
Mariana Bezerra
Paper Tiger, o novo filme do diretor estadunidense James Gray, foi o título de abertura da 50ª Mostra Internacional de São Paulo. Gray participa desta edição do evento como peça central: assina a ilustração do cartaz oficial, é o vencedor do Prêmio Leon Cakoff, o título honorário de maior prestígio da Mostra e é homenageado com a exibição especial de sua filmografia. O longa estreou no Festival de Cannes e percorreu outros grandes festivais, como o de Nova Iorque, e chegará aos cinemas em 2027.
É simbólico que a carreira do diretor seja celebrada nesta Mostra diante do lançamento e exibição de um filme que carrega, essencialmente, o seu estilo, e o ambiente nova-iorquino que marcou a sua vida e as suas mais belas obras. No longa, Gray volta a explorar um drama fraternal que se relaciona com a criminalidade e à máfia, como em Os Donos da Noite, mas agora parte de um retrato que parece mais comum, familiar e, pode-se dizer, até mais ordinário.
Tigre de Papel, no tradução, se passa na década de 1980, no Queens, onde ganha vida a história da família Pearl, formada pelo casal, Irwin (Miles Teller) e Hester (Scarlett Johansson), e seus dois filhos. Irwin, um engenheiro bem sucedido, se une ao seu irmão, Gary Pearl (Adam Driver), um renomado e influente ex-policial, no que parece ser uma oportunidade única e relativamente fácil de ascensão social. A operação liderada pelo irmão mais velho era simples na teoria: prestar serviço de consultoria ambiental para os russos que passaram a administrar o canal mais poluído da cidade e precisam de orientação quanto às leis e normas do país.

O estopim para a trama se dá quando Irwin decide mostrar, tarde da noite, o seu novo projeto aos filhos. Na sua ingenuidade, o engenheiro decide alertar sobre os riscos elétricos que a equipe está correndo e acaba flagrando o descarte incorreto de óleo feito pelos russos. Com isso, ele é agredido e seus filhos ameaçados. A partir desse momento, fica claro que os contratantes não seriam russos quaisquer, mas a própria máfia.
O roteiro de Gray é denso e capaz de abarcar as múltiplas camadas que envolvem as relações sociais e familiares envolvidas. No primeiro aspecto, o que antes parecia ser uma vida confortável, revela as insuficiências de sua classe: a impossibilidade de pagar a faculdade do filho mais velho, o desejo de se mudar para um bairro mais seguro, por exemplo. No sentido fraternal e íntimo, há uma crise que se aprofunda ao longo do filme nos núcleos de Irwin; entre a necessidade de proteger sua esposa e seus filhos e, no entanto, confiar no homem que os colocou nessa situação.

Nas produções audiovisuais nova-iorquinas de polos mais extremos – de O Poderoso Chefão (1972) a Demolidor (2015) – a ‘cidade que nunca dorme’ é frequentemente retratada como o palco ideal para a violência e a corrupção enraizada; não é à toa que Gotham City se inspira nela. Em Paper Tiger, James Gray consegue abraçar uma dessas muitas eras de perigo da metrópole: a ascensão da máfia russa após o fim da Guerra Fria. Ele parte de um olhar humanizado, mas que gradualmente revela uma sujeira impregnada mesmo em figuras com boas intenções, pessoas movidas pela ambição capitalista.
Em determinado momento, inclusive, Gary percebe ser aparentemente o único do meio policial não entregue à corrupção. Assim, o grande mérito de Gray é conduzir essa trajetória sem julgamentos morais, conferindo complexidade e grandiosidade a esses personagens comuns. “O mundo está arruinado de pessoas com boas intenções“, comentou o diretor após a exibição do filme na Mostra.
Com isso, a poluição do canal se torna uma metáfora ao drama policial e criminal do filme. Algo que, inclusive, é valorizado pela fantástica fotografia (Joaquín Baca-Asay) do longa, que foi filmado em 35mm. Nesse sentido, a paleta de cores, a presença – ou não – de luz e a baixa saturação promovem um sentimento nostálgico, não só de algo que aconteceu décadas atrás em relação ao nosso tempo, e sim de uma realidade terna e estável, dentro do filme, para a qual aquela família jamais retornará. Sem grandes cenas de luta ou ação, tão previsíveis nesse gênero, a narrativa de Paper Tiger se constrói na observação e nos sentidos.

Uma das cenas mais emblemáticas nesse sentido ocorre quando a casa da família é invadida: os móveis são revirados e o invasor deixa expostas fotografias dos quatro membros enquanto dormiam. O momento deixa claro que a paz daquele núcleo chegou ao fim e que a sua segurança está definitivamente comprometida. Mais do que isso, a tensão gerada pelas atuações e pela construção cênica cria um pavor iminente; a sombra da espingarda de Irwin projetada na parede, sem que vejamos a arma ou o próprio invasor, exemplifica esse estado de violência e horror que transcende o sentido da visão, ou mesmo do consciente, exatamente como se espera do bom cinema.
Além da corrosão de uma certa ingenuidade e esperança inerentes ao sonho americano – pelo menos nesse filme – a sujeira física encontra a sua materialização dramática, também, no destino de Hester, interpretada brilhantemente por Scarlett Johansson. Após perceber a sua visão embaçada, ela descobre um tumor cerebral com prognóstico de seis meses a um ano de vida. A ironia trágica reside no fato devastador de que a doença pode estar associada às condições sanitárias da região: o mesmo canal poluído que contamina a cidade destrói física e moralmente a estrutura dessa família.

Em sua passagem pelo Brasil, James Gray destacou a importância de integrar as contribuições dos atores, definindo a função da direção como o ato de abraçar essas expressões enquanto se preserva a essência do filme. Mais do que um detalhe de bastidor, essa abertura ao elenco potencializa o subtexto e o “não dito”. Apesar dos papéis de gênero não serem o eixo principal da história, e, ainda, que seja possível questionar o pouco desenvolvimento da personagem Hester, a narrativa consegue explicitar os contornos sociais do casal.
Nesse sentido, a mulher ocupa a posição de mãe dedicada e esposa resiliente, e Irwin, a do patriarca que vê desmoronar a capacidade de proteger a própria família. Nesse cenário, a construção do status quo da época se revela nos detalhes: os pequenos gestos e os momentos de improviso alimentam a atuação visceral de Johansson, não impactada pelo pouco de tela. Carregada por uma angústia profunda, a atriz traduz a contenção de uma mulher cujos sentimentos só transbordam diante do colapso iminente.
Com atuações potentes, um roteiro honesto e uma dedicação palpável ao cinema, Paper Tiger entrega algo conciso e instigante. O filme extrai a sua força de dramas presentes na ordinariedade da vida real – refletindo as próprias experiências do diretor. Essa é, definitivamente, uma produção que convida o espectador para a sala de cinema e a se entregar à obra no ambiente para o qual ela foi concebida.
