
Guilherme Moraes
Em sua última temporada, Euphoria tira seus personagens da zona de conforto do colégio e os joga no mundo real. Aqui não há espaço para o cinema inocente e otimista de Steven Spielberg (E.T O Extraterrestre – 1982) ou John Hughes (Clube dos Cinco – 1985). A geração é a esperança, mas também a continuação de outra. Se lhes forem entregues violência, vício e exposição, então é disso que eles irão viver. O seriado então encerra se perguntando: qual Estados Unidos foi deixado para a geração Z?
A história de Euphoria permeia a vida do sexteto Rue (Zendaya), Jules (Hunter Schafer), Maddy (Alexa Demie), Lexi (Maude Apatow), Cassie (Sydney Sweeney) e Nate (Jacob Elordi), adolescentes que cresceram se medicando diariamente, com celulares e acesso à internet sem qualquer proteção, em lares problemáticos e expostos a bebidas e drogas. Como consequência, desde cedo foram isolados do mundo, adultizados e sexualizados. O resultado? Adultos que dependem da venda de seu próprio corpo para sobreviver e que acreditam tanto no personagem que criaram que perdem de vista a si próprios.
Rue se torna mula do tráfico e consegue ‘fugir’ dessa vida se associando com a prostituição; Cassie busca sua independência financeira com OnlyFans; Maddy alimenta essa indústria como empresária de Cassie; Jules se torna uma sugar baby e Nate vira um empreendedor fracassado que deve a agiotas. Lexi é a única que escapa dessa vida miserável, conseguindo um estágio e entre erros e acertos tenta conseguir seu espaço na indústria cinematográfica. O destino de cada um não é surpreendente para quem viu outras temporadas, afinal, os jovens não estão à parte do mundo, são a consequência do que foi deixado para eles.

Nesse sentido, a série vai ao Velho Oeste, histórico espaço de disputas e famoso no cinema americano pelas obras de bangue-bangue. O faroeste, casa de John Ford, Howard Hawks, Clint Eastwood e tantos outros que faziam filmes no século passado, agora é revisitado por diretores como Paul Thomas Anderson, Quentin Tarantino, Kelly Reichardt e a série Euphoria. É um gênero cinematográfico muito politizado, pois fala sobre a origem dos Estados Unidos. É um daqueles temas que não se pode passar batido quando produzido em Hollywood, ele é, por sua própria cultura, um local político.
Tomando como exemplo Uma Batalha Após a Outra (2025), a elite retorna ao oeste americano no momento em que precisa se utilizar do racismo e da barbárie. Em Euphoria, armas, drogas, sexo e violência fazem parte do mundo desses personagens desde a escola. Assim, esse retorno não é de fato uma volta à origem dos Estados Unidos, mas um lugar de onde o país nunca saiu. Prédios e cidades foram construídos, o Oeste americano virou uma lenda, no entanto, o seriado mostra que esse passado sangrento nunca foi superado e continua como uma região de disputa, porém, dessa vez com outras etnias e gêneros podendo tomar o lugar para si sob os mesmos moldes sangrentos.
Nesse cenário, surgem duas figuras preponderantes no território: Alamo (Adewale Akinnuoye-Agbaje), homem negro de mesmo nome ao da região da histórica disputa entre México e Estados Unidos, e Laurie (Martha Kelly), mulher que já estava presente nas outras temporadas, e agora se torna uma peça mais influente. Se o deserto americano é um espaço de disputa, então no episódio América, Meu Sonho essa guerra é conflagrada. Duas pessoas que estão à margem da sociedade encontram oportunidades em mercados lucrativos, ilegais e cruéis. Para além do american dream e do slogan da terra das oportunidades, Euphoria explora onde realmente estão essas oportunidades: pornografia, Onlyfans, prostituição, tráfico, agiotagem, etc. Esse é os Estados Unidos deixado para geração Z.

Euphoria se destacou desde o primeiro ano pela direção marcante de seus episódios. As cores, a iluminação das cenas, o figurino, a maquiagem, a textura das imagens e os planos e movimentos de câmera eram muito chamativos e diferentes do que é visto nos programas de TV. A temporada seguinte, no entanto, se apaixonou pela própria estética, que virou um feitiche pela forma. Na terceira e última temporada, a criatividade ainda é predominante, dificilmente a série repete um plano, porém, ela se reposicionou, se tornou até mais econômica, em alguns momentos evocaram um certo classicismo, e assim, chegou ao seu auge. A forma agora é a própria narrativa.
Logo no primeiro episódio, Ándale, vemos Rue trabalhando com nazistas em uma casa insalubre abandonada no meio do deserto. O ambiente é pouco iluminado, o teto é baixo, as marcas na pele dos personagens tornam o local mais opressivo e podre. São sob essas condições totalmente desreguladas que as drogas são produzidas e distribuídas até chegar nas mãos de jovens que um dia já foram a própria Rue. Não é por acaso que no mesmo capítulo uma mulher morreu de overdose, basta um deslize que o produto se torna mortal. Enquanto isso as pessoas que carregam a suástica na própria pele lucram com esse mercado.
Os protagonistas se encontram no meio dos conflitos e tensões sociais e políticas. O sol e o calor californiano, aliado com toda a composição das cenas evocam um classicismo hollywoodiano que, historicamente, se amparava muito na venda do sonho americano. O american dream então surge com tal força através das imagens, que são lindas, mas também falsas e artificiais. A mansão espaçosa e lustrosa de Cassie e Nate se tornará pequena quando os agiotas invadem e o carpete dourado será manchado de sangue. Essa força imagética, então, veio para ser quebrada pela realidade.
Se nas temporadas anteriores havia a ‘inocência’ e proteção da imaturidade, dos pais e da menoridade, agora eles se encontram vulneráveis e despreparados para o mundo. Nate e Maddy são duas figuras que representam bem essa transição da juventude para a vida adulta. Em A Balada de Paladin, o Nate que ameaçava fisicamente suas namoradas no colégio é um pateta incapaz de se defender do agiota. Maddy, por outro lado, sempre pensou ser mais esperta e confiava muito em si, quando a corda apertou se viu nas mãos de Álamo em Faça Chuva ou Faça Sol. Não há sonho, quando a escola acaba, o jovem está vulnerável, agora tudo pode acontecer.

Em Deus Confiamos encerra a série de forma sombria. Após passar por diversas provações, mudar sua vida e buscar a redenção, Rue morre por uma pílula estragada. Logo quando isso ocorre, Ali (Colman Domingo) abre o caderno e anota o nome de Rue abaixo de outros que já morreram vítimas do vício. Euphoria evita uma morte épica, prefere a triste realidade de jovens que morrem de overdose por drogas adulteradas. A protagonista já não era mais uma viciada, aquela pílula seria a última, mas dentre tantas que usou na vida, o ‘acaso’ escolheu acometê-la perto de fugir do seu inferno, um mero acidente. Se ela não conseguiu a reconexão com sua mãe e a paz em vida, encontra em seus sonhos na hora de sua morte.
O último plano da série é uma casa de uma família tradicional que vive isolada da sociedade, com a bandeira americana hasteada do lado de fora. É a casa na qual somos apresentados no primeiro capítulo pela Rue, que se encanta por aquela vida bucólica e ignorante. Euphoria compreende o crescimento do catolicismo a partir dessa civilização corrompida. Deus se torna uma fuga para o caos incessante da vida de muitos jovens, que estão em contato com a tecnologia desde cedo, se tornam ansiosas, ficam expostas ao mundo antes de se desenvolverem completamente, e quando encontram a sociedade, descobrem que ela é violenta e está em colapso. A igreja também traz o senso de comunidade e a estruturação que eles não encontraram em casa. É um final irônico, desesperançoso e acima de tudo, triste.
A construção final lembra um pouco O Franco Atirador (1978) de Michael Cimino. O longa se encerra com os personagens totalmente abatidos e melancólicos cantando God Bless America. Um final cínico sobre a presença do país na destruição da vida cotidiana. O clássico é um dos melhores filmes sobre os traumas da guerra do Vietnã, já Euphoria é uma das poucas séries a falar sobre os traumas cotidianos, as heranças malditas e a falta de perspectiva da juventude. Uma das poucas séries a realmente investigar os problemas estruturais ao invés de procurar vilões e vitimizar seus protagonistas, todos são humanos e extremamente contraditórios. Se os Estados Unidos é um país lixo, ser americano é uma tragédia.
