you seem pretty sad for a girl so in love: quando só falta o pastor falar o seu nome no culto

 

Capa do álbum you seem pretty sad for a girl so in love, da cantora Olivia Rodrigo, uma mulher com ascendência amarela. Na foto, a jovem de cabeça para baixo em um balanço. Ela usa um vestido rosa com mangas e golas brancas. Ela veste uma meia branca e um sapato de salto alto preto. No fundo da capa, há o céu azul da paisagem e no lado direito superior o selo da gravadora “Parental Advisory Explicit Content”.
you seem pretty sad for a girl so in love, terceiro álbum de Olivia Rodrigo, aborda todos os sentimentos do namoro da cantora com o ator Louis Partridge (Foto: Geffen Records)

Guilherme Machado Leal

O primeiro encontro é o início das borboletas no estômago: o indivíduo se arruma, treina os assuntos que vai falar para tentar impressionar um outro alguém e tenta se convencer de que tudo será perfeito. Às vezes, não é aquilo que esperamos. Mas certas ocasiões podem despertar a faísca necessária para o começo de algo muito lindo, como é o caso de drop dead, faixa de abertura do you seem pretty sad for a girl so in love, terceiro álbum de estúdio de Olivia Rodrigo. Na canção, a artista narra o contato de seu mundo com o do amado, Louis Patridge (ator britânico que namorou com ela por cerca de dois anos e é a inspiração para a nova coletânea).

Há uma certa piada de que a jovem de 23 anos não faz músicas que retratam o amor romântico de uma maneira dócil, sem muitos conflitos. drivers license, good 4 u e vampire, três produções que alcançaram o primeiro lugar do Billboard Hot 100, mostram o descontentamento da performer em relação aos ex-namorados. Porém, o single de estreia do sucessor do Guts (2023) evidencia um outro lado da norte-americana: aquele que pode (e quer) ser feliz. 

No segundo verso, ela diz “e eu sinto que vou vomitar” no que descreve como um “soco direito no estômago” ao se deparar com a beleza do rapaz. Quando chega na ponte, construída a partir da repetição de seu signo e do intérprete – respectivamente peixes e gêmeos – quem escuta só gostaria de ver uma história com um final feliz. No entanto, assim como qualquer dinâmica social, um relacionamento amoroso não garante a felicidade, e é sobre isso que o disco aborda.

Dividido entre duas partes, “girl so in love” e “you seem pretty sad“, o retorno de Olivia marca uma evolução na lírica e no contato que a popstar teve com a Inglaterra. Desde as comidas britânicas que provou às bandas do país – The Cure, fonte de inspiração à sonoridade da jovem –, o pop rock dos anos 2000 se distancia um pouco da narrativa para dar lugar às influências oitentistas da new wave – gênero do final dos anos 1970 e início dos anos 1980 que trazia uma versão mais macia e irônica do punk rock a partir da mistura entre características do rock, do pop e da disco music com a presença de sintetizadores. 

Apresentando um novo som se comparado ao que foi abordado nos dois primeiros trabalhos, aqui as diversas emoções que amor pode trazer é o pontapé para entender os próprios sentimentos. Após stupid song, por exemplo, a sensação que fica é a de correr em direção àquela pessoa e despejar tudo o que sente em relação a ela, sem arrependimentos. Na composição, ela avalia a faca de dois gumes que é o amor: sim, ele te deixa desconcertado e insano, mas também dá sentido a você. E o que é amar se não se envolver por inteiro? 

“Meus amigos estão fumando baseados no banheiro

Eles dizem que o amor sincero é uma gaiola que te faz sentir livre” – Stupid Song

A primeira metade contém faixas como honeybee e maggots for brains. Na primeira, o piano de Noah Conrad, acompanhado dos vocais de apoio de Conan Gray, Dan Nigro e Lily Elise, preparou o terreno para uma das canções mais bem cantadas por Olivia. Em entrevista à rádio triple j, ela disse que pensou em um filme da Disney para o aspecto sonoro da faixa. No entanto, além da referência descrita pela cantora, é possível também se remeter aos refrãos ecoados do grupo ABBA. Pense em uma versão acústica de The Winner Takes It All e Chiquitita. A construção melódica de honeybee remete às performances melancólicas caracterizadas pela angelicalidade dos vocais dos artistas suecos em suas canções.

Já a segunda – o que é, provavelmente, um bom caminho a ser explorado em futuros álbuns – bebe de uma fonte imprescindível do terceiro capítulo: a banda encabeçada por Robert Smith, vocalista do grupo inglês e a colaboração de estreia da carreira da jovem. Além disso, ao final, a melodia se assemelha a um sucesso atemporal: quando Olivia canta repetidamente na ponte “o  que mais fazer além de pensar em você?”, a melodia manda um abraço a um hit marcante dos anos 80: Take On Me, da banda norueguesa a-ha. É sobre ampliar o repertório musical e trazer aqueles que desejam ouvir uma roupagem pop dos clássicos de outros gêneros, algo que a jovem parece ter aprendido e evoluído no que diz respeito à linha tênue entre plágio e homenagem.

Foto da cantora Olivia Rodrigo, uma mulher com ascendência amarela. Ela está em um campo com grama amarelada e esverdeada. A cantora veste uma blusa cinza com uma gola marrom ao redor do colo. Ela está com o rosto sério, olhando para frente.
Olivia Rodrigo estreou quatro músicas do terceiro álbum no top 10 do hot 100 da Billboard, maior parada musical dos Estados Unidos (Foto: Ryan McGinley)

Embora seja apelidada como “garota muito apaixonada” em tradução livre, o lado A do disco dá indícios da idealização da intérprete. Na outro de u + me = <3, a cantora pop admite que tem mania de se sentir sobrecarregada com as próprias emoções. Em certo momento, ela até deseja que algo de ruim aconteça para que o ente querido não a solte nunca mais. purple, sétima produção da tracklist, evidencia a mistura de dois fatores (ela e o ex-namorado) em um resultado misto, que é abordado na perspectiva you seem pretty sad do álbum. 

Ao utilizar a intersecção das cores azul e vermelho, Olivia já não vê Louis com os olhos idealizados. A partir desta música e da repetição da frase “me derreto em você” no fim da faixa, a artista cai na real e compreende que a tristeza interna que possui é ampliada pela indiferença percebida nos atos daquele homem. Além de Dan Nigro, alma gêmea musical da popstar, a produção tem o dedo de Jim-E Stack, produtor e namorado de Lorde, uma das principais referências da voz de deja vu. Agora não tem mais volta: ela tenta a qualquer custo salvar uma relação falida e desgastada. E como uma pessoa de 23 anos, as inseguranças aparecem devido aos sinais iniciais de fracasso.

Em the cure, música com m maiúsculo, a compositora agracia os fãs – e até aqueles que acompanharam de longe a sua trajetória – com o melhor conjunto da obra do you seem pretty sad for a girl so in love. Aqui, há tudo que caracteriza a Arte dela: primeiro e segundo versos cantados de maneira sussurrada, como se os sentimentos de Olivia estivessem saindo de suas entranhas, um refrão que a coloca como o problema da história e a clássica (e não menos importante) crescida na ponte. Ela é o problema e, por mais que entenda que esse namoro não irá salvá-la, a performer admite: ele nunca será a cura. O que poderia ser um atestado do fundo do poço se torna um aspecto da visão despida que ela tem daquilo que um dia foi o seu almejo. A guitarra, a bateria, o violino e o piano acompanham a maturidade caótica compreendida ao longo dos 5 minutos de duração.

what’s wrong with me com Robert Smith possui uma Olivia com a voz mais calejada, como se estivesse contando aos prantos para uma amiga ou um terapeuta o nível de insanidade mental pelo qual tem passado. O tema lírico posto ao lado da performance da lenda britânica garante uma mistura entre o novo e o antigo – ambos relevantes e com conversas atemporais para suas respectivas gerações. Do ponto de vista platônico, os maneirismos e conhecimentos que pegou do vocalista talvez tenham sido mais duradouros e importantes à constituição da produção musical da artista a incerteza que passou durante o namoro. Ela perdeu o amor de sua vida até então, mas ganhou o que muitos artistas contemporâneos almejam: o reconhecimento de quem veio antes e pavimentou o que conhecemos. 

A naturalidade com que a compositora cria o seu trabalho é um respiro em meio a pressão que as gravadoras colocam sobre um artista que emplacou sucessos em paradas musicais. expectations, por exemplo, surgiu por meio de um desafio: Dan Nigro instigou a cantora a fazer uma canção de ‘mantra’, com uma sonoridade fora de sua zona de conforto. O resultado permitiu aos ouvintes uma faceta diferente de Olivia: o entendimento de que ela é fruto de seu tempo e observadora do que está ao redor para contribuir com a sua produção musical. 

As fotos do Ano Novo de 2026, por exemplo, ganharam uma ‘playlist’: em janeiro, quando ela publicou o momento ao lado das amigas, fizeram comentários sobre sua vida social, visto que a cantora havia terminado em dezembro de 2025. “Então eu comecei o ano novo como uma solteira em um bar em Vegas”, entrega ela o contexto em que se passa a canção. Depois da montanha-russa com Louis, a cantora afirma no pré-refrão: “Eu estou tão evoluída. Agora eu peço mais, e mais, e mais, e mais”. Segundo a própria, agora o nível aumentou, uma vez que suas expectativas são maiores. Tudo isso, embalado pela produção synth-pop oitentista marcada com distorções de voz de Dan Nigro, traz frescor ao catálogo de Olivia. 

Foto da cantora Olivia Rodrigo, uma mulher com ascendência amarela. Ela está em um campo com grama amarelada e esverdeada. A cantora veste uma blusa cinza com uma gola marrom ao redor do colo. Ela está com o rosto sério, olhando para frente.
Olivia Rodrigo estreou quatro músicas do terceiro álbum no top 10 do hot 100 da Billboard, maior parada musical dos Estados Unidos (Foto: Ryan McGinley)

O encerramento do you seem pretty sad for a girl in love avalia o namoro de uma ótica mais madura, reflexiva e ponderada. cigarette smoke, a melhor última música de um álbum da popstar, mostra que aquelas memórias genuínas e recheadas de amor de drop dead se desintegraram. A roupa se tornou singular, o número de escovas de dentes dobrou e um já não faz mais parte do mundo do outro. Como o fim abrupto de toda relação, há a inquietude de se perguntar: “por que eu entrei nisso?” ou de discordar de si mesmo “eu deveria ter dito não!”. No entanto, leva tempo para entender o jeito que a vida trabalha, e Olivia parece compreender isso. No fim, ela suplica: “devolva meu tempo e eu devolverei o seu coração”, para que as lembranças não tenham mais poder sobre sua alma. Você perdoa, supera (porque é preciso), mas não, você nunca esquece.

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