Suçuarana demonstra que o caminho também pode ser o destino

Dora, uma mulher de pele escura e cabelos crespos, está sentada em um degrau de tijolos do lado de fora de uma cabana rústica. Ela usa uma camiseta de manga comprida e jeans, com as mãos cruzadas sobre os joelhos. Ao lado dela, Ernesto, um homem de pele clara e cabelos grisalhos, está sentado em um banco, comendo em um prato. A luz dourada do sol poente ilumina a cena, lançando sombras longas. Em primeiro plano, o cachorro Encrenca, de pelo marrom avermelhado, olha para Ernesto, como se esperasse um pedaço de comida.
Estradas, encontros fugazes e paisagens em transformação constroem a jornada de Dora (Foto: Anavilhana)

Arthur Caires

A estrada é sempre mais do que um caminho: é um espaço onde a permanência só existe no movimento. Em Suçuarana, de Clarissa Campolina e Sérgio Borges, essa imagem se alia ao próprio animal que dá nome ao filme – o felino furtivo e limítrofe, que habita territórios entre mundos, sempre à margem e sempre em trânsito. É nesse mesmo limiar que se encontra Dora, personagem guiada por memórias e pela insistência em seguir, mesmo quando o destino parece escapar. Mais do que narrar uma jornada, o longa se constrói como um gesto de recusa ao previsível: desloca-se entre paisagens devastadas e coletividades possíveis, tensionando o pertencimento como experiência instável, aberta e inquietante.

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Em Bite Me, Reneé Rapp está sem filtros e se diverte sendo indecisa

 

A capa do álbum Bite Me de Renee Rapp. A imagem é um close-up da cantora com seus longos cabelos loiros desarrumados, que cobrem parcialmente seu rosto. Ela tem uma expressão intensa e olha diretamente para a câmera com a boca levemente aberta.
Reneé Rapp prova que pode se divertir no pop sem abrir mão da atitude e da autenticidade (Foto: Interscope Records)

Arthur Caires

Se existe uma certeza quando o assunto é Reneé Rapp, é que ela nunca vai tentar ser a estrela do pop comportadinha. Basta assistir a qualquer entrevista para perceber: entre piadas ácidas e uma postura de diva, ela passa a impressão de que não liga para protocolos de media training, e é justamente aí que mora o seu charme. Depois de um início de carreira no teatro musical (Meninas Malvadas, na Broadway) e uma passagem de sucesso pela TV em The Sex Lives of College Girls (2021), Reneé mergulha de vez no pop em seu segundo álbum, Bite Me. O disco chega como quem não promete respostas definitivas, mas sim um retrato honesto de uma artista que ainda está se entendendo – e que parece se divertir no processo.

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Lobofest 2025: a calmaria do interior que respira música

Uma cena de festival ao ar livre durante o pôr do sol. No primeiro plano, o foco está em um grupo de pessoas sentadas na grama, vistas de costas, observando o palco. Ao fundo, um palco de show está montado com um grande painel de LED exibindo o nome do evento, "Lobofest", em estilo grafite e logotipos de patrocinadores ("Facens"). Há uma multidão de pessoas reunidas em frente ao palco, e o céu ao fundo tem uma luz alaranjada de fim de tarde.
O Lobofest transformou Sorocaba em palco da música independente (Foto: Arthur Caires)

Arthur Caires

Chegar ao Lobofest é como entrar em um universo paralelo onde tudo respira Arte. O caminho da Arena Lucky Friends já entrega o que vem pela frente: brechós espalhados com peças singulares, vitrines de artesanato assinadas por mãos locais e uma decoração que traduz com nitidez o espírito de quem é, e se sente, do interior. Não é só um festival de música, é uma mostra da cena cultural sorocabana, um espaço onde cada detalhe carrega a identidade de quem constrói e vive a cidade.

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O rock alternativo de 2013 mandou mensagem, e Sombr respondeu com I Barely Know Her

Capa do álbum I Barely Know Her do artista Sombr. A imagem mostra um jovem com cabelo escuro e encaracolado, vestindo uma camiseta vintage branca com detalhes vermelhos e o número 77 em vermelho, que parece ter manchas de sangue. Ele está com uma expressão séria e aponta os dedos indicadores para a cabeça, usando vários anéis nas mãos. O fundo é liso e claro.
Sombr prova que a vulnerabilidade pode ser divertida e poética ao mesmo tempo (Foto: Bryce Glenn)

Arthur Caires

Em 2025, depois de um ano dominado por artistas femininas como Charli XCX, Sabrina Carpenter e Chappell Roan, o cenário pop abriu espaço para nomes masculinos como ROLE MODEL e Conan Gray se destacarem – e é aí que Sombr aparece. Com seu álbum de estreia I Barely Know Her, Shane Boose consegue ocupar um nicho que vinha faltando: aquele rock com flertes do indie de 2013, que lembra Arctic Monkeys e The Neighbourhood, mas sem perder a sensibilidade do bedroom pop que ele vem lapidando há anos. O disco chega com uma mistura deliciosa de término de relacionamento e descoberta artística.

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Em Nada, Adriano Guimarães transforma o invisível em presença

Imagem do filme Nada. A cena é observada do exterior de uma casa, através de uma janela retangular dividida por duas colunas de madeira pintadas de azul vivo. No interior, três mulheres estão reunidas em torno de uma mesa coberta por uma toalha estampada com motivos florais vermelhos e verdes. Uma lâmpada incandescente pendurada no teto ilumina a cena. À esquerda, uma mulher com cabelos curtos e óculos veste um casaco vinho sobre uma blusa clara. Ao centro, de costas para o observador, outra mulher com cabelos castanhos curtos veste um suéter branco texturizado. À direita, uma terceira mulher com cabelos escuros presos veste uma camisa listrada em tons de rosa e branco e parece estar escrevendo ou lendo algo sobre a mesa. Sobre a mesa, notam-se objetos como copos, jarras e um recipiente com alimento.
Silêncios, gestos mínimos e atmosferas carregadas constroem a narrativa subjetiva de Nada (Embaúba Filmes)

Arthur Caires

Com seu olhar intensamente sensorial, o experiente diretor de teatro brasiliense, Adriano Guimarães, estreia na ficção com Nada, um filme que aposta em pausas e silêncios de uma presença quase tátil. Distribuído pela Embaúba Filmes, o longa já passou por diversos festivais internacionais e foi premiado no Festival de Brasília nas categorias de Melhor Direção, Melhor Direção de Arte e Melhor Edição de Som. 

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Em I quit, HAIM questiona se os relacionamentos ainda fazem sentido na modernidade líquida

 

Fotografia em formato quadrado. No centro, Danielle Haim aparece com um vestido azul de paetês, segurando uma placa eletrônica vermelha com a frase “I quit” em letras minúsculas. Ela está atrás de um vidro, com reflexos de luz e objetos ao redor. Ao fundo, as irmãs Alana e Este observam a cena em segundo plano. O ambiente é uma loja com paredes envidraçadas, diplomas e prêmios expostos em prateleiras.
Em I quit, HAIM troca a superação melodramática por uma rendição consciente (Foto: Polydor Records)

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Desistir já foi sinônimo de fraqueza. Era o verbo da derrota, da frustração, daquilo que não deu certo. Mas, aos poucos, entendemos que tem coisas que simplesmente não merecem o nosso esforço. Tem causa que é melhor abandonar do que insistir. E tem relações, fases e até versões de nós mesmos que precisam ficar para trás. É nesse espírito que HAIM lança I quit, uma coleção de músicas que se recusa a dramatizar e escolhe simplesmente seguir em frente.

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Lorde morre simbolicamente em Virgin só para experimentar a ressurreição

 

A capa do álbum Virgin é uma imagem de raio-X em tons de azul, mostrando uma pelve humana feminina em posição frontal. No centro da imagem, há um zíper e uma fivela metálica sobrepostos digitalmente à imagem anatômica, além da presença de um DIU (dispositivo intrauterino) visível no útero. A composição evoca temas de feminilidade, exposição e controle do próprio corpo, reforçando o caráter visceral e simbólico do álbum.
Corpo como território, imagem como manifesto (Foto: Republic Records)

Arthur Caires

Existe algo desconfortável – e, por isso mesmo, vital – em se olhar no espelho com sinceridade. Não o reflexo rápido do dia a dia, e sim aquele olhar demorado, que tenta entender não só o que mudou, porém o que ainda pulsa por baixo da pele. Às vezes, esse exercício traz mais dúvidas do que respostas. O corpo pesa, a cabeça gira, e o que era certeza vira angústia. Ainda assim, há algo de libertador em se permitir esse mergulho: abandonar o automático, a complacência. O caos, quando acolhido, pode ser mais revelador do que qualquer solução conveniente.

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Overcompensating: quando um millennial tenta sair do armário em 2025 com referências de 2015

Imagem promocional da série Overcompensating. A foto mostra um close-up de um grupo de seis jovens adultos, em um ambiente colorido. A perspectiva é ligeiramente distorcida, como se fosse tirada de baixo para cima, e a cena é vibrante e caótica, com confetes coloridos espalhados sobre eles e no ar. No centro, Benny, um jovem de camiseta esportiva branca olha para cima com uma expressão de surpresa. Ao redor dele, os outros cinco o encaram ou olham para a câmera com expressões variadas: à esquerda, Carmen, uma jovem de cabelo escuro e blusa verde tem um olhar preocupado; acima, Gabe, um jovem de jaqueta amarela olha intensamente para a câmera; à direita de Benny, Miles, um jovem também encara a câmera com seriedade. Na parte inferior da imagem, há Hailee, uma jovem loira com a boca aberta, e outra jovem loira, Grace, com um olhar sério e direto, e um jovem, Peter, com bigode fino e um boné vermelho virado para trás. A iluminação é quente e difusa, com luzes desfocadas ao fundo, reforçando a atmosfera de festa.
O cartaz de Overcompensating é praticamente um ctrl c + ctrl v de Skins. E isso, honestamente, já diz muita coisa sobre a série (Foto: A24/Amazon MGM Studios)

Arthur Caires

A comédia dramática Overcompensating parte de um lugar muito pessoal: nasceu como uma esquete nas redes sociais do comediante Benito Skinner, baseada em sua experiência como um adolescente tentando mascarar sua sexualidade por meio de uma performance hipermasculina. O que começou como piadas sobre gostar de Gossip Girl enquanto fingia adorar futebol americano evoluiu para um show de stand-up e, finalmente, chegou ao streaming pelas mãos da A24 e Amazon MGM Studios. Agora, transformado em uma série de oito episódios com produção executiva de Charli XCX e roteiro comandado por Scott King (Mad TV), a produção tenta se decidir entre ser uma paródia de seriados da década de 2000 ou um coming-of-age tardio em meio à referências do TikTok. Continue lendo “Overcompensating: quando um millennial tenta sair do armário em 2025 com referências de 2015”

Bom gosto é um luxo, e Addison Rae tem de sobra

Addison Rae, uma mulher jovem com cabelos claros e maquiagem marcante, usando um top brilhante, está parcialmente encoberta por um véu amarelado e translúcido. Ela olha fixamente para a câmera em uma pose confiante. O fundo é um borrão abstrato de cores quentes e frias. A palavra "Addison" em uma fonte decorativa e azul está no canto superior esquerdo da imagem.
A capa de Addison se inspira diretamente no visual dos álbuns pop dos anos 2000, com destaque para a estética carregada e o brilho nostálgico (Foto: Columbia Records)

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Em uma era em que o entretenimento parece girar em torno de reembalar o passado – seja em forma de séries recicladas, live-actions que ninguém pediu ou o saudosismo Y2K nas músicas –, é raro ver alguém navegar por esse mar de referências com autenticidade. A nostalgia virou estratégia de marketing, e o resultado quase sempre escorrega na superfície: muito glitter, pouca substância. 

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Selena Gomez disse I Said I Love You First para Benny Blanco, mas ninguém tinha perguntado nada


Na capa de I Said I Love You First observamos Selena Gomez e Benny Blanco por meio de uma fechadura, como se estivéssemos espiando um momento íntimo (Foto: Interscope Records)

Arthur Caires

Selena Gomez tem uma carreira musical carregada de hits. Desde o começo, quando estava fazendo músicas contratuais para a Disney, ela entregava ‘farofas’ marcantes como Slow Down e Love You Like A Love Song. Já em 2015, quando conseguiu mais controle artístico com Revival, ela foi pioneira no pop ASMR com as deliciosas Hands To Myself e Good For You. Na era dourada dos singles avulsos em 2017, a cantora lançou algumas de suas melhores faixas, como Bad Liar e Fetish. Até mesmo o Rare, de 2020, tem Dance Again e Souvenir, que servem algum propósito.

Porém, ao longo dos últimos anos, foi possível perceber que a Música tratava-se mais de um hobby para Gomez do que algo que ela colocasse um esforço substancial. Logo após o lançamento de Emilia Pérez, em 2024, a atriz declarou em uma entrevista: “Será muito difícil para mim voltar para a Música algum dia”. Mesmo assim, após um período polêmico envolvendo seu namoro altamente público com o produtor Benny Blanco, a ex-Disney lançou um novo álbum.

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