Em Katábasis, R. F. Kuang transforma a universidade no verdadeiro inferno

A obra causou debates no BookTok, nicho literário do TikTok, por ser considerada acadêmica e complexa de ler (Foto: Intrínseca)

Vitória Mendes

Imagine que você está desenvolvendo sua tese de doutorado e, antes que você possa terminar, seu orientador venha a falecer. E somente ele poderia lhe garantir a tão sonhada carta de recomendação, capaz de abrir todas as portas imagináveis. O que você faria? Se aventuraria no Inferno para recuperar a alma do seu orientador, trazê-lo de volta e tê-lo na banca avaliadora? Alice Law, sim. Essa é a proposta de Katábasis de R. F. Kuang, autora best seller e aclamada pela escrita em Babel (2022) e na trilogia A Guerra da Papoula (2018). Lançada em setembro de 2025 pela editora Intrínseca e traduzida por Marina Vargas, a fantasia dark academia tece uma narrativa onde filosofia, mitologia e universidade convergem com sagacidade e intelectualidade. 

 Em uma Cambridge dos anos 80, no período pós-moderno e pós-estruturalista, onde o sistema de magia é guiado pela crença no impossível, gizes mágicos levam diretamente ao Inferno. É nesse cenário que Alice estuda Magia Análitica no programa de pós-graduação. Na área majoritariamente masculina, a jovem lida com a misoginia constante, assédios e, muitas vezes, negligencia sua própria saúde em nome da validação acadêmica. Para ela, trabalhar ao lado de Grimes, considerado o maior mago do mundo por suas valiosas contribuições durante a guerra, é um sonho sendo realizado. O rígido docente é idolatrado por Alice, que se submete a situações repulsivas sem sequer questionar os motivos. 

Quando um experimento do qual Alice participou dá errado e o seu professor morre, a culpa passa a fazer parte dela e se torna um fator decisivo para que ela decida realizar sua própria katábasis, termo grego que se refere a uma jornada ao submundo, na esperança de trazer Grimes de volta a vida. O que ela não esperava era que Peter Murdoch, seu rival e também orientando de Grimes, tivesse a mesma ideia por motivos próprios. Para ambos, até mesmo perder a vida é mais aceitável do que fracassar academicamente. Com pequenos bastões encantados e mapas incertos de seus predecessores, Dante e Orfeu, os dois chegam ao submundo e, ao invés de encontrarem um lugar sombrio, se deparam com um reflexo do campus de Cambridge, uma ironia e alívio que rapidamente desaparece.

Kuang já foi premiada pelo Prêmio Nebula, Locus Award, Crawford Award e British Book Awards (Foto: Julian Baumann)

Entre mitologia, dialeteias, filósofos mortos, dilemas universitários e um rio que arranca memórias, a rivalidade de Alice e Peter continua maior que do que nunca, e atravessar os oito tribunais do Inferno na busca pelo professor se mostra uma tarefa árdua. Os doutorandos enfrentam ameaças pouco convencionais e desafiam a própria magia e as convenções tradicionais. A narrativa, inegavelmente intelectual, alterna do passado para o presente e produz uma crítica direta às estruturas e ao balanço de poder no meio acadêmico. O sistema de magia baseado na força da crença e nos paradoxos é interessante e com potencial único na execução. Em uma obra imersiva, Kuang abraça a ideia de um Inferno identificável, mas inesperado.

Ao longo de 480 páginas, a jornada ao inferno também se revela um caminho metafórico por autoconhecimento. Em cada tribunal do Inferno, a autora explora os crimes cometidos em vida e a luta por redenção através do desenvolvimento de teses impossíveis de agradar às divindades avaliadoras, fazendo um paralelo com a academia. Provando sua relevância social, Katábasis critica abertamente o meio acadêmico, a pressão para ser perfeito, alunos sobrecarregados, abusos de poder, privilégios e ainda debate a meritocracia. Kuang retrata frustrações e desesperos com acidez, fazendo juz a estética dark academia e ao seu próprio estilo de escrita. A discussão sobre gênero, raça e classe é crua e sem romantização, expondo as cicatrizes do sistema educacional e das lideranças.

A saúde mental dos universitários é o tema central, ainda que indiretamente. Os sentimentos de Alice e Peter são representados de forma desesperada, realista e se tornam indispensáveis no enredo e desenvolvimento dos personagens. Alice, que considera a carreira mais importante que a própria vida, passa por diversos espirais mentais e autodepreciativos que colidem diretamente com a necessidade de ser a melhor em tudo. A humanização que a autora insere nos personagens contribui para a exploração ampla do gênero literário, além de manter a narrativa viva, sensível e sincera.

“Mas é claro que valia a pena. Era a única coisa que valia a pena. Ela tivera sorte de encontrar uma vocação que tornava todo o resto irrelevante, e qualquer coisa que fizesse você se esquecer de comer, beber, dormir ou manter relacionamentos básicos – qualquer coisa que deixasse você empolgada de um jeito irracional – tinha que ser perseguida com devoção absoluta”

Kuang explora os paradoxos da filosofia, física e matemática, e se apoia em referências densas e específicas para ilustrar a katábasis de Alice e Peter. Orfeu, em A Odisseia de Homero, vai ao submundo em busca de Eurídice, transformando seu mapa em uma fantasia do luto. A divisão dos pecados no Inferno de Dante também se faz presente, assim como The Waste Land e até mesmo Caroll e a metáfora da toca do coelho como jornada moral e filosófica. O livro é um prato cheio de reflexões nos mais diversos aspectos. As diferentes interpretações do submundo e seu governante, advindas da mitologia romana, grega e chinesa, enriquecem a obra e a tornam mais diversa. É evidente o domínio da autora sobre os conhecimentos, cada detalhe esbanja familiaridade. 

Sendo mestre em filosofia, na área de Estudos Chineses, por Cambridge, em Estudos Chineses Contemporâneos por Oxford e, atualmente, doutoranda em Literatura e Línguas do Leste da Ásia em Yale, a autora não é sutil ao transbordar suas próprias experiências na trama e fazer reflexões complexas com base em estudiosos de sucesso. Apesar de tornar a escrita rica, a quantidade de paradoxos, referências acadêmicas e explicações detalhistas, demonstra certa desconfiança na capacidade interpretativa e intelectual do leitor. Muitas reflexões não acrescentam nada à trama, apenas reforçam repetidamente que os personagens são mentes brilhantes, não deixando espaço para questionamentos próprios.

“O mundo não era um sistema fechado, sempre havia uma exceção. Não havia nenhuma explicação para sua existência, nenhuma razão para esperar que tenha existido antes ou que voltará a existir. O universo é simplesmente incognoscível. Exceções surgiam o tempo todo, e tudo o que você precisava fazer para desafiar os limites era procurar”

A ambientação do Inferno, apesar de interessante no início, não cria a tensão esperada. As ameaças são resolvidas excessivamente rápido, evitando a sensação de perigo iminente e impedindo uma conexão maior com o cenário e os personagens além de seus conflitos internos. A trama envolvendo a Tecelã, apesar de promissora, se torna apenas mais um obstáculo. Já a reviravolta dos verdadeiros vilões não impacta, ou explora o potencial da magia selvagem e os limites das descobertas científicas. A jornada, embora justificada pelos dilemas internos de Alice, se estende mais que o necessário, de forma que, nem mesmo os últimos capítulos conseguem surpreender.

Apesar de tropeçar na própria densidade e no excesso de referências e debates, o título se consolida como desafiador, relevante e singular entre as fantasias dark academia. Kuang constrói um universo que estimula intelectualmente, reinterpreta o submundo e dialoga com as ansiedades do ambiente acadêmico. A construção mental de Alice, na crítica social e no sistema de magia, se destacam mais do que a densidade estrutural, tornando a leitura agradável. Katábasis é ambicioso, imperfeito e marcante à sua própria maneira. Entre tantos paradoxos e dilemas, resta o questionamento: até que ponto o desejo pelo sucesso justificaria a descida ao submundo?

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