Aviso: Este texto contém spoilers

Vitória Mendes
Corromper a realidade e distorcer dilemas éticos é a especialidade de autores, em especial ao criarem um universo pelos olhos do vilão. Quando um escritor mergulha na mente e nos sentimentos mais sombrios de suas criações, o quanto disso é parte dele mesmo e o quanto é apenas ficção? Esse é o questionamento que permeia Verity. Baseado no thriller psicológico de sucesso de Colleen Hoover, o filme acompanha a trajetória de Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), uma autora com pouco reconhecimento que recebe uma proposta milionária para terminar os últimos livros da famosa série de Verity Crawford (Anne Hathaway), que está debilitada. Tendo acabado de perder a mãe e sendo despejada de seu apartamento, a protagonista aceita a proposta e se muda para a casa da família.
Ao adentrar o espaço de trabalho da romancista, ela nota que há outras anotações além do conteúdo do livro que deveria finalizar, aspecto que o roteiro de Nick Antosca opta por não aprofundar. Quase de imediato, Lowen mergulha na autobiografia de Verity e se vê envolvida em segredos que abalam sua visão sobre o acidente de carro que resultou no estado vegetativo da mulher, a morte da filha e o trauma da família. Com um manuscrito que apresenta as piores ações da escritora, principalmente voltadas à filha Harper (Sienna Kulovitz), e sentimentos ocultos a seus fãs, a recém-chegada logo percebe que a realidade pode ser pior do que imaginava.
Porém, nada impede que a relação sem química entre ela e Jeremy Crawford (Josh Hartnett), marido de Verity, se aprofunde e a sensualidade seja evidenciada ao longo da narrativa, inclusive em paralelos entre as duas mulheres. Isso influencia na forma como a visitante começa a sonhar com a dona da casa, em uma mistura fascinante e macabra que alimenta sua confusão mental. O relacionamento se desenvolve sem motivações ou uma construção que desperte alguma empatia ou compreensão no espectador. Assim, fica evidenciado a falta de profundidade dos envolvidos, em especial da própria Lowen. Não há nada que a torne crível ou complexa, tanto psicologicamente quanto moralmente, deixando-a tão rasa quanto um pires, mesmo nas cenas que tentam mostrar lapsos de julgamento e expressões maquiavélicas.

Quando se assiste a um suspense, a expectativa é de ser surpreendido e envolvido pela história, o que definitivamente não acontece aqui. Apesar de a ideia original ser interessante e apelativa para os amantes do gênero, o roteiro narrativamente fraco segue exatamente o que o espectador espera que aconteça a cada cena, ignorando diversos caminhos que fugiriam da obviedade. As reviravoltas e os jumpscares claramente tinham o objetivo de chocar e criar uma aura de mistério e confusão, especialmente nas cenas em que a câmera dá um foco extra em Verity que, estando acamada, de repente se move. Além disso, com a necessidade constante de explicar tudo por meio da narração do manuscrito e dos flashbacks, a direção abandona a sutileza e não deixa espaço para a interpretação do público.
Essa previsibilidade ocorre principalmente por já existirem obras no mesmo estilo e com enredos similares em outros formatos de mídia, em especial na literatura, o que faz os elementos surpresa deixarem de funcionar, destruindo o que deveria ser essencial em um thriller: a tensão dramática e a antecipação. É nessa tentativa de tornar tudo mais sombrio do que realmente é que a trilha sonora entra para ditar o momento e o ritmo dos acontecimentos. De certa forma, a composição de Volker Bertelmann cria uma expectativa, porém ao mesmo tempo diminui o impacto das revelações e evidencia uma tentativa fraca e desesperada de chocar o público.
Anne Hathaway é a grande estrela nessa nova parceria com o diretor Michael Showalter, e personifica Verity de forma tão intensa que o debate sobre qual documento, carta ou manuscrito, revela a verdade sobre ela ganha mais força. Com o brilho de Hathaway, Dakota Johnson e Josh Hartnett ficam apagados em meio à carga emocional que ela apresenta, mesmo permanecendo catatônica por grande parte do filme, o que prejudica ainda mais a construção dramática dos dois. A falta de expressividade de Johnson torna a protagonista ainda mais insossa, o que não é difícil. Os poucos momentos que apelam genuinamente para o emocional são com as crianças, Harper e Crew (Brady Wagner), que são essenciais para o início de tudo
Carta ou manuscrito, vítima ou vilã. Cada versão apresenta seus próprios argumentos e desenha dois extremos: a escritora surge como uma pessoa boa e injustiçada na carta ou como cruel e culpada no manuscrito, o que por consequência reflete na posição de Jeremy e nas decisões de Lowen. Apesar de a maior parte da história se apoiar no texto autobiográfico, logo pende para a carta, por ter sido escrita antes da chegada de Lowen, endereçada ao marido e reforçada pela boa relação com o filho sobrevivente. Apesar disso, há a inconsistência de Verity não ter pedido ajuda à cuidadora ou à própria visitante. Independente desses fatos, o manuscrito se fortalece pelas entrevistas nas quais a autora revela o desejo de corromper a realidade e manipular seus leitores, seja como for.

No aspecto técnico, um dos pontos perdidos pela produção foi não utilizar os recursos de figurino e maquiagem para evidenciar o estado mental dos personagens. Tendo à sua disposição a designer Jacqueline Demeterio, vencedora do Emmy, e vestidos da Versace seria possível explorar melhor a dualidade da anfitriã e as ambições de Lowen em substituí-la. Para além da cena do vestido vermelho e da caracterização física da mulher debilitada, o potencial visual foi perdido.
O mesmo acontece com a ambientação que, apesar de visualmente bonita, não contribui para o sentimento de tensão e perigo iminente. A casa reflete a riqueza da família com um espaço vasto banhado em luz solar e uma vista natural. Ainda que o gênero não necessite de espaços desconfortáveis, decadentes, escuros ou claustrofóbicos para provocar incômodo, como bem ilustrado em Midsommar (2019), o longa não apresenta nenhum elemento que cumpra o papel. No final, se torna apenas mais um item na lista de oportunidades desperdiçadas pela direção.
Em uma tentativa falha de criar um thriller psicológico complexo e cheio de reviravoltas, a produção se perde nas próprias expectativas e entrega uma obra previsível e posicionada no lado mais frágil do gênero. Nessa onda recente de adaptações literárias, é esperado que omitam detalhes pelo tempo limitado de tela. Contudo, mesmo para quem não leu o livro, fica claro que o recorte escolhido não foi o ideal. No fim, Verity acaba se tornando um exemplo dos limites do suspense contemporâneo e da urgência em inovar o gênero e construir narrativas ousadas e capazes de instigar o espectador em vez de se limitar ao previsível.
