A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas é autêntico e memorável

Banner de divulgação do filme A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas. A cena é uma animação, com a família dentro de um carro laranja, voando, e o logo do filme aparecendo ao lado. A Família está em fonte branca, Mitchell em laranja, E a Revolta das em branca, e Máquinas azul. Ao fundo, vemos uma cidade, o céu cristalino e vários objetos flutuando a órbita do veículo.
Linda, Aaron, Katie e Rick, da esquerda para a direita, e Munchi, o cão, na frente (Foto: Netflix)

Nuno Amorim

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (2021) é o mais novo resultado de um acordo realizado entre as empresas Netflix e Sony: nele, foi decidido que os filmes da Sony e suas subsidiárias (isso inclui a Sony Pictures, produtora do filme), seriam lançados não só no cinema, mas também no serviço de streaming. Esse em específico estava planejado para ser distribuído apenas no cinema, mas uma pandemia entrou no caminho, e a Netflix ganhou no catálogo uma animação cheia de identidade, um drama bem construído e uma comédia de primeira. O mote ‘para todos os públicos’ se faz valer aqui: da criança pequena ao adulto calejado, qualquer um se diverte assistindo a essa obra prima.

Começando pelo aspecto mais óbvio, a animação se destaca com elementos tanto do 3D quanto do 2D, num estilo que lembra muito Homem-Aranha no Aranhaverso (2018), outro filme da produtora. Aqui, diferente de Homem-Aranha, o 3D aparece com um pouco mais de definição, e o 2D (a melhor parte) aparece em formato de desenhos como se feitos em papel, com canetas, lápis, grifa-textos e outros improvisos de papelaria. Esse formato tem também um propósito narrativo, porque esses desenhos são criados pela protagonista da história, Katie.

Falando em Katie, outro aspecto brilhante de A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas são seus personagens e seus conflitos. Katie (Abbi Jacobson) é uma garota extrovertida, criativa e apaixonada por Cinema, que busca aprovação do pai, Rick (Danny McBride), um entusiasta da natureza que pouco se interessa por tecnologia e não se conecta com a filha. Os personagens de apoio, Linda (a mãe, interpretada por Maya Rudolph), e Aaron (o irmão mais novo da família, interpretado por Michael Rianda, o próprio diretor) servem de mediadores do conflito, mas não deixam de ter, cada um, suas diferenças: Linda é determinada e sensível, e Aaron, excêntrico, divertido e com hiperfixação em dinossauros (pois é).

Cena do filme A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas. Nela, vemos uma porção de robôs brancos ajoelhados em pose de guerra em uma rua movimentada, cheia de banners e telões luminosos em prédios, de noite.
Os robôs do filme (Foto: Netflix)

Outro aspecto diferente do drama para uma animação é o esforço do filme em fazer um paralelo entre Katie e Rick, expondo ambos os lados de um conflito não só de interesses, mas também geracional. Os dois têm dificuldades de enxergar o mundo um do outro, e a história aos poucos faz essa conexão, partindo vezes de um interesse de lá, vezes de uma reivindicação de cá, para no terceiro ato fazer com que cada um tenha que usar o que aprendeu com o outro para vencer a grande ameaça do filme: A Revolta das Máquinas.

Essa tal ameaça já é batida no Cinema e na Literatura, e o filme sabe bem disso. Desde os tempos de Asimov, com o livro Eu, Robô (1950), até o “mais recente” Exterminador do Futuro (1985), a história é sempre a mesma: uma inteligência artificial toma conta das máquinas com o objetivo de dominar o mundo. Essa inteligência artificial, outrora Vicky ou Skynet, aqui se torna uma representação de grandes empresas como Apple, Facebook, Amazon e Google, até com um design similar e sugestivo se comparada às duas últimas. Pal (Olivia Colman) é uma assistente virtual que, após a constatação de que se tornará obsoleta, toma o controle dos robôs que a substituiriam e inicia a cruzada para a dominação mundial (uau, eu sei – que medo).

Como dito anteriormente, o filme sabe bem com o que lida porque, apesar do uso de (muitos) clichês, eles se justificam na medida em que não só servem de plano de fundo para a comédia, mas também são referências diretas a outras obras do Cinema, e tudo isso ainda se conecta com a paixão da protagonista pelo universo cinematográfico. Além de Eu, Robô e Exterminador do Futuro, estão presentes outras mais sutis (Jogos Vorazes, Star Wars, Vingadores: Guerra Infinita, entre outras). Elas soam como um tempero nas sequências de ação, também recheadas de comédia, além de uma baita identidade visual.

Cena do filme A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas. Nela, vemos um Furby gigante, escuro e com bico amarelo-alaranjado. Na parte de baixo da imagem tem uma legenda em caixa alta e fonte branca que diz: A DOR SÓ ME FAZ MAIS FORTE!!!
Furbies! (Foto: Netflix)

A comédia é outra coisa que faz do filme especial, e é feita de forma bastante respeitosa. Digo isso porque ela não foi feita por pessoas que são como o Rick e não entendem de tecnologia ou cultura das redes sociais, mas que são como a Katie, inseridas e bem versadas neste mundo. Nunca tinha visto uma comédia voltada para a minha geração antes, e foi uma surpresa muito boa. Quer dizer, tem Furbies nesse filme. Furbies! Eu via os bichinhos em lojas de brinquedo e eles têm um papel maravilhoso nesse filme.

No fim, A Família Mitchell e A Revolta das Máquinas é um bom filme para ver em família. Deixa mensagens positivas que engrandecem a compreensão sobre o universo do outro sem deixar de lado a autenticidade e peculiaridades que nos definem. E faz isso com personagens carismáticos, conflitos facilmente relacionáveis, referências para todos os lados e uma animação de encher os olhos.

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