Aviso: Esse texto contém spoilers

Eduardo Dragoneti
Mesmo que os fãs queiram, A Casa do Dragão (2022) jamais será Fogo & Sangue (2018). A adaptação da Dança dos Dragões precisa transformar em quatro temporadas uma história que, no livro original, ocupa apenas seis seções. Ao mesmo tempo em que esta parte precisa preparar os acontecimentos que levarão ao desfecho da guerra, a série precisa preencher um número limitado de episódios.
O início da 3ª fase é, na verdade, o idealizado final da anterior. A segunda parte da história encerrou com apenas oito capítulos, em vez dos 10 planejados inicialmente, deixando parte da história comprimida e outra parte excessivamente esticada. A tomada de Porto Real por Rhaenyra Targaryen (Emma D’Arcy) e seus aliados, e a épica Batalha da Goela poderiam ser o desfecho perfeito para o ano dois da produção, entretanto acabaram por ser alguns dos poucos episódios empolgantes da nova temporada.
O embate pelo Trono de Ferro deveria colocar seus personagens em ação, porém, peças chave da trama – como Aegon Targaryen (Tom Glyn-Carney) – se enrolam nos próprios enredos e não levam a desfechos muito relevantes. Nem mesmo a apresentação de um novo dragão – o Roubaovelhas – e seu misterioso montador causam um grande impacto no alicerce do roteiro. A própria guerra, no episódio final, parece esperar por essas figuras, em vez de ser movimentada por elas.

O maior erro do segundo ano de A Casa do Dragão foi o morno e lento exílio de Daemon Targaryen (Matt Smith) em Harrenhal. Agora, o plot se repete com Aemond Targaryen (Ewan Mitchell), provando que o showrunner da produção, Ryan Condal, não ouviu nem as reclamações dos fãs, nem as de George R. R. Martin. Além do caolho, outros personagens como Criston Cole (Fabien Frankel) e Baela Targaryen (Bethany Antonia) não tem a existência de seus núcleos justificada, deixando evidente a dificuldade da série em fazê-los significar algo dentro da história maior.
Rhaenyra também sofre com esse ritmo. Prometida como “a Cruel”, a protagonista só é digna do título no último capítulo, quando percebe que reivindicar o Trono de Ferro demanda, além da legitimidade, poder e reconhecimento. A estratégia de mudar drasticamente o tom que o programa vinha construindo para a personagem soa desesperada, em uma tentativa de aproximá-la rapidamente da monarca dura dos livros – movimento que lembra a transformação repentina de Daenerys (Emilia Clarke) em Game of Thrones.
Depois de duas partes moldando uma figura mais vitimista e muitas vezes ingênua, distante da postura implacável da personagem de George, a série agora a torna em uma tirana capaz enfrentar a Fé dos Sete e matar seu líder, caso isso a impeça de se tornar a rainha legítima. Ainda assim, porém, depois de tanto tempo esperando pela Cruel, a mudança funciona. É justamente essa versão que o público queria ver desde a usurpação de seu trono.

A tapeçaria premonitória que Helaena Targaryen (Phia Saban) deixa pronta antes de se jogar da janela – à la Tommen Baratheon (Dean-Charles Chapman, Game of Thrones) – reforça a ideia. A cena que encerra a temporada traz o trágico, mas esperado, destino de Rhaenyra, que agora se vê em meio a traidores – como Ulf, o Branco (Tom Bennett) – e encerra as funções do Verme Branco, Mysaria (Sonoya Mizuno). Com o despacho da personagem que era os olhos e ouvidos do povo à rainha e a reação fria da protetora do reino ao crivo, é esperado que o público acompanhe uma soberana impulsiva e autoritária, com sangue nos olhos, durante o desfecho da história.
O design de produção (Jim Clay) também merece destaque. Com um orçamento muito maior por episódio do que O Cavaleiro dos Sete Reinos, A Casa do Dragão tem cenários grandiosos, dragões e vestimentas nobres em abundância. Porém, nessa 3ª parte as perucas, especialmente as usadas por atores negros, foram um dos aspectos da caracterização que mais decaíram. O assunto gerou críticas nas redes sociais e a HBO foi cobrada pelo público, que exigiu a incorporação de texturas e referências de penteados afro-diaspóricos na identidade das casas valirianas para a próxima parte da história.

Contudo, um dos acertos da produção foi Ormund Hightower (James Norton), primo de Alicent (Olivia Cooke) e responsável pela criação de Daeron Targaryen (Benjamin Evan Ainsworth) como protegido em Vila Velha. Intrigante e carismático, o personagem chega a lembrar o sarcasmo de Ramsay Bolton (Iwan Rheon, Game of Thrones), mas com uma peculiaridade: ele é muito sensível a cheiros. Sua estratégia de colocar o sobrinho no centro da disputa pelo trono desemboca na Primeira Batalha de Tumbleton, que é o melhor confronto da obra até agora. O nome do oitavo e último episódio, “As Traições em Tumbleton”, faz jus aos acontecimentos, com Ulf incinerando boa parte do exército dos Pretos enquanto Ormund perde o controle da batalha, e Gwayne Hightower (Freddie Fox) e Daeron finalmente se afastando de sua influência.
Já as atuações continuam no padrão HBO, impecáveis. Emma D’Arcy transita entre todas as mais diversas emoções durante os oito episódios, entregando cenas de temor, raiva, luto e poder com a mais alto nível de excelência. James Norton, por sua vez, novato do elenco (e que não deve voltar após a morte do seu personagem), entrega cenas hilárias e tensas em um intervalo curto de aparições. Sua atuação nos ataques de raiva e estratégias de guerra cravaram Ormund como um dos personagens mais carismáticos e memoráveis deste universo.
A expectativa para a 4ª temporada é maior do que era para esta. Rhaenyra parece finalmente ter entendido seu papel no jogo e Aegon está mais maduro, com Sunfyre ao seu lado. As alianças vão se quebrar, as consequências dos acontecimentos do último capítulo ainda estão por vir e teremos que esperar até 2028 para acompanhar o desenrolar final da Dança. A Casa do Dragão é imprevisível, e é justamente isso que faz o público não largar a mão da série.
