“Cão que late, não morde”: a crise da classe média latino-americana em Perros

A imagem mostra Jorge Saldaña e Sergio, mecânico do bairro, se encarando muito proximamente, sugerindo um desentendimento entre os personagens.
Exibido no Festival de Cinema de Málaga em março de 2025, Perros traz um olhar sobre o que separa quem vive lado a lado (Foto: Cinevinay)

Gabriel Quesada 

Exibido na seção Competição Novos Diretores da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Perros, do diretor uruguaio Gerardo Minutti, é um filme-crônica que acompanha a tensão latente entre duas famílias do subúrbio de Montevidéu e escancara uma série de contradições sociais da classe média latino-americana. Quando os Perna saem de férias para Punta del Este, seus vizinhos, os Saldaña, aceitam cuidar da casa e de seu cachorro Ficha – até que o desaparecimento do animal coloca uma família contra a outra. 

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Lar reconstrói o conceito de família e traz à luz histórias que o mundo insiste em esquecer

Quatro pessoas estão sentadas em volta de uma mesa de café da manhã. Ao lado esquerdo, há um homem com camiseta branca e um jovem adulto de camiseta preta. Do lado oposto da mesa, há um menino com camiseta preta e um homem de camiseta salmão. Todos estão com expressões felizes e encaram a criança mais nova, sentada à ponta direita. Em cima da mesa há uma bacia de pipoca, pão de queijo, garrafa de café, caixa de leite, pratos e canecas.
Em Lar, o amor não segue fórmulas pré-estabelecidas pela sociedade (Foto: Embaúba Filmes)

Vitória Mendes

Você já se questionou sobre o significado de ‘lar’ e o que ele representa para cada pessoa? Ou talvez sobre como cada família constrói sua própria forma de amor através de suas peculiaridades? Em Lar, documentário de Leandro Wenceslau, essa pergunta ganha corpo e emoção. Distribuído pela Embaúba Filmes, o longa acompanha o cotidiano de três famílias LGBTQIAPN+ e, sob a perspectiva dos filhos, retrata a complexidade dos laços familiares com delicadeza, realismo e profundidade, tornando-se identificável para grande parte do público brasileiro.

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Mirrors No. 3, Foi Apenas um Acidente e o inescapável lado humano

À esquerda: Cena de Mirrors No. 3. Uma mulher de cabelo cacheado, veste um moletom roxo, olha para o lado esquerdo de um campo verde, segurando uma bicicleta. À direita: Cena de Foi Apenas um Acidente. Em uma paisagem desértica, um homem de camiseta azul está em pé, enquanto um homem de camisa branca e uma mulher vestida de noiva estão sentados na parte traseira aberta de uma caminhonete branca.
Foi Apenas um Acidente fez parte das seções Homenagem e Apresentação Especial (Foto: Schramm Film Koerner Weber Kaiser e Jafar Panahi Productions)

Guilherme Moraes

A 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo dá palco a diversas histórias ao redor do globo, muitas vezes das quais nunca ouviríamos falar se não fossem esses filmes. Cada local tem sua própria cultura e singularidade, e, na maioria das vezes suas obras se diferenciam muito. Porém, há momentos em que elas se interligam de maneiras inimagináveis. Mirrors No. 3, dirigido por Christian Petzold, é um longa alemão sobre pessoas superando o luto. Por outro lado, Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi, tem como foco principal um grupo de ex-prisioneiros políticos iranianos que encontram, possivelmente, o seu antigo torturador. Apesar das temáticas diametralmente distintas, ambas se aproximam por sentimentos basilares do ser humano: a dor e o trauma.

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A Árvore do Conhecimento tenta ser crítico, mas acaba sendo apenas debochado e raso

Cena de A Árvore do Conhecimento. Em um quarto de aparência clássica, um jovem de cabelos escuros cacheados senta-se abruptamente na cama com uma expressão de surpresa, vestindo uma camisa de dormir branca. A cena é inusitada, pois ele está ladeado por dois animais: à sua esquerda, um burro cinza está em pé ao lado da cama olhando para ele, e à sua direita, um cachorro da raça golden retriever descansa tranquilamente sobre o edredom marrom.
Eugène Green já participou da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo anteriormente (Foto: O Som e a Fúria)

Guilherme Moraes

Assim como na edição anterior, o que não falta na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo são filmes escondidos que podem surpreender positivamente. Este não é o caso de A Árvore do Conhecimento, dirigido por Eugène Green e que fez parte da seção Perspectiva Internacional. A obra portuguesa se apega à fantasia e à comédia escrachada para fazer críticas à extrema direita mundial – especialmente a norte-americana –, porém as piadas não conseguem ir além do deboche.

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Nas Terras Selvagens, sobrevive o Predador que melhor se adapta

Aviso: esse texto contém spoilers

Cena de Predador: Terras Selvagens. Um close-up frontal e intenso do Predador. Ele ruge, mostrando suas mandíbulas abertas e presas afiadas. Seus olhos amarelados estão focados à frente, e ao fundo, uma cena de batalha com fogo e fumaça aparece desfocada.
Dan Trachtenberg também dirigiu O Predador: A Caçada (2022) que saiu diretamente no Disney+ (Foto: Disney)

Guilherme Moraes

Um dos grandes desafios para as franquias decenais não é de se reinventar, mas de inserir uma ideia original dentro da mesma fórmula. A necessidade do estúdio de lucrar sempre irá se sobrepor ao do artista na indústria americana, dessa forma, a reinvenção vira apenas um discurso, pois apostar no conhecido se paga e ainda faz dinheiro – aliás, é exatamente por esses motivos que esses filmes são refilmados ou recebem uma continuação. O que resta para alguns cineastas é fazer um trabalho de artesanato e criar algo singular dentro desse sistema. Longe de dizer que Dan Trachtenberg é um artesão da Sétima Arte, porém, pelo menos em Predador: Terras Selvagens, o diretor consegue instaurar uma relação entre os personagens e o ambiente de maneira criativa.

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Entre ratos e motosserras: Chainsaw Man: Reze Arc é a beleza do caos

Aviso: imagens sensíveis

O filme arrecadou mais US$ 140 milhões com um orçamento de US$ 4 milhões em apenas 2 semanas (Foto: Crunchyroll)

Pedro Domênico

2025 marca uma virada de página no Cinema contemporâneo. A pandemia forçou estúdios e distribuidoras a pensarem como reverter o esvaziamento das salas de cinemas – e aquilo que parecia um problema, aparece como um aliado inesperado. O streaming, antes visto como um dos principais responsáveis, tornou-se o espaço ideal para garantir o retorno do público às telonas. Para as animações, histórias bem sucedidas nas plataformas chegam às salas com arrecadações recordes. O sucesso de Demon Slayer: Castelo infinito (2025) e, mais recentemente, de Chainsaw Man: Reze Arc indicam um caminho promissor de investimento tanto para os estúdios de animação quanto para o mercado exibidor.

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Nova ’78 chega como eco distante do grito que um dia moveu William S. Burroughs

 Cena do documentário Nova ’78. William S. Burroughs, um homem branco, idoso, de sobretudo claro e óculos, caminha por uma rua de Nova York na década de 1970, cercado por carros antigos e placas de postos de gasolina.
O documentário foi exibido no 78º Festival de Cinema de Locarno (Foto: Pinball London)

Eduardo Dragoneti

Assistido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Nova ’78 é uma viagem fragmentada ao coração da contracultura dos anos 1970. Dirigido por Aaron Brookner e Rodrigo Areias, o documentário parte de imagens até então inéditas, gravadas pelo tio de Aaron, Howard Brookner, da Nova Convention (1978), evento que celebrou o retorno do multiartista William S. Burroughs (1914-1997) aos Estados Unidos e reuniu nomes de diferentes vertentes da Arte, como Patti Smith, Frank Zappa, Laurie Anderson, Allen Ginsberg e Philip Glass. O resultado é uma cápsula de tempo que tenta reconstituir um encontro histórico, mas que – ao emergir mais de quarenta anos depois – carrega o peso de chegar tarde demais.

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Se Não Fosse Você dá esperança ao fã de comédias românticas, mas falha quando tenta ser dramático

Aviso: Este texto contém alguns spoilers

Mason Thames e Mckenna Grace estão em um momento íntimo e terno ao ar livre, diante de um veículo azul desfocado ao fundo. O rapaz, de cabelos castanhos encaracolados, veste uma jaqueta escura com detalhes claros e segura delicadamente o queixo da moça com a mão. Ele olha para ela com expressão suave e carinhosa, inclinado para a frente. A moça, loira e de cabelos longos e ondulados, encara o rapaz com olhar igualmente afetuoso, enquanto a luz dourada do entardecer ilumina seus rostos, criando uma atmosfera romântica e serena.
Adaptação do livro “Se Não Fosse Você”, de Colleen Hoover, mata a saudade de clichês românticos (Foto: Paramount Pictures)

Ana Beatriz Zamai 

Inspirado na obra de mesmo nome, Se Não Fosse Você (2019) é mais uma adaptação literária da controversa Colleen Hoover, autora de best-sellers como É Assim que Acaba (2016) e Verity (2018), que também saíram do papel para as telonas, em 2024 e, futuramente, 2026, respectivamente. Porém, para quem não leu o livro, provavelmente não irá associar o filme à escritora, visto que essa não é uma de suas obras mais famosas – e os fatores negativos da adaptação não são somente associados ao desenvolvimento da trama, como no longa estrelado por Blake Lively

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O Telefone Preto 2 é uma alucinação sobrenatural que entende o trauma, mas se perde em suas sombras

Aviso: este texto contém alguns spoilers

Um adolescente de cabelo castanho e jaqueta verde está dentro de uma cabine telefônica, segurando o telefone próximo ao ouvido e olhando atentamente para um homem do lado de fora. O homem usa uma máscara pálida e rachada com chifres, cabelos longos e roupas escuras, observando o garoto sob uma luz fria e tensa.
Dentre os rostos marcados pela neve e pela culpa, o horror de O Telefone Preto 2 é mais psicológico do que físico (Foto: Universal Pictures)

Gabriel Diaz

Após quatro anos do primeiro longa, o horror já não está apenas à espreita no porão claustrofóbico, mas se instala na mente, no sonho, no limiar entre o que se vê e o que se teme. Scott Derrickson retorna ao universo da obra original de Joe Hill, tentando expandir uma história que, no primeiro filme, parecia já ter alcançado seu fim natural. Conhecido por unir fé e medo em clássicos como O Exorcismo de Emily Rose (2005) e A Entidade (2012),o diretor retoma aqui temas que o fascinam: o trauma, o sagrado e o invisível. O Telefone Preto 2 é, ao mesmo tempo, uma continuação e uma reflexão sobre o que resta do terror quando o monstro morre, porém o medo permanece. O resultado é uma produção ambiciosa e visualmente intrigante, embora irregular no equilíbrio entre simbologia e narrativa.

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Mr. Scorsese e a arte de amar os pecadores

Retrato em preto e branco de Martin Scorsese, visto de perfil, já mais velho, usando chapéu e sobretudo escuro. Ao fundo, uma rua iluminada com paredes texturizadas, sugerindo um ambiente urbano.
Aplaudida de pé no Festival de Cinema de Nova York, série revisita o lendário trabalho de um dos diretores mais aclamados da história. (Foto: AppleTV)

Gabriel Quesada  

Na seção Apresentação Especial da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, a série documental de cinco episódios da Apple TV+, com direção de Rebecca Miller, abre com uma colagem de cenas dirigidas por Martin Scorsese ao som de Sympathy For The Devil (ou “empatia pelo diabo”) dos Rolling Stones, afinal, estamos falando de um diretor com fascínio pela violência (tema que, por vezes, lhe rendeu algumas polêmicas na carreira). Além disso, a obra viaja para a infância do cineasta para entender de onde aquele rapazinho asmático de apenas um metro e sessenta tirava tanta braveza. 

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