e Fogo (1996 – atualmente), a escolha da direção artística (John Merry) é certeira. A cena é a série inteira resumida num único plano. Depois de anos retratando os Targaryens incendiarem cidades e dragões rasgarem o céu de Westeros, a HBO escolheu contar a história do homem que cabe no mesmo enquadramento que o símbolo máximo de poder deste mundo, apostando que isso seria suficiente para nos prender por seis episódios (e spoiler: foi além do esperado).
A obra foi lançada em janeiro de 2026 com uma divulgação mais tímida do que A Casa do Dragão (2022 – Atualmente), sem abertura grandiloquente com uma trilha icônica e episódios de 30 a 35 minutos que terminam antes que você perceba. A série adapta as novelas homônimas de George R.R. Martin e se passa cerca de noventa anos antes dos eventos de Game of Thrones (2011). No centro da trama está o cavaleiro errante, sem senhor, brasão respeitável e sem a menor ideia de quem é ou pode vir a ser. Ao seu lado, um garoto de cabeça raspada chamado Egg (Dexter Sol Ansell), que carrega um segredo considerável no sobrenome que finge não ter. A premissa é despretensiosa, tornando a produção única neste universo.
Não é coincidência que a série seja a adaptação de Martin que mais lembra o autor. O showrunner, Ira Parker, construiu com o escritor das novelas uma parceria respeitosa e enriquecedora, prezando pela coerência com a história original. Isso contrasta veementemente com a relação abismal entre o autor e Ryan Condal, produtor de A Casa do Dragão. Com Parker, o escritor chegou a compartilhar esboços de doze histórias inéditas de Dunk e Egg ainda não publicadas em nenhum de seus livros e rasga elogios para ele em seu blog. Pela primeira vez desde a sexta temporada de Game of Thrones, a sensação é que o universo na tela e o universo na cabeça do escritor estão apontando para o mesmo lugar.

Sem ter para onde voltar após a morte de Ser Arlan de Pennytree – o homem que foi sua figura paterna – Duncan enterra seu mestre sem jamais ter recebido dele o título de cavaleiro, mas vê no torneio de Vaufreixo uma chance de se convencer de que pode ser o que sempre quis. A lealdade que o ancora se tornará uma bússola reconhecível cem invernos depois, em Brienne de Tarth, quando ela percorre os mesmo caminhos de seu antepassado em busca de um lorde a proteger. Um questionamento, porém, acompanha Dunk por toda a temporada: qual seria o jeito certo de ser cavaleiro num mundo que não recompensa a decência?
Vale um parêntese aqui para o design de produção (Tom McCullagh) como um todo, que merece mais reconhecimento do que tem recebido. O simples figurino de Duncan no primeiro episódio, por exemplo, faz o Mestre dos Jogos do torneio dizer que ele está vestido como um fazendeiro, zombando da vontade do protagonista em querer batalhar como cavaleiro. Já nos últimos episódios da série, os fãs dos livros são presenteados com armaduras brilhantes e ornamentadas, como descrito nas histórias originais. Mostrando mais uma vez o respeito à obra de Martin.
O contraste do protagonista com Sor Lyonel Baratheon (Daniel Ings), que precisa de chifres enormes de veado – símbolo da casa Baratheon – fixados em sua coroa para anunciar sua importância, não poderia ser mais preciso (e cômico) para apresentar essa ideia. Com um orçamento menor do que o de A Casa do Dragão – que frequentemente parece gastar o equivalente ao PIB de Essos em dragões de CGI –, O Cavaleiro dos Sete Reinos entrega um cenário e figurino impecáveis do início ao fim: do vestido de Lady Gwyn Ashford (Cara Harris) a armadura de Aerion Chama Viva (Finn Bennett), tão extravagante que parece ter saído diretamente dos livros.

Uma das decisões mais inteligentes da série é o que ela faz – ou melhor, o que ela não faz – com a dinastia Targaryen. Sem dragões há quase noventa anos, a família que governou Westeros nas chamas agora precisa governar com palavras, intrigas, politicagem e a memória do que um dia foram. Despidos da criatura que os tornava aterrorizantes, os Targaryen são apenas homens. Alguns gentis, como Baelor “Quebra-Lanças” (Bertie Carvel), outros patéticos, como Aerion “Chama Viva”, e alguns refratários, como Egg (ou Aegon Targaryen), que não se dobra às expectativas impostas pelo sobrenome que carrega e não absorve a lógica de superioridade de sua família.
A química entre os atores principais é um belo triunfo da produção. O irlandês, Peter Claffey, conhecido pelo longa Pequenas Coisas como Estas (2024) e o seriado Vikings Valhalla (2022), constrói um Duncan equilibrado com seus valores, mas que ainda está procurando onde se encaixar. Já o carismático Dexter, que encantou os fãs desde sua revelação como Egg, já tinha aparecido no distópico universo de Jogos Vorazes, interpretando Cornelius Snow durante sua infância em A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes (2023). O garoto constrói um Aegon bem fiel às novelas, transitando entre a astúcia de quem precisa mentir para viver da forma que quer e a ingenuidade de ainda ser apenas uma criança.
Juntos, os dois fazem com que a relação entre cavaleiro e escudeiro se torne, inevitavelmente, amizade. Ao longo dos episódios, são as interações de Dunk e Egg que sustentam momentos em que a trama se apoia mais na emoção, que expõe a vulnerabilidade dos personagens, do que na ação. Essa química conquistou o público desde o ínicio, mas foi na CCXP de 2025, quando o elenco e a equipe da série vieram ao Brasil, que os atores puderam compreender a ansiedade dos fãs para ver a dupla na tela, sendo recebidos com muito carinho e aos gritos pelos entusiastas deste universo.

Se a série peca em algum ponto, é no uso do humor corporal. A nudez sempre foi parte das adaptações das crônicas para a TV, em Game of Thrones era frequentemente carregada de subtexto político, relações de poder e feminismo. Em O Cavaleiro dos Sete Reinos, ela migra para o território da comédia, o que faz sentido dado o tom da série, todavia em alguns momentos ultrapassa o limite e quebra a atmosfera que a produção demora a construir. Dunk defecando de forma grotesca logo no primeiro episódio e Sor Arlan urinando numa piada sobre o tamanho de sua “espada” são cenas expositivas demais, que beiram o grotesco, e acabaram por dividir a opinião dos fãs sobre a produção inteira.
Vale dizer que a cena escatológica tem uma justificativa, já que acontece logo após a trilha icônica da série principal começar a tocar, criando a expectativa de uma abertura grandiosa como nas produções anteriores – uma espera que é deliberadamente frustrada pelo corte seco seguido do momento em questão. O próprio Parker explicou a escolha lembrando que o personagem ainda não conquistou nada que justifique uma trilha majestosa. Enquanto alguns desses excessos podem comprometer a experiência de espectadores mais sensíveis, os abertos a um humor menos convencional vão, no máximo, franzir a testa.
A honradez do protagonista encontra sua prova de fogo quando Aerion agride Tanselle (Tanzyn Crawford), uma titieira dornesa por quem o personagem se apaixona, intervindo sem calcular as consequências de contrariar um príncipe. Para salvar Dunk da retaliação do irmão, Egg revela que é Aegon Targaryen, porém a descoberta abala a relação dos dois tanto quanto a agressão, já que o protagonista percebe que seu escudeiro o enganou desde o início.

A série não tem um vilão tradicional. Embora Aerion seja cruel e tenha seu embate com Dunk, ele é pequeno demais para sustentar o papel de antagonista de uma temporada inteira. O verdadeiro obstáculo do protagonista é o sistema – a estrutura de poder que decide que sua vida vale menos que a de um príncipe, que a verdade não se firma em fatos, mas na vontade de quem governa, e que a honra é algo que, para as grandes casas, se compra e se vende conforme a conveniência.
É justamente a honradez verdadeira de Duncan que o leva à ponta da espada Targaryen, quando os príncipes Targaryen e Lorde Ashford se reúnem para decidir o destino do personagem. Logo, Aerion sugere um Julgamento dos Sete. Uma variação do clássico Julgamento por Combate que vemos nas outras produções desse universo. Nesta versão especial, cada um dos duelistas escolhem mais seis pessoas para lutarem ao seu lado, até que todos os combatentes de um dos lados estejam mortos ou um dos líderes desista da queixa. Isso significa que o confronto pode ser mais longo e sangrento, e é justamente isso que acontece no aclamado Em Nome da Mãe.
Baelor decide compor o time de Duncan numa escolha corajosa, já que lutaria contra seu próprio sobrinho e seu irmão, e Carvel entrega cada nuance desse príncipe bondoso com uma contenção que torna sua presença em cena mais poderosa que qualquer discurso poderia ser. É também no quinto episódio que a série mais se arrisca: o Julgamento dos Sete é filmado em grande parte do ponto de vista do protagonista dentro do capacete, com a visão recortada pelas frestas do elmo e o som abafado pelos golpes, colocando o espectador no mesmo estado de desorientação do personagem, sem a distância confortável de uma câmera épica.

O flashback da Baixada das Pulgas coloca o tempero perfeito para a narrativa do episódio. A lama mostrada na infância e a lama da batalha se tornam a mesma coisa, dando força para Dunk se levantar. No entanto, é quando o personagem tira o elmo para conseguir respirar e enxergar que todos os estereótipos do que é ‘ser cavaleiro’ se quebram. A armadura que deveria fazê-lo guerreiro é literalmente o que o impede de lutar, enquanto Aerion, coberto de metal elaborado, é quem pede rendição.
A vitória no Julgamento dos Sete é o momento em que os próprios deuses formalizam o que Sor Arlan nunca fez – Duncan é cavaleiro, reconhecido pelo combate e pela honra que o sustentou até o fim. A tragédia é que esse reconhecimento vem embalado na morte de Baelor Targaryen que, ao ter o elmo removido, revela o golpe na cabeça que o levará. Ali vai junto a maior promessa da casa do dragão e um dos poucos nobres que enxergou Duncan como igual.
Vale o pensamento: Game of Thrones provavelmente não existiria como o conhecemos se Baelor tivesse assumido o trono. Ele era justo, popular, sábio e, como seu pai – o rei Daeron –, bom. Maekar, que agora é o herdeiro à coroa, sabe que as comparações com seu irmão com certeza vão atormentá-lo durante seu futuro reinado, porém algo ainda mais perturbador o corrói por dentro. Foi ele quem o matou. Não intencionalmente, mas defendendo seu filho, Aerion.

No velório de Baelor, o príncipe Valarr Targaryen (Oscar Morgan) – com sua mecha branca característica, exatamente como descrito nas novelas – contempla o corpo do pai sendo cremado e faz a pergunta que a série vai carregar para as próximas temporadas: por que os deuses levaram seu pai e pouparam um cavaleiro tão insignificante como Duncan? É a mesma pergunta que o protagonista faz para si mesmo, e o espectador que não conhece os livros também. A questão, ainda sem resposta, é um convite para as fases futuras da produção.
Enquanto Duncan lida com o peso da morte de Baelor, Egg carrega a dor de não conseguir escapar da sombra do irmão, e Dexter entrega essa âncora emocional com excelência. O nível de atuação do jovem ator torna a cena em que Maekar o impede de matar Aerion, uma das mais angustiantes da temporada, e reconhece que a única saída é dar ao filho o que ele deseja: seguir Dunk como seu escudeiro. Ele oferece ao cavaleiro um espaço em Solarestival para treinar Egg mediante juramento à coroa, mas o protagonista recusa, pois quer ensinar a vida real ao príncipe, não servir preso em um castelo – e os dois acabam encontrando, cada um à sua maneira, o mesmo caminho.

No fim, Egg foge do pai e segue junto de Duncan. Os dois partem para explorar os nove – e não sete – reinos sem um destino certo, unidos por uma escolha mútua de seguir em frente. Esse final retrata exatamente o cerne da produção: não é a grandeza de Westeros – inspiradas nas crônicas ou em Fogo e Sangue – que está na tela, mas sim dois improváveis que decidem cravar sua moeda na árvore, como Sor Arlan ensinou Dunk a fazer sempre que um cavaleiro sai em uma nova aventura.
O Cavaleiro dos Sete Reinos não tenta competir com o gigantismo de Game of Thrones nem se compromete a uma trama cheia de reviravoltas como A Casa do Dragão. Ela faz algo mais difícil: oferece uma história menor, mais íntima e mais humana, provando que Westeros tem espaço para narrativas mais curtas e fechadas, capazes de passar uma mensagem tão nítida quanto as grandes produções do universo de George R.R. Martin.
O saldo é muito positivo e deixa um gostinho de quero mais. Mesmo com ressalvas ao humor corporal que pontua alguns episódios, os fãs levaram a produção ao top 10 da HBO Max em todas as semanas de estreia e atraíram novos interessados por Westeros. Seja para acompanhar as próximas temporadas de Dunk e Egg pelo mundo, ou revisitar Game of Thrones, porém sem a esperança de um final agradável, como se espera de O Cavaleiro dos Sete Reinos.
