A liberdade de escolher ser quem é em A Ginasta

Cena do filme A Ginasta. Na imagem, uma adolescente branca de cabelos castanhos com franja, presos em um rabo de cavalo com uma xuxinha azul, veste um collant cinza sem mangas com detalhes pretos nos ombros. Ela olha para o lado com expressão de estranhamento, em um ginásio com aparelhos de ginástica desfocados ao fundo.
A produção também esteve presente na Jornada dos Aurores do Festival de Veneza (Foto: Visit Films)

Stéphanie Cardoso

Quando aquilo que sempre nos definiu deixa de existir, o que resta de nós? É em torno dessa pergunta que se constrói A Ginasta, exibido na seção Competição Novos Diretores da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Estreia de Charlotte Glynn na direção e no roteiro, o longa é um retrato sobre identidade, escolhas imaturas e a necessidade de seguir em frente. Monica (Britney Wheeler) é uma jovem atleta que vê seu futuro desmoronar ao sofrer uma lesão grave durante um treino. Com o pai, Rich (Ethan Embry), relutante em aceitar a situação e as colegas realizando seus sonhos, ela toma atitudes cada vez piores, em plenos anos 1990.

A obra é um coming-of-age ou, na tradução mais abrasileirada possível, uma ‘chegada à maioridade’. São histórias sobre escolhas e a perda da inocência, durante a passagem da adolescência para a vida adulta. A cineasta não tenta romantizar essa fase, que é marcada por contradições e impulsividades. A estrutura é conhecida, mas o roteiro explora as inseguranças do amadurecimento sem fazer da protagonista um exemplo de perfeição. Ela reage como qualquer um reagiria diante de uma perda assim. É nessa situação, de atitudes tomadas sem medir o que vem depois, que o filme funciona melhor.

Cena do filme A Ginasta. Na imagem, um homem de meia-idade, com cabelos castanhos curtos e entradas, aparece de perfil, olhando para o lado com expressão séria. Ele abraça uma jovem de cabelos longos e castanhos, que aparece de costas e fora de foco em primeiro plano. Ao fundo, em um ambiente com iluminação baixa, há um pôster desfocado preso a uma parede rosada
A montagem do filme ficou por conta da brasileira Lia Kulakauskas (Foto: Visit Films)

Um dos pontos mais interessantes é a relação entre a atleta e o seu pai. Os diálogos mostram como a falta de comunicação desgasta o vínculo entre eles, sobretudo porque a jovem sente que só é enxergada quando está dentro dos ginásios. Ele insiste na recuperação e no retorno às competições, enquanto a filha busca compreensão para uma situação diferente da que esperava. O conflito está na incapacidade de cada um reconhecer o que o outro precisa. Rich não percebe o peso das cobranças, e Monica se afasta de casa em busca de refúgio em novas companhias, mesmo que sejam prejudiciais. A dinâmica entre eles dá força ao filme, porque transforma o drama individual em um problema familiar, no qual ninguém consegue – ou quer – ouvir o outro.

A premissa abre margem para discutir a cobrança por desempenho e o efeito de tomar o esporte como único parâmetro de valor pessoal, mas a narrativa nem sempre aprofunda essas questões. Ao se afastar dos treinos, a jovem perde o chão e vê as colegas avançarem enquanto fica para trás. O enredo ensaia uma crítica a isso, porém a troca por dramas adolescentes superficiais e se concentra na frustração da personagem. Em vez de investigar o que sobra dela quando a ginástica deixa de organizar sua rotina e sua identidade, a história prefere acompanhar episódios que pouco acrescentam ao foco principal nos apresentado no início. O resultado é uma sensação de que a narrativa foi um pouco rasa, sem chegar de fato no ponto.

Cena do filme A Ginasta. Na imagem, uma ginasta de collant preto e cabelos castanhos presos em um coque com uma xuxinha rosa executa um exercício de parada de mãos sobre uma barra, de cabeça para baixo e com as pernas esticadas para cima. Ao fundo, o teto alto do ginásio é sustentado por uma estrutura de vigas de madeira e lâmpadas fluorescentes
O filmes se passa durantes os anos 90, década onde as Olimpíadas de 1996 foi sediada em Atlanta, nos Estados Unidos (Foto: Visit Films)

Na parte visual, a reconstituição dos anos 1990 é um grande acerto. A ambientação de Kayla Hoff (diretora de fotografia) ganha força sob a condução de Glynn e cumpre uma função na história. Ela situa o público no período sem precisar de explicações e mantém o foco na protagonista. A diretora imprime personalidade ao tom das cenas, entretanto a escolha por caminhos confortáveis limita um trabalho com potencial para ir muito mais longe. A forma é resolvida com segurança, e o cuidado com a época mostra uma habilidade notável para uma estreia.

O final é o ponto alto da produção, sem dúvidas. A protagonista finalmente assume as rédeas da própria vida e para de se deixar levar pelas expectativas de todos ao seu redor. Deixar para trás o mundo da ginástica mostra que amadurecer não depende de ter tudo resolvido e que, apesar de tudo, a vida continua. A escolha, que poderia soar apenas conveniente, ganha peso por ter sido preparada ao longo de toda a trajetória de perdas e tropeços. Apesar das falhas, A Ginasta acerta na sensibilidade ao retratar as incertezas de crescer e a dificuldade de separar o que se quer do que os outros esperam.

Deixe uma resposta