Os bastardos ainda resistem: cinco anos da distopia glam de The Bastards

Capa do álbum The Bastards, dentro de um carro antigo de aparência clássica e escura, com janelas semiabertas e interior mal iluminado, transmitindo uma atmosfera dramática e cinematográfica. À esquerda, o vocalista Remington Leith aparece com expressão melancólica, usando um casaco preto com detalhes brancos, camisa branca e gravata preta fina. Ele apoia o braço na janela com uma longa luva vermelha de couro, criando um contraste visual intenso. Seus olhos estão maquiados com delineado borrado que escorre como lágrimas negras, acentuando o estilo gótico dramático. No centro, Sebastian Danzig, o guitarrista, veste um casaco vermelho com detalhes em preto e branco e um chapéu de cartola preta com fita dourada. Seu olhar é fixo e enigmático, com maquiagem escura ao redor dos olhos, evocando uma estética teatral sombria, semelhante a personagens de um cabaré vitoriano ou filme expressionista. À direita, Emerson Barrett, o baterista, completa a cena com uma expressão pensativa e distante. Ele veste um terno vermelho com a camisa aberta, exibindo tatuagens no peito, e um lenço estampado no pescoço. Seu visual mistura o glam rock com elementos andróginos e rebeldes, criando uma imagem que remete à cultura punk dos anos 70 com um toque moderno. As janelas do carro estão embaçadas e há marcas de dedos na lataria, sugerindo um clima de tensão ou fuga. Toda a composição da imagem transmite uma aura de rebeldia, teatralidade e melancolia, característica do universo visual de The Bastards.
The Bastards é o segundo disco da banda, sucessor de Boom Boom Room (Foto: Sumerian Records)

Marcela Jardim

Lançado em maio de 2020, The Bastards é, até hoje, o trabalho mais ambicioso e conceitual do Palaye Royale. Com forte carga emocional, visual e política, o álbum surgiu como um grito em meio ao silêncio imposto pela pandemia, oferecendo uma jornada sonora que transita entre o niilismo adolescente e a necessidade de insurgência. Cinco anos depois, a obra permanece viva – tanto por sua estética barroca e intensa quanto pela coragem de tocar em feridas abertas, da saúde mental à crise social. É um disco de extremos: ora poético e vulnerável, ora explosivo e provocador, mas sempre com uma sinceridade que transcende o artifício.

Continue lendo “Os bastardos ainda resistem: cinco anos da distopia glam de The Bastards”

Em Bite Me, Reneé Rapp está sem filtros e se diverte sendo indecisa

 

A capa do álbum Bite Me de Renee Rapp. A imagem é um close-up da cantora com seus longos cabelos loiros desarrumados, que cobrem parcialmente seu rosto. Ela tem uma expressão intensa e olha diretamente para a câmera com a boca levemente aberta.
Reneé Rapp prova que pode se divertir no pop sem abrir mão da atitude e da autenticidade (Foto: Interscope Records)

Arthur Caires

Se existe uma certeza quando o assunto é Reneé Rapp, é que ela nunca vai tentar ser a estrela do pop comportadinha. Basta assistir a qualquer entrevista para perceber: entre piadas ácidas e uma postura de diva, ela passa a impressão de que não liga para protocolos de media training, e é justamente aí que mora o seu charme. Depois de um início de carreira no teatro musical (Meninas Malvadas, na Broadway) e uma passagem de sucesso pela TV em The Sex Lives of College Girls (2021), Reneé mergulha de vez no pop em seu segundo álbum, Bite Me. O disco chega como quem não promete respostas definitivas, mas sim um retrato honesto de uma artista que ainda está se entendendo – e que parece se divertir no processo.

Continue lendo “Em Bite Me, Reneé Rapp está sem filtros e se diverte sendo indecisa”

Lobofest 2025: a calmaria do interior que respira música

Uma cena de festival ao ar livre durante o pôr do sol. No primeiro plano, o foco está em um grupo de pessoas sentadas na grama, vistas de costas, observando o palco. Ao fundo, um palco de show está montado com um grande painel de LED exibindo o nome do evento, "Lobofest", em estilo grafite e logotipos de patrocinadores ("Facens"). Há uma multidão de pessoas reunidas em frente ao palco, e o céu ao fundo tem uma luz alaranjada de fim de tarde.
O Lobofest transformou Sorocaba em palco da música independente (Foto: Arthur Caires)

Arthur Caires

Chegar ao Lobofest é como entrar em um universo paralelo onde tudo respira Arte. O caminho da Arena Lucky Friends já entrega o que vem pela frente: brechós espalhados com peças singulares, vitrines de artesanato assinadas por mãos locais e uma decoração que traduz com nitidez o espírito de quem é, e se sente, do interior. Não é só um festival de música, é uma mostra da cena cultural sorocabana, um espaço onde cada detalhe carrega a identidade de quem constrói e vive a cidade.

Continue lendo “Lobofest 2025: a calmaria do interior que respira música”

O rock alternativo de 2013 mandou mensagem, e Sombr respondeu com I Barely Know Her

Capa do álbum I Barely Know Her do artista Sombr. A imagem mostra um jovem com cabelo escuro e encaracolado, vestindo uma camiseta vintage branca com detalhes vermelhos e o número 77 em vermelho, que parece ter manchas de sangue. Ele está com uma expressão séria e aponta os dedos indicadores para a cabeça, usando vários anéis nas mãos. O fundo é liso e claro.
Sombr prova que a vulnerabilidade pode ser divertida e poética ao mesmo tempo (Foto: Bryce Glenn)

Arthur Caires

Em 2025, depois de um ano dominado por artistas femininas como Charli XCX, Sabrina Carpenter e Chappell Roan, o cenário pop abriu espaço para nomes masculinos como ROLE MODEL e Conan Gray se destacarem – e é aí que Sombr aparece. Com seu álbum de estreia I Barely Know Her, Shane Boose consegue ocupar um nicho que vinha faltando: aquele rock com flertes do indie de 2013, que lembra Arctic Monkeys e The Neighbourhood, mas sem perder a sensibilidade do bedroom pop que ele vem lapidando há anos. O disco chega com uma mistura deliciosa de término de relacionamento e descoberta artística.

Continue lendo “O rock alternativo de 2013 mandou mensagem, e Sombr respondeu com I Barely Know Her”

Wishbone confessa muito mais que sentimentos e relata experiências que Conan Gray antes deixou em branco

Capa do álbum Wishbone, do artista Conan Gray. Pessoa vestida com uniforme de marinheiro branco com detalhes azuis, chapéu com fita vermelha e sapatos pretos aparece saltando contra um fundo de céu nublado. A fita do chapéu se movimenta no ar, reforçando a sensação de dinamismo.
No quarto álbum de estúdio, Conan Gray apresenta um de seus trabalhos mais introspectivos, honestos e pessoais até hoje (Foto: Republic Records)

Gabriel Diaz

Found Heaven, de 2024, representou uma incursão audaciosa de Conan Gray pelos sintetizadores brilhantes e pela nostalgia new wave. Em contraponto direto do seu último trabalho, Wishbone assume o regresso deliberado e consciente às suas raízes confessionais. Mais do que um mero exercício de estilo, o novo disco é uma escavação emocional profunda na qual Conan troca as luzes de discoteca pela exposição crua. Se o predecessor soava como uma fuga para os anos 80, o quarto álbum de estúdio emerge como um diário íntimo, escrito na solidão dos quartos de hotel durante digressões – a ‘trilha sonora absurdamente nichada’ da sua própria vida, nas palavras do artista.

Continue lendo “Wishbone confessa muito mais que sentimentos e relata experiências que Conan Gray antes deixou em branco”

40 anos de Mr. Bad Guy: uma declaração entusiasmada de um Freddie Mercury totalmente reinventado

Capa de um álbum musical do artista Freddie Mercury, onde aparece de óculos escuros reflexivos e bigode, olhando por cima do ombro com expressão confiante. Ele está ao ar livre sob luz do sol, com fundo esverdeado desfocado. No topo, o nome do cantor é destacado em azul e o nome “Mr. Bad Guy (Special Edition)” é posto abaixo.
O álbum Mr. Bad Guy foi o primeiro álbum musical da carreira solo de Freddie Mercury durante um intervalo da banda Queen (Foto: Musicland Studios)

Gabriel Diaz

Após quatro décadas de seu lançamento, Mr. Bad Guy permanece como um testamento da reinvenção audaciosa de Freddie Mercury, revelando-se como um diamante irregular que expõe o homem por trás do mito. Longe do peso das expectativas do Queen, o início de sua carreira solo foi seu manifesto de liberdade pessoal e artística, onde finalmente pôde explorar sem limites o pop eletrônico, a disco music e baladas de arena – territórios que seus colegas Brian May e Roger Taylor viam com desconfiança. Gravado entre 1983 e 1985, durante um intervalo da banda, o disco é um mergulho sem redes na alma de um artista exausto de ser apenas ‘o vocalista do Queen’.

Continue lendo “40 anos de Mr. Bad Guy: uma declaração entusiasmada de um Freddie Mercury totalmente reinventado”

As Cores, as Curvas e as Dores do Mundo: um mergulho íntimo na nova obra da Lagum

A capa do álbum é uma fotografia aérea de um prédio com design moderno e curvas suaves, vista de cima. Quatro homens estão sobre a borda do edifício, em poses descontraídas: um está deitado com o peito nu, outro está sentado no chão com as pernas esticadas, e dois caminham pelo espaço. Abaixo, é possível ver a rua com carros brancos e árvores margeando a calçada. A cena sugere um ensaio fotográfico ousado, com forte contraste entre o ambiente urbano e a sensação de liberdade dos modelos.
A banda se formou em 2014, em Belo Horizonte, quando o vocalista Pedro Calais postou um vídeo com uma composição no Facebook (Foto: A Ilha Records)

Marcela Jardim

Com As Cores, as Curvas e as Dores do Mundo, a banda mineira Lagum entrega sua obra mais madura até aqui — um disco breve em duração, mas profundo em afetos, estética e intenção. Lançado em maio de 2025, o álbum representa um respiro dentro da cena pop nacional: sem pressa, sem espetáculo e sem a ansiedade de um hit. Em vez disso, o grupo opta por criar um espaço de contemplação e escuta, no qual cada música funciona como uma pincelada em um quadro maior. 

Continue lendo “As Cores, as Curvas e as Dores do Mundo: um mergulho íntimo na nova obra da Lagum”

Há 5 anos, Taylor Swift transformava isolamento em enredo e silêncio em poesia com folklore

Capa do álbum folklore. Fotografia em preto e branco de uma floresta alta e densa envolta por neblina, com árvores longilíneas e um ambiente silencioso e etéreo. No centro inferior da imagem, Taylor Swift aparece sozinha, de pé entre as árvores, vestindo um longo sobretudo xadrez de estilo vintage. Sob o casaco, vislumbra-se um vestido fluido. Seu cabelo está solto, levemente ondulado e natural, caindo sobre os ombros. Ela mantém uma postura estática e contemplativa, com os braços relaxados ao lado do corpo. Sua figura humana se funde ao cenário melancólico, evocando introspecção e solidão bucólica.
folklore é o 8° álbum de estúdio da cantora (Foto: Universal Republic Records)

Marcela Jardim

Cinco anos atrás, em julho de 2020, Taylor Swift surpreendia o mundo ao lançar folklore, um disco inesperado em todos os sentidos. Lançado sem anúncio prévio, no auge do isolamento pandêmico, o álbum marcava uma guinada radical em sua estética musical e narrativa. Longe da grandiosidade colorida de Lover (2019) ou da pulsação icônica de Reputation (2017), folklore é cinza, úmido e contido. Um mergulho no íntimo. Em meio ao silêncio coletivo que marcava aquele momento da história, Swift parecia responder com um disco que não gritava, mas sussurrava. Que não seduzia com batidas, mas encantava com palavras, texturas e histórias fragmentadas. A obra é, antes de tudo, um disco de escuta – não para tocar no carro em movimento, e sim para ouvir como quem lê um diário escondido entre folhas velhas.

Continue lendo “Há 5 anos, Taylor Swift transformava isolamento em enredo e silêncio em poesia com folklore”

Em I quit, HAIM questiona se os relacionamentos ainda fazem sentido na modernidade líquida

 

Fotografia em formato quadrado. No centro, Danielle Haim aparece com um vestido azul de paetês, segurando uma placa eletrônica vermelha com a frase “I quit” em letras minúsculas. Ela está atrás de um vidro, com reflexos de luz e objetos ao redor. Ao fundo, as irmãs Alana e Este observam a cena em segundo plano. O ambiente é uma loja com paredes envidraçadas, diplomas e prêmios expostos em prateleiras.
Em I quit, HAIM troca a superação melodramática por uma rendição consciente (Foto: Polydor Records)

Arthur Caires

Desistir já foi sinônimo de fraqueza. Era o verbo da derrota, da frustração, daquilo que não deu certo. Mas, aos poucos, entendemos que tem coisas que simplesmente não merecem o nosso esforço. Tem causa que é melhor abandonar do que insistir. E tem relações, fases e até versões de nós mesmos que precisam ficar para trás. É nesse espírito que HAIM lança I quit, uma coleção de músicas que se recusa a dramatizar e escolhe simplesmente seguir em frente.

Continue lendo “Em I quit, HAIM questiona se os relacionamentos ainda fazem sentido na modernidade líquida”

Há 5 anos, Charli XCX mostrava seus sentimentos mais profundos em how i’m feeling now

 

Foto da capa do álbum how i’m feeling now da Charli XCX. Ela está deitada em uma cama com lençóis brancos, usando roupas íntimas brancas, segurando e olhando para uma câmera de filmagem. No canto esquerdo está escrito o nome do álbum verticalmente.
Em 2024, Charli XCX ganhou seu primeiro Grammy com seu último álbum Brat (Foto: Warner Music UK Limited)

Isabela Nascimento 

Em maio de 2020, no meio da pandemia do coronavírus, a cantora britânica resolveu criar um álbum e documentar o processo criativo inteiro, enquanto relatava sobre a experiência de estar isolada da sociedade. “Como eu estou me sentindo agora“, tradução do título em português, contém 11 faixas que navegam em seus sentimentos mais íntimos. O reacender de uma paixão, a insegurança consigo mesma e com a sua carreira e as aflições de estar sozinha. Esse seria o primeiro disco que a artista abordaria de maneira profunda suas emoções, dando início a uma nova era de produções mais pessoais e cruas da Charli XCX.

Continue lendo “Há 5 anos, Charli XCX mostrava seus sentimentos mais profundos em how i’m feeling now”