Liliane Mutti resgata história e questiona apagamento na Bossa Nova em A Noite de Alaíde

No filme dirigido por Liliane Mutti, a história de Alaíde Costa é retratada a partir da adaptação de sua biografia

Fotografia em preto e branco de Alaíde Costa sorrindo, em enquadramento fechado que destaca seu rosto, olhos delineados, sobrancelhas marcadas e brincos de argola. Sobre a imagem, pontos circulares de luz em tons de branco, vermelho, laranja e azul criam um efeito visual colorido.
Aos 90 anos, Alaíde Costa segue se apresentando em palcos no Brasil e no exterior (foto: Toca Filmes)

Talita Mutti

A história da Bossa Nova costuma ser associada a nomes como João Gilberto, Tom Jobim e tantos outros ligados à classe média carioca branca. Mas, entre os artistas que contribuíram para a construção do movimento, Alaíde Costa nem sempre recebeu o reconhecimento correspondente à sua importância. Cantora e compositora, ela atravessou diferentes momentos da música brasileira sem se limitar às expectativas de sua época. É essa história que a cineasta Liliane Mutti reconstrói em A Noite de Alaíde, por meio de animações e imagens de arquivo.

Para a roteirista, Alaíde é uma referência artística e humana, tanto pela contribuição à música brasileira quanto pela maneira como preservou suas escolhas ao longo dos anos. Sua voz destoava dos padrões associados às cantoras de rádio, o que, segundo a diretora, não foi compreendido pela indústria musical. Essa postura diante da própria arte ajuda a explicar por que sua história merece ser revisitada, sobretudo em um cenário que nem sempre reconheceu artistas que fugiam dos modelos estabelecidos.

“Ela tem uma lealdade, consciência e um respeito pela própria arte”, afirma. A cineasta destaca a capacidade de Alaíde de preservar sua identidade artística sem fazer concessões que contrariasse seus princípios. Para ela, a cantora também serve de referência para novas gerações. Em um cenário marcado pela precarização da arte e pelo consumo acelerado, o cuidado com o próprio trabalho ajuda a compreender sua permanência na música brasileira aos 90 anos.

A diretora destaca que a história de Alaíde precisava ser contada por revelar uma perspectiva pouco explorada sobre a Bossa Nova. A imagem consolidada do gênero não contempla toda a diversidade de músicos que contribuíram para sua formação. “Eu queria contar essa outra história da Bossa Nova, e ninguém melhor do que a Alaíde Costa e o Johnny Alf, que é o coprotagonista do filme”, explica. Johnny Alf já explorava a mistura entre o jazz norte-americano e o samba carioca antes da consolidação da Bossa Nova. Apesar de sua contribuição para a música brasileira, o racismo e a homofobia contribuíram para que o artista não recebesse o reconhecimento correspondente à sua importância.

“Essas forças aparentemente ocultas vão limando alguns artistas, porque é a música da moda, é a música do momento, ou porque tem um perfil que está sendo buscado. E Alaíde, não que ela não fosse, mas ela em vários momentos esteve na contramão como o Johnny, ele inclusive fala no filme, muitas vezes foi chamado de maldito.”

A produção de A Noite de Alaíde partiu da escassez de registros audiovisuais da infância e dos primeiros anos da cantora. Nascida em 1935, Alaíde não dispunha de um acervo capaz de sustentar um documentário baseado apenas em imagens de arquivo. Diante disso, Liliane encontrou na biografia da artista, escrita por Ricardo Santhiago, o ponto de partida para desenvolver o roteiro. A adaptação permitiu reconstruir episódios de sua vida por meio de uma linguagem que combina a narrativa biográfica com recursos visuais, incluindo animações e imagens de arquivo.

A animação surgiu como alternativa à falta de registros e ganhou espaço na construção visual e estética do filme. A montagem contou com a rotoscopia, técnica em que desenhos são feitos sobre imagens de atores reais. O recurso permitiu trabalhar com cores e elementos visuais que acompanham as emoções das cenas, aproximando a reconstrução dos acontecimentos da dimensão afetiva das lembranças de Alaíde. “Tem um apagamento, que ele é da esfera do simbólico e da esfera também do material, do concreto”, observa a diretora, ao explicar a falta de arquivos sobre mulheres negras e periféricas na história do cinema e da música brasileira.

Ilustração em tons de rosa, preto e cinza mostra uma jovem negra sentada de pernas cruzadas no chão, com os cabelos presos em um coque e usando uma blusa branca de mangas compridas e uma saia escura. De cabeça baixa, ela escreve em um caderno apoiado sobre as pernas. À esquerda, há um pequeno rádio sobre o chão. Ao fundo, grandes janelas retangulares ocupam a parede rosa. A menina e o rádio estão em tons de cinza e preto, enquanto todo o resto está em diferentes tons de rosa.
A Rotoscopia combina desenhos e imagens de atores reais e contribui para a reconstrução visual das lembranças de Alaíde em A Noite de Alaíde (Foto:divulgação/Toca Filmes)

Além das dificuldades profissionais, o longa destaca as relações pessoais que acompanharam Alaíde ao longo da vida. Johnny Alf, Milton Nascimento, Baden Powell, Vinicius de Moraes e outros artistas aparecem como figuras importantes em diferentes momentos. Essas amizades ajudam a compreender como os vínculos construídos ao longo dos anos contribuíram para que a cantora atravessasse períodos difíceis e permanecesse ligada à música.

Para a diretora, Johnny Alf ocupa um lugar especial nessa história. A relação entre os dois músicos atravessou décadas, e o pianista esteve presente até os últimos anos de vida. Mutti também destaca as afinidades musicais entre eles, já que ambos tinham o piano como instrumento e compartilhavam experiências artísticas. Outro episódio marcante foi o convite de Milton Nascimento para que Alaíde participasse de uma gravação, após um período em que ela enfrentou problemas de audição e se afastou dos estúdios. A colaboração resultou em uma interpretação de Me Deixe em Paz, que se tornou uma das passagens de destaque de sua carreira.

Segundo Liliane, as amizades retratadas no filme não aparecem para validar a importância da artista, mas para mostrar como as relações de apoio podem fazer diferença diante das dificuldades impostas pela indústria musical. “Como ela diz: não eram os colegas, era o sistema, o sistema das grandes gravadoras”, afirma. A diretora aponta que os critérios comerciais e os padrões estéticos de cada época contribuíram para limitar as oportunidades de artistas que não correspondiam ao perfil procurado pelo mercado. Nesse cenário, os vínculos entre músicos ajudaram a criar redes de apoio quando o reconhecimento profissional não vinha das instituições.

No caso de Alaíde, o racismo também atravessou sua carreira. Em seus relatos, a cantora diz ter enfrentado expectativas que restringiam as possibilidades de atuação de artistas negras na música brasileira, sobretudo quando suas escolhas estéticas não correspondiam às imagens que o mercado associava a elas. A diretora relaciona a timidez da artista ao receio de julgamento e às violências provocadas pelo racismo. Ao abordar essas questões, o filme mostra como as barreiras da indústria musical ultrapassam as oportunidades de trabalho e afetam a forma como artistas ocupam seus espaços.

A escolha de Alaíde como personagem também está relacionada ao interesse de Mutti em revisitar histórias de mulheres da música brasileira que permaneceram à margem das narrativas mais conhecidas. Antes da produção, a cineasta dirigiu um filme sobre Miúcha e, agora, trabalha em um projeto sobre Angela Ro Ro. As produções partem de histórias que despertam seu interesse pessoal e que, segundo ela, ainda não haviam recebido espaço suficiente no cinema. Em comum, as artistas permitem questionar as formas como a música brasileira foi registrada e reconhecida.

“Eu sou feminista, para mim isso é uma identidade muito clara na minha existência, mais até do que na minha carreira”, afirma Mutti. Para a diretora, essa perspectiva atravessa seus filmes sem restringir o público a quem já se interessa pelas discussões feministas. As personagens são escolhidas tanto pela força de suas histórias quanto pela possibilidade de apresentar experiências pouco exploradas. No caso de Alaíde, essa abordagem também permite discutir o racismo e as expectativas sobre o lugar de mulheres negras na música brasileira.

Liliane à esquerda, de pele clara e cabelos escuros curtos, está de pé atrás do carro e ri com a boca aberta. Ela veste uma jaqueta off-white sobre uma camisa verde estampada, calça verde folgada e uma alça de bolsa em preto e branco. Barbara Maria à direita, de pele negra e cabelo afro escuro com uma flor rosa presa, está apoiada no teto do carro com a mão direita e sorri abertamente. Ela usa um cropped laranja e uma saia roxa plissada. O carro está em uma área externa, ao lado de um prédio com janelas grandes e uma cerca preta ao fundo. A luz do dia brilha nas laterais do carro.
A Noite de Alaíde reconstrói diferentes fases da vida da cantora para recuperar episódios pouco conhecidos de sua história (Foto: Divulgação/Toca Filmes)

A diretora também destaca a troca entre Alaíde e músicos mais jovens, que mantêm contato com a cantora e demonstram interesse por seu trabalho. Durante a circulação do filme, Mutti acompanhou sessões em diferentes cidades e países e participou de apresentações marcantes. Em Paris, por exemplo, Alaíde cantou ao lado do pianista Philippe Baden Powell e afirmou no palco que havia esperado 70 anos para viver aquele momento, considerando o início de sua carreira profissional.

Ao recuperar a história de Alaíde Costa, A Noite de Alaíde questiona os limites das narrativas tradicionais sobre a música brasileira. A experiência da cantora evidencia as barreiras enfrentadas por artistas negras, mas também a capacidade de preservar uma identidade artística diante das expectativas do mercado. Ao reconstruir episódios de sua vida e destacar os vínculos que a acompanharam, o documentário abre espaço para que o público conheça uma parte da história da Bossa Nova que nem sempre recebeu a mesma atenção que seus nomes mais consagrados.

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