Em Blue Moon, Richard Linklater focaliza as lentes em um poeta torturado

 Cena do filme Blue Moon. Na imagem, há uma mulher branca de cabelos louros e blusa bege. Ela olha para um homem branco de cabelos castanhos com terno. Eles estão em um bar. As interações entre Lorenz Hart e Elizabeth Weiland representam boa parte da comédia do filme (Foto: Sony Classics)

Guilherme Machado Leal  

Como é ver o seu parceiro de longa data se saindo melhor sem você? Em Blue Moon, filme que acompanha a decaída de Lorenz Hart (Ethan Hawke), o público conhece a história de um dos letristas norte-americanos mais importantes do século XX. Ambientado em um bar na noite de 31 de março de 1943, a perspectiva de um artista derrotado pelo sucesso de seu colega, Richard Rodgers (Andrew Scott), expõe uma mágoa para além das diferenças criativas da ex-dupla.

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O Espaço Mais Profundo em Nós permanece à superfície

O rosto de uma jovem é parcialmente iluminado por uma luz verde-azulada que incide lateralmente, criando um contraste suave entre brilho e sombra. Seus cabelos longos caem sobre o rosto, e o olhar baixo sugere introspecção ou melancolia. O fundo é escuro, reforçando a atmosfera etérea e contemplativa da cena.
O filme está entre os indicados ao Prêmio NETPAC no Festival Internacional de Cinema de Calcutá (Foto: MUBI)

Gabriel Diaz

O Espaço Mais Profundo em Nós confirma o olhar de Yasutomo Chikuma para o invisível. Seu cinema se volta ao que não se pode tocar, às zonas de silêncio entre o amor e o luto. Nesta história, apresentada na seção Perspectiva Internacional da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Kaori (Momoko Fukuchi), uma mulher arromântica e assexual, compartilha uma vida com Takeru (Kanichiro), um homem em conflito com o próprio corpo e sua permanência no mundo. A relação dos dois é feita de gestos e pausas – uma convivência que não se consome, apenas se sustenta. Quando Takeru morre, o que resta a Kaori é caminhar entre a lembrança e o vazio, acompanhada por Nakano (Ryutaro Nakagawa), o amigo que talvez também tenha amado o mesmo homem.

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Persona Entrevista: Peter Debruge

Entrevista feita inicialmente em inglês e traduzida por Guilherme Moraes

Card gráfico para a "Persona Entrevista" com Peter Debruge, parte da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O fundo é verde-escuro com linhas onduladas. À direita, dentro de uma moldura orgânica, está uma foto de Peter Debruge em um ambiente noturno. Ele é um homem de cabelo grisalho curto e usa óculos de armação azul vibrante. Ele está sob a cúpula laranja de um telefone público (orelhão) e segura o fone vermelho junto ao ouvido, com uma expressão atenta. Veste uma jaqueta de couro marrom sobre uma camisa azul estampada. À esquerda, o texto "Persona Entrevista", o logo do festival e o nome "Peter Debruge".
Legenda da arte: Peter selecionou The President’s Cake, BLKNWS e Sound of Falling como seus preferidos da Mostra (Foto: Peter Debruge; Arte: Arthur Caires)

Guilherme Moraes

No dia 23 de Outubro, diversas figuras do Cinema mundial estiveram presentes no Anexo do Espaço Petrobrás, localizado na Rua Augusta. Produtores, cineastas e atores cederam seu tempo para fazer entrevistas com veículos de imprensa, e é claro que o Persona não ficou de fora. Dentre os convidados estava o crítico-chefe da Variety: Peter Debruge, que compôs o Júri na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

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Persona Entrevista: Lina Chamie

Com a restauração e exibição de seu primeiro longa de ficção na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a diretora conta sobre o sentimentalismo de reassistir Tônica Dominante

Card gráfico para a "Persona Entrevista" com Lina Chamie, parte da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A imagem possui um fundo verde-escuro com padrões de linhas onduladas. À direita, uma foto de Lina Chamie, uma mulher de cabelo curto e grisalho, sorrindo. À esquerda, estão os textos "Persona Entrevista" e "Lina Chamie" em branco, junto ao logo do festival.
O longa compõe as sessões Filmes Restaurados e Apresentação Especial (Arte: Arthur Caires)

Eduardo Dragoneti

O domingo, 26 de outubro, não foi um dia qualquer na Sala Grande Otelo da Cinemateca Brasileira. Na verdade, o espaço se tornou uma celebração rara na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Ali, na presença de quase todo o elenco e de parte da produção, foi exibida a cópia restaurada em 4K de Tônica Dominante (2001), o primeiro longa-metragem de ficção da aclamada cineasta e musicista Lina Chamie.

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Persona Entrevista: Atilla Salih Yücer

Entrevista feita inicialmente em inglês e traduzida por Guilherme Moraes

Card gráfico para a "Persona Entrevista" com Atilla Salih Yücer, parte da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A imagem tem um fundo verde-escuro com linhas onduladas. À direita, dentro de uma moldura orgânica, está a foto de Atilla, um homem de pele clara e cabelos grisalhos, que sorri para a câmera. Ele veste uma camisa clara e usa um xale com padrões geométricos azuis e cinzas sobre os ombros. À esquerda, o texto "Persona Entrevista", o logo do festival e o nome "Atilla Salih Yücer" em destaque na parte inferior.
Atilla não é apenas o produtor de um dos filmes da Mostra, como também membro do júri (Arte: Arthur Caires)

Guilherme Moraes

A 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo trouxe inúmeros nomes fascinantes do Cinema, tanto em escala nacional, quanto global. Atilla Salih Yücer, o sul-africano produtor de filmes, chega como membro do júri e também – ainda que sua vinda não tenha sido para divulgação – como produtor do novo longa de Jim Jarmusch: Pai Mãe Irmã Irmão, da seção de Perspectiva Internacional.

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Truque de Mestre – O 3° Ato traz uma nova geração de cavaleiros e truques na manga

Aviso: O texto contém alguns spoilers

Cena de Truque de Mestre - O 3° Ato. A cena mostra um grupo diverso de oito pessoas posam lado a lado, encarando diretamente a câmera com expressões que variam entre sorrisos discretos e seriedade. A composição frontal e simétrica destaca a sensação de união e mistério, reforçada pelo personagem central de braços cruzados. O fundo desfocado de vegetação e a luz natural suave valorizam as cores e os rostos, enquanto as roupas — que vão do formal ao casual — e a diversidade entre os retratados adicionam complexidade. O resultado é uma imagem contemporânea, com tom dramático e enigmático.
Os atores passaram por treinamento real de mágica (Foto: Summit Entertainment)

Marcela Jardim

Em uma Era em que franquias se estendem para além do necessário e entregam sequências mornas, como o desgaste evidente de produções como Capitão América 4 (2025) e tantas outras continuações que se apoiam apenas no peso do nome, Truque de Mestre – O 3° Ato surge como um raro suspiro de frescor. O filme retoma a energia pulsante que marcou as duas primeiras produções, preservando a essência de espetáculo, charme e ilusionismo que tornou os Cavaleiros um fenômeno cultural, mas sem abrir mão da renovação. 

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De forma cômica, No Other Choice te ensina a se livrar da sua concorrência

Um homem aparece parcialmente atrás de uma porta, vestindo terno preto, gravata verde e um avental vermelho. Ele observa algo fora do quadro com expressão de alerta e preocupação. A iluminação é suave, destacando seu rosto tenso, enquanto o fundo revela parte de uma parede com papel floral.
O diretor Park Chan-wook apresenta uma sátira sobre desemprego, competitividade e decisões extremas (Foto: Moho Film)

Gabriel Diaz

Desde o fenômeno de Parasita (2019) nas grandes premiações, a indústria cinematográfica parecia não ter reencontrado outro produto audiovisual sul-coreano capaz de ocupar o mesmo impacto de precisão formal e consciência narrativa – até surgir, neste ano, No Other Choice. Enquanto Bong Joon-ho explorava a estratificação social por meio do coletivismo, o conterrâneo investe na patologia individual horizontal em um corporativismo predatório e nos apresenta um homem que decide cavar o próprio nível até não restar ninguém além dele.

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Um Mundo Triste e Belo nos ensina que quando a ‘Ilha’ é encontrada, ela nunca mais é perdida

Cena do filme Um Mundo Triste e Belo (2025). À noite, o casal corre de mãos dadas por uma rua iluminada, rindo juntos. A mulher, de cabelos escuros e soltos, usa uma blusa azul escura. O homem, de barba e cabelo cacheado, veste uma camisa vermelha. As luzes da cidade e o desfoque do fundo sugerem liberdade e alegria espontânea
Durante o filme percebemos o quanto a guerra moldou a visão de mundo dos dois, mesmo que de formas distintas (Foto: Mubi)

Stephanie Cardoso

Exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na seção Perspectiva Internacional, Um Mundo Triste e Belo, dirigido por Cyril Aris, é um retrato delicado sobre permanência, luto e afeto em tempos de instabilidade. Ambientado no Líbano, o longa acompanha duas vidas que se cruzam e se perdem ao longo de décadas, explorando como o amor pode nascer do trauma e se tornar, ao mesmo tempo, abrigo e espelho das feridas de um país. Aris filma com uma ternura contida, além de emoldurar o cotidiano ancorado em um olhar atento às pausas, aos gestos e aos silêncios que dizem mais do que qualquer diálogo.  Continue lendo “Um Mundo Triste e Belo nos ensina que quando a ‘Ilha’ é encontrada, ela nunca mais é perdida”

Criadas: o racismo sob uma lente intimista e familiar

Cena do filme Criadas. Duas crianças estão deitadas lado a lado, uma usando camiseta azul e a outra rosa- escuro (Sandra e Mariana, da esquerda para direita). A primeira é negra de pele retinta e a outra, também tem a pele negra, mas de um tom mais claro. A primeira tem o cabelo castanho trançado e a outra cabelo crespo ornamentado com fivelas coloridas. Uma mão adulta repousa sobre a cabeça de uma delas.
Criadas explora uma relação que carrega feridas e conflitos surgidos na infância e originários de uma herança histórica (Foto: Vitrine Filmes)

Mariana Bezerra 

E quando a empregada ‘da família’ é, de fato, uma parente? Criadas faz parte da programação da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo na seção Mostra Brasil. O filme mergulha em uma história familiar para explorar as feridas – ainda abertas – do Brasil em relação ao racismo e à escravidão. O longa foi eleito pelo público como Melhor Filme Brasileiro de Ficção na premiação do festival. Não é à toa, uma vez que a história das primas Sandra (Vitória Rodrigues, na versão infantil) e Mariana (Alice Feitosa, na versão infantil) e suas famílias atravessa temas tão caros ao país. Elas cresceram juntas, mas não em uma típica relação: a mãe de Sandra era empregada da casa da irmã e, após anos, essa menina, agora uma adulta, retorna para São Paulo para assumir um emprego e buscar informações sobre a mãe desaparecida. Continue lendo “Criadas: o racismo sob uma lente intimista e familiar”

Um garoto com uma câmera, em Yalla Parkour

Cena do filme Yalla Parkour Na imagem, um garoto está de costas para a câmera, de ponta-cabeça na beirada de um topo de um prédio. Ele se apoia com as mãos e deixa as pernas abertas, em posição de V. No fundo, está a cidade de Gaza, com vários prédios e um céu azul com nuvens claras no horizonte. O garoto palestino veste uma camisa azul clara, tênis e calça moletom cinza.
O documentário foi exibido no Festival de Berlim (Foto: Kinana Films)

Davi Marcelgo 

Em 1929, quando o cineasta Dziga Vertov criou um dos mais emblemáticos filmes da história, Um Homem com uma Câmera, ele não apenas fundamentou a montagem como uma das principais linguagens do Cinema, mas documentou aquele período da União Soviética. Os avanços da tecnologia, a desigualdade social, os meios de transporte, rituais da época, tudo é registrado a partir daquele indivíduo que perambulou pela cidade e privilegiou seu olhar para reunir vários acontecimentos e relacioná-los. Enquanto Vertov brinca de mágico por meio da sequência das imagens, a diretora Areeb Zuaiter (e o garoto Ahmed Matar), em Yalla Parkour, imprime Gaza por outro tipo de encantamento. Continue lendo “Um garoto com uma câmera, em Yalla Parkour”