Ruas da Glória é uma travessia pela intensidade exaustiva até a possibilidade de recomeço

Um close-up noturno do personagem Gabriel, interpretado por Caio Macedo, no filme Ruas da Glória. Ele é um jovem de pele clara e cabelos castanhos ondulados, vestindo uma camisa de botão com estampa de leopardo. Gabriel olha para baixo e para o lado com uma expressão séria e introspectiva. O fundo está desfocado, preenchido por luzes brilhantes da cidade, sugerindo um ambiente externo à noite.
Gabriel passa por um batismo de amor regado em sal, cinzas e carne (Foto: Retrato Filmes)

Arthur Caires

Há algo de purificador no sal. Ele arde, corrói, mas também cicatriza. Ruas da Glória, de Felipe Sholl, começa e termina nesse movimento de luto – um mergulho que é tanto literal quanto emocional. O filme acompanha Gabriel (Caio Macedo), um jovem professor que, após perder a avó e romper com o pai, parte do Recife em busca de uma vida nova no Rio de Janeiro. O que encontra, porém, é o caos de um desejo que o consome por dentro. Entre becos iluminados por neon e corpos suados na penumbra, Sholl filma o amor como uma vertigem: belo, porém irremediavelmente doloroso.

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O Agente Secreto: pensado para que o Brasil visse a si mesmo, abriu portas no mundo todo

Tapete vermelho do filme Agente Secreto. Várias pessoas estão juntas enquanto olham para a câmera, para tirarem uma foto. Ao fundo está o painel da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Elenco e equipe de O Agente Secreto durante o tapete vermelho em São Paulo (Foto: Mariana Bezerra)

Mariana Bezerra e Stephanie Cardoso

Na noite de 28 de outubro, o Cultura Artística, em São Paulo, foi tomado por flashes, tapete vermelho e uma plateia ansiosa para a exibição de O Agente Secreto durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. A sessão contou com a presença do elenco e uma recepção calorosa – um marco simbólico para um filme que já nasceu com vocação internacional. Depois de brilhar no Festival de Cannes e ser escolhido para representar o Brasil no Oscar, o novo longa de Kleber Mendonça Filho vem consolidando o diretor como uma das vozes mais originais e respeitadas do cinema contemporâneo.

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Em Terra Perdida, o olhar infantil revela o peso de ser refugiado

Cena do filme Terra Perdida. Somira, vestindo uma camiseta laranja, carrega o irmão mais novo, Shafi, vestindo uma camiseta branca, nas costas em um campo verde sob um céu nublado. Ambos têm expressões sérias.
O longa foi premiado com a Menção Especial do Júri na seção Orizzonti do 82º Festival de Veneza (Foto: Rediance)

Eduardo Dragoneti

Há filmes que parecem nascer do silêncio – não o que acalma, mas o que grita. Terra Perdida, de Akio Fujimoto, é um desses. Exibido na seção Perspectiva Internacional da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o longa do diretor japonês surge para contar uma história antiga, porém que o mundo insiste em não ouvir. A trama acompanha dois irmãos Rohingya, minoria muçulmana apátrida de Mianmar, Somira (Shomira Rias), de nove anos, e Shafi (Muhammad Shofik), de quatro, que partem ao lado da tia e do avô para uma jornada perigosa rumo à Malásia junto a outros refugiados, movidos pela esperança de reencontrar a família. Continue lendo “Em Terra Perdida, o olhar infantil revela o peso de ser refugiado”

Persona Entrevista: Cristiano Burlan

                Em estreia na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o diretor de Nosferatu revela as características decoloniais de seu vampiro

Arte do Persona Entrevista. Na ilustração, no canto direito, há um quadrado com uma fotografia do diretor Cristiano Burlan. Ele está de frente, veste um casaco preto com botões. Ele é um homem branco de cabelos e barbas grisalhos. No canto esquerdo, há a logo do Persona, um olho com um ícone de play na íris., que é da cor azul-piscina. Abaixo, está escrito em branco "Persona", seguido de "Entrevista". Mais para baixo, para a direita, está a logo da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. No canto inferior esquerdo, está escrito o nome do cineasta "Cristiano Burlan". O fundo da imagem tem a arte do festival, assinado por Valter Hugo Mãe. Várias bolas brancas e ondas azuis.
Helena Ignez e Jean-Claude Bernardet estrelam o filme (Arte: Arthur Caires/Fotografia: Zé Carlos Barretta/Folhapress)

Davi Marcelgo

Um navio chega ao litoral do Brasil. Os contêineres substituem as silhuetas imensas dos altos prédios no horizonte. Em seguida, o título Nosferatu surge no casco da embarcação em uma tipografia de pichação na cor vermelha. O transporte que se confunde com a cidade nas imagens em branco e preto de Cristiano Burlan transmite uma mensagem de integração. Seria o vampiro incorporado a uma metrópole brasileira ou o país condicionado ao colonialismo das produções hollywoodianas? Quem chega de navio a um país suga, como um parasita, a identidade daquele território ou ele é sufocado pelo que já habita ali?  Continue lendo “Persona Entrevista: Cristiano Burlan”

O Agente Secreto: o Brasil dos anos 70 e o atual em um só retrato

Cena do filme O Agente Secreto. Marcelo. Um homem de barba e cabelo escuro, aparece de pé ao ar livre, com expressão séria . Ele veste uma camisa azul-clara com bolso do lado esquerdo do peito, parcialmente aberta. Ao fundo há um campo verde e céu com nuvens claras. Ao seu lado, aparece um fusca amarelo.
Wagner Moura está entre os favoritos para ser indicado ao Oscar de Melhor Ator (Foto: Vitrine Filmes)

Mariana Bezerra

O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, vem percorrendo o mundo com uma campanha de sucesso, que já conquistou premiações e indicações internacionais, as quais podem ser vistas como termômetros da temporada de premiações, como o Gotham Awards e o Festival de Cannes. A estreia do filme subverteu a lógica dominante do eixo Rio-São Paulo. Foram os recifenses, conterrâneos do cineasta e cuja cidade serviu de base para muitos de seus trabalhos, que assistiram ao longa pela primeira vez. Já a sessão de estreia no estado de São Paulo aconteceu na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo na seção Apresentação Especial. Continue lendo “O Agente Secreto: o Brasil dos anos 70 e o atual em um só retrato”

Em Nuvens Passageiras Obscurecem o Sol, o fluxo do tempo é uma correnteza angustiante

É possível entrar em contato com a personagem e sua forma de sentir apenas observando suas ações (Foto: Shuxuan Mei)

Victor Hugo Aguila

O maior desafio da vida adulta é se reconhecer para além de suas funções. Na seção de Perspectiva Internacional da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Nuvens Passageiras Obscurecem o Sol é um retrato sutilmente provocante do que realmente significa viver. Após passar a vida cuidando dos filhos e dos pais idosos, Tianzhen (Xiang Shizhen), uma mulher de 52 anos do sul da China, encontra seu maior desafio até então: descobrir sua identidade com o tempo que lhe é concedido. 

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Entre ratos e motosserras: Chainsaw Man: Reze Arc é a beleza do caos

Aviso: imagens sensíveis

O filme arrecadou mais US$ 140 milhões com um orçamento de US$ 4 milhões em apenas 2 semanas (Foto: Crunchyroll)

Pedro Domênico

2025 marca uma virada de página no Cinema contemporâneo. A pandemia forçou estúdios e distribuidoras a pensarem como reverter o esvaziamento das salas de cinemas – e aquilo que parecia um problema, aparece como um aliado inesperado. O streaming, antes visto como um dos principais responsáveis, tornou-se o espaço ideal para garantir o retorno do público às telonas. Para as animações, histórias bem sucedidas nas plataformas chegam às salas com arrecadações recordes. O sucesso de Demon Slayer: Castelo infinito (2025) e, mais recentemente, de Chainsaw Man: Reze Arc indicam um caminho promissor de investimento tanto para os estúdios de animação quanto para o mercado exibidor.

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Amelia Toledo – Lembrar de Não Esquecer reencontra a artista que moldou o invisível

Amelia Toledo, uma mulher mais velha de cabelos brancos, é vista de perfil, tocando com a mão direita uma grande instalação têxtil laranja, semelhante a uma malha. Ela veste um suéter marrom e olha para a obra com um leve sorriso, em um ambiente interno com uma janela ao fundo.
Amelia Toledo em seu ateliê, a artista que fez da casa estúdio um laboratório de matéria e memória (Capture Produções)

Arthur Caires

Há artistas que fazem do tempo o seu principal material. Amelia Toledo foi uma delas. Em Amelia Toledo – Lembrar de Não Esquecer, exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na seção Mostra Brasil, o diretor Hélio Goldsztejn convida o espectador a atravessar o território poroso entre Arte, Ciência e Natureza. O filme não busca apenas narrar uma trajetória, mas compreender o modo como Amelia transformava o mundo em experimento. Sua Arte não se prendia à forma: era fluxo, metamorfose, lembrança e invenção.

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A História do Som: Paul Mescal e Josh O’Connor brilham em uma ode ao amor e a música

Cena do filme A História do Som: Dois homens, Lionel e David ( da esquerda para a direita), brancos e de cabelos castanhos, estão sentados lado a lado em um banco de madeira em uma sala de uma estação de trem antiga. Ambos vestem roupas de época, em tons marrons. Lionel olha para o outro enquanto conversa; David toca o próprio pescoço com a mão e parece pensativo. Ao fundo, há outras pessoas sentadas; um homem lê o jornal e um casal conversa entre si.
A História do Som faz um retrato de uma relação rodeada de partituras e acordes (Fonte: Mubi)

Mariana Bezerra 

Toda história de amor deveria poder ser vivida em alto e bom som, mas, nas trincheiras, resistem aquelas que precisaram criar uma melodia própria – e silenciosa – para si. A História do Som, dirigido por Oliver Hermanus, é baseado em um conto homônimo de Ben Shattuck, responsável pela adaptação do próprio texto em roteiro. O longa teve sua primeira exibição no Brasil na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo nas seções Foco Reino Unido e Perspectiva Internacional. O filme apresenta a música em um lugar quase de protagonista e mergulha na Quarta Arte para contar a história de Lionel (Paul Mescal) e David (Josh O’Connor), dois artistas que se conhecem em Boston, no fim da década de 1910, e cuja relação reverbera para muito além de sua breve duração.

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Roussil – A Liberdade da Imaginação prova que o Cinema é uma das principais armas contra o esquecimento

Uma escultura alta e abstrata de Robert Roussil, de cor clara, com uma forma humanóide estilizada. A figura, que se assemelha a uma pessoa dançando com braços curvos e erguidos, está posicionada ao ar livre contra um fundo escuro de um paredão rochoso.
As esculturas de Roussil resistem ao tempo – monumentos de imaginação e aço (Foto: Tulp Films)

Arthur Caires

Há algo muito humano no ato de lutar contra o esquecimento. A Arte, quando nasce, já carrega em si uma resistência ao tempo, uma tentativa de permanecer quando tudo o mais se dissolve. R. Roussil – A Liberdade da Imaginação, dirigido por Maxime-Claude L’Écuyer e que está em exibição na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na categoria Competição Novos Diretores, surge como um desses gestos de resistência. Mais do que resgatar a figura de um escultor esquecido, o filme convoca o espectador a pensar na Arte como um modo de permanecer vivo na memória dos outros, mesmo quando a matéria se desgasta.

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