O Outro Lado das Redes é corrupto e o homem por trás da câmera é inapto

Esse foi o primeiro filme exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, mas apenas para a imprensa (Foto: Sony Pictures)

Guilherme Moraes

O Outro Lado das Redes foi exibido em uma cabine de imprensa da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e fará parte da programação do evento na seção Perspectiva Internacional. Antes de mais nada, é preciso dizer que o longa não é uma continuação de A Rede Social (2010) de David Fincher; são apenas duas obras que adaptam passagens da vida de Mark Zuckerberg e do Facebook/Instagram/Meta. Primeiro porque os personagens não são os mesmos, ou têm qualquer relação; segundo porque o Aaron Sorkin é tão ineficiente em articular os elementos cinematográficos que mal é um filme.

O que é cinema? Antes de tudo, cinema é imagem, geralmente em movimento, porém, acima de tudo, imagens que encontram sua limitação no tempo. No entanto, parece que alguns cineastas sequer pensam sobre o que é de fato a arte que fazem. Aparentemente, quanto mais tecnologias para produção e maior a acessibilidade às obras, parece que menos importante ficam as imagens, pelo menos no cinema hollywoodiano. Aaron Sorkin se enquadra nesses quesitos, seu longa, que retrata as investigações ao Facebook/Instagram entre 2019 até 2021, se apega tanto aos diálogos que parece mais um podcast. Nada é contado a partir de cenas, de seus personagens e da maneira como filma. Os atores estão sempre falando sobre o que está acontecendo da maneira mais burocrática possível.

O longa até tenta se aprofundar em questões diversas sobre o sistema adotado pela empresa e como ele alimenta discursos de ódio e preserva o anonimato. Ele fala sobre as consequências na vida de adolescentes que sofrem bullying sem conseguir se defender, ou pessoas sendo cooptadas pela extrema-direita e adotando uma mentalidade facista sem perceber. No entanto, faz tudo de maneira porca e preguiçosa. Em um momento, a protagonista Frances Haugen (Mikey Madison) está bebendo em um bar e escuta uma garota comentando com os pais que está sendo perseguida em uma rede social. A fita se apega muito a essas ‘iscas’ sobre como a sociedade é afetada, mas sem desenvolvimento crítico sobre esses assuntos. Nem se pode dizer que Sorkin está mostrando os efeitos desse sistema, já que, como dito anteriormente, ele nem se importa com as imagens.

Jeremy Strong faz um Mark Zuckerberg que lembra bastante seu Kendall Roy (Foto: Sony Pictures)

Além de tudo, pode-se dizer que é um filme covarde. Como falar sobre a influência dessas big techs no mundo e nas eleições sem citar Donald Trump? Por favor, dê nome aos bois. São vários casos de políticos sendo ajudados indiretamente e até diretamente por essas plataformas. Aqui no Brasil vemos isso claramente com a família Bolsonaro e Nikolas Ferreira, por exemplo. Você está fazendo uma obra política, em uma democracia e bancado por uma empresa como a Sony com a promessa de rodar o mundo. Fique tranquilo que seu filme não será arquivado se der os nomes. Obviamente a obra não precisa citar essas pessoas fora do polo estadunidense, e nem sequer precisaria mencionar o atual presidente dos EUA, no entanto, é embaraçoso ser tão esquivo e referenciá-lo apenas como “ele”. 

Para finalizar, é necessário falar da péssima atuação da trinca Mikey Madison, Jeremy Allen White e Jeremy Strong. Contudo, é preciso dizer que são três atores muito talentosos que já fizeram trabalhos incríveis e encontraram aqui um roteiro (Aaron Sorkin) terrível. É difícil crucificá-los quando eles sequer estão interpretando personagens. Não há ambição, desejo, pulsão, ou seja, não há humanidade. Eles agem de forma burocrática. Todos eles são meros dispositivos para que a informação chegue ao público. Mikey faz X, White faz Y e Strong faz Z, e é assim por duas horas. Tem uma passagem quase no encerramento em que Frances muda de ideia sobre testemunhar, mas a explicação do porquê é racional demais e não tem qualquer componente sentimental, porém, nós humanos não somos controlados apenas pela razão. Pelo menos, em defesa da Mikey Madison, ela tenta empregar um pouco de pessoalidade na protagonista, ainda que o espaço para isso seja quase nulo.

Abrindo uma exceção aqui para uma marca mais pessoal, sei que este não é meu melhor texto, sequer é um grande texto, não há uma ideia central a não ser convencer que essa obra mal pode ser considerada um filme. No entanto, também acredito que as melhores críticas vêm dos melhores longas. Quanto melhor o filme, mais rica é a discussão sobre ele. Ou por vezes, nem sempre os melhores, e sim os mais arriscados, os mais ‘sujos’ – fazendo coro com o Cinema Marginal –, os mais curiosos ou até os mais contraditórios. Infelizmente, O Outro Lado das Redes não é nada disso, e Aaron Sorkin me parece um inapto a fazer cinema.

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