
Lara Fagundes
Izuku Midoriya quer se tornar o maior herói de todos, mas o que é ser ‘super’ em um mundo em que quase todos possuem superpoderes? A história de Kohei Horikoshi teve seu desfecho no mangá em 2024, e sua adaptação animada foi finalizada em dezembro de 2025. A narrativa se consolidou como referência ao explorar conceitos clássicos sob uma nova perspectiva, tornando-se um dos maiores marcos dos animes de ação. Comemorar os dez anos de My Hero Academia é, acima de tudo, reconhecer seu simbolismo na modernização do estilo shounen, somado à sua notável construção de universo e desenvolvimento de personagens.
A premissa inicial é simples: um protagonista, nascido sem poderes, vai para uma Academia de Heróis (UA, sigla em inglês da instituição) em busca de seu sonho, inspirado pelo herói número um do Japão, All Might. Ao acompanharmos sua jornada para se tornar alguém digno do título que admira, somos apresentados não apenas a um cenário onde a maioria da população possui ‘individualidades’ (os poderes desse universo), mas também a todo um sistema social, político e econômico que gira em torno delas. Uma ambientação verossímil e funcional, que enriquece a narrativa e envolve com coerência – o principal diferencial da série.
Diferente de animes shounen tradicionais, como Naruto ou Dragon Ball, que costumam mostrar figuras inabaláveis, My Hero Academia não retira a humanidade, na verdade, se ancora nela. Temos uma sociedade que transforma o heroísmo em profissão, criando regulamentações, competitividade, relações de poder e envolvimento midiático. Assim, a trajetória de Midoriya precisa lidar com limitações físicas e emocionais, e com um sistema que, inicialmente, não foi criado para ele. A partir disso, é desenvolvido o questionamento: o que faz de alguém um herói?

Dentro dessa questão, Horikoshi explora diferentes motivações e formatos para seguir esse caminho. Partindo da desigualdade com pessoas nascidas sem individualidade, há também uma abordagem sobre aqueles que escolhem ajudar por outros meios. Alguns dos exemplos são: Recovery Girl, que se torna médica com seu poder de cura, Mei Hatsume, que cria equipamentos, e os professores da UA dedicados na criação da nova geração. Além dos que veem apenas de modo profissional e bem remunerado, como Ochako Uraraka, que busca trazer auxílio financeiro para a família – algo simples, mas que dialoga diretamente com a normalização dos superpoderes.
Porém, são as trajetórias marcadas por conflitos internos e relações interpessoais que se destacam, com cada personagem contribuindo para o enredo à sua maneira. A dualidade na relação de Midoriya e Katsuki Bakugou é um caso que ilustra inspirações semelhantes, mas motivações opostas. Enquanto o primeiro representa o ideal altruísta, o outro surge movido pela competitividade e o poder, passando por um arco que desconstrói o orgulho aos poucos e traz reflexões sobre ego e medo de fracasso. A evolução dele contribui para os acontecimentos e o crescimento em equipe, sem perder a origem do personagem, que mantém sua ambição até o fim.

Para uma oposição ainda maior, temos Shoto Todoroki, que é forçado a participar da Academia pelo pai, Endeavor, veterano do ramo. A família possui uma das tramas mais densas, aprofundando a discussão sobre o que é salvar o mundo pelo ‘motivo certo’ e a possibilidade de escolher o vilanismo ou simplesmente não gostar de heróis. Por conta da relação parental conturbada, Shoto e os irmãos possuem uma certa rejeição à própria identidade, e seu genitor quebra a idealização ao retratar alguém falho e moralmente questionável. A tensão construída adiciona uma camada complexa dentro da carreira heroica, que pode ser marcada por contradições.
Essa união de perspectivas apresenta uma novidade no gênero e se consolida ao longo da trajetória da animação ao explorar os supervilões, o que torna os conflitos ainda mais impactantes. Os protagonistas encaram antagonistas complexos, com motivos que se tornam denúncias ao contexto do anime. Ao mesmo tempo, a representatividade feminina também cria debates sociais durante partes do enredo. Embora não escape da sexualização comum ao shounen – que é voltado ao público masculino – existe um esforço perceptível na obra em tornar as mulheres relevantes, colocando-as em posições de destaque: Mirko, entre os cinco melhores heróis do Japão, e Nejire, entre os três alunos mais fortes da UA.

Quem se destaca é Uraraka, que aparenta ser apenas um interesse romântico no início, mas depois se torna progressivamente relevante. Ela se torna um papel essencial na batalha final, sem se apoiar no protagonista para conquistar sua narrativa independente. Apesar das meninas não serem tão exploradas quanto os meninos, as mesmas não seguem arquétipos comuns de donzelas em perigo: lutam suas batalhas, são reconhecidas conforme evoluem e, diferente de grande parte dos shounen, podemos vê-las estabelecendo relações entre si e enfrentando figuras masculinas em competições. Assim, ainda que não seja revolucionário, demonstra um certo avanço na forma como representa personagens femininas.
Ao final, My Hero Academia abandona a fórmula do herói central que supera desafios sozinho e mostra que o verdadeiro diferencial está na compreensão do poder. O anime celebra indivíduos que conduzem as próprias histórias e as amizades que contribuem para isso, indo além de apenas grandes duelos. Horikoshi constrói uma sociedade a partir da reflexão sobre o que significa ser extraordinário em um mundo onde isso se torna cotidiano, tendo seu legado de 10 anos marcado no próprio universo ao reimaginar o shounen e seus conceitos clássicos, ultrapassando protagonistas masculinos inabaláveis.
