
Bianca Rodrigues
Se eu fosse você 3 chega aos cinemas com o intuito de resgatar a franquia clássica após quase duas décadas. Sob direção de Anita Barbosa, o longa traz Cláudio (Tony Ramos) e Helena (Glória Pires) como personagens secundários, vivendo uma fase tranquila em seu casamento com a comemoração de sua segunda lua de mel longe do Brasil. O foco da história passa para a filha do casal, Bia (Cleo Pires), que agora é uma chef de cozinha e vive com seu companheiro Aquiles (Rafael Infante), um guia turístico de esportes radicais. Quando a relação dos dois entra em crise, o surpreendente ‘raio’ da franquia atinge a família outra vez.
Com a mudança de corpos, Bia se encontra obrigada a superar seu medo paralisante de altura, enquanto Aquiles precisa assumir a pressão de comandar uma cozinha sob o assombro de possíveis críticos culinários que irão avaliar o restaurante – tudo isso em meio às complicações de uma gravidez. No meio da tentativa de realizar esses objetivos, ambos percebem que desconhecem a vida de seu parceiro e que há mais do que o supérfluo no dia a dia rotineiro de seus trabalhos, como as amizades (Yohanna Eshima e Dan Ferreira).

A decisão de transformar a sequência em uma ‘continuação legado’, transferindo a Maldição da Troca de Corpos para a geração mais jovem, traz um fôlego renovado ao formato. Os dois primeiros filmes se tornaram clássicos da comédia brasileira com um enredo já formulado pelo cinema norte-americano dos anos 1980, como o longa Vice-Versa (1988), devido ao diferencial da entrega dos atores protagonistas. Glória Pires e Tony Ramos trazem consigo química e conexão, criando trejeitos físicos e comportamentais que fazem com que o público se encante e acredite neles como um casal. Ao decorrer da trama, é provado que fórmulas importadas podem funcionar muito bem quando adaptadas com identidade cultural própria e, acima de tudo, elencos talentosos. Enquanto o primeiro estabelece a dinâmica e o choque de realidades, o segundo expande os limites do absurdo com maturidade cômica. São obras que definiram o padrão do cinema cômico comercial brasileiro da sua época, apoiadas inteiramente no carisma magnético de sua dupla principal.
A estratégia de passar o bastão para a filha do casal, Bia, indica um começo promissor, mas falha em pontos importantes. A sintonia em cena entre Cleo e Rafael Infante garante os melhores momentos do filme, principalmente Infante, que se destaca ao usar sua bagagem no humor físico para capturar os maneirismos de Cleo com leveza, fugindo de estereótipos rasos. Além disso, a presença de Glória Pires e Tony Ramos como o suporte maduro da trama serve como um presente nostálgico aos fãs. No entanto, o roteiro (Leandro Soares) aposta em uma estrutura bastante segura e simplificada, o que faz com que a comédia perca parte da densidade emocional que consagrou os originais. A dinâmica de papéis invertidos em cenários de trabalho (cozinha profissional vs parque radical) rende boas discrepâncias visuais; em contraste, o ritmo geral depende fortemente das performances do elenco principal para sustentar o interesse do público.

O longa teve uma boa quebra de expectativa com a troca de protagonistas, porém o enredo não soube inovar como o esperado. Com a mudança na direção para Anita Barbosa (Amor.com), a especulação de uma comédia nacional que se desprende de fórmulas já desgastadas nos últimos anos foi criada, no entanto não concretizada. Veículos como o Cinema com Rapadura pontuaram que, embora o filme ainda divirta e funcione como entretenimento familiar leve, há uma clara dificuldade em replicar a densidade cômica e o volume de gargalhadas dos dois primeiros. O roteiro é previsível com conflitos superficiais, e faz com que a obra toda se materialize apenas através do carisma dos atores. Infante, mais uma vez, cumpre esse papel trazendo um ar cômico sem exageros e estereótipos para as cenas.
Um encerramento – ou reinício – simpático que atende à nostalgia dos fãs, mas sem o mesmo impacto do clássico de 2006 ou de sua sequência. Peca em alguns âmbitos cinematográficos, contudo alcança uma mudança contemporânea e um ritmo visual dinâmico que entretém os telespectadores e difere-se do resto da trilogia. Apesar dos seus entraves, pode se consolidar como uma comédia nacional de Sessão da Tarde na TV Globo como um ‘filme pra família toda’.
