Cineclube Persona – Junho de 2022

Destaques de Junho de 2022: Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, a 3ª temporada de The Umbrella Academy, A Ponte – The Bridge Brasil e Lightyear (Foto: Reprodução/Arte: Ana Júlia Trevisan)

Passeamos pelos multiversos de Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo e The Umbrella Academy, exploramos o brilhantismo obscuro da terceira temporada de Barry e refletimos sobre o final provisório dos malditos Peaky Blinders. Foi assim que o mês popularmente mais calmo no audiovisual, quase uma preparação para o ápice da temporada de Summer Movies, conseguiu deixar sua marca como um dos capítulos mais interessantes do ano até então. Neste Cineclube de Junho, o Persona destrincha o que rolou no Cinema e na TV no Mês do Orgulho.

O período junino começou agitado logo no seu primeiro dia, com o resultado do desnecessariamente midiatizado julgamento entre Johnny Depp e Amber Heard. Depois de quase um mês de análise do processo, o júri decidiu o que o Twitter e o TikTok já haviam julgado há muito tempo: a “inocência” (entre muitas aspas) de Depp. Por mais que os dois tenham saído com condenações, o ator foi quem tirou mais proveito da situação. Apesar de seu caráter ser tão duvidoso quanto o de Heard, ele tomou um banho de imagem e hoje é visto como um injustiçado por uma base de fãs aficionados.

Partindo para notícias mais animadoras, Junho concedeu uma das maiores honras do Teatro para Jennifer Hudson. Graças a sua mais nova estatueta do Tony Awards pela produção do musical A Strange Loop, Hudson atingiu o status de EGOT — destinado aos ganhadores do Emmy, Grammy, Oscar e Tony — e se tornou a segunda mulher negra a receber a honraria, ao lado de Whoopi Goldberg. Falando em representatividade, o Mês do Orgulho separou uma surpresa quase em sua reta final. Nos últimos dias do mês, o lendário Pedro Almodóvar divulgou informações sobre seu próximo projeto, o curta-metragem western Extraña Forma de Vida. Segundo o diretor, a obra será uma resposta ao clássico contemporâneo O Segredo de Brokeback Mountain.

Foto do tapete vermelho do Tony Awards após vitória de Hudson. Na foto estão Jennifer Hudson e Michael R. Jackson. Michael é um homem negro, careca e de óculos. Ele usa uma camisa e gravata borboleta brancas, um terno preto e um sobretudo rosa. Michael está segurando segurando o Tony enquanto sorri. Jennifer é uma mulher negra de cabelos pretos. Ela usa um vestido preto com detalhes em pedraria na altura do peito. Ela está com a boca aberta como se estivesse gritando, enquanto faz o número cinco com a mão esquerda.
Atriz e cantora, Jennifer Hudson é agora o 17º nome da seleta lista dos EGOT (Foto: Jemal Countess)

Adentrando as telonas do cinema e do streaming, o destaque vai para Cha Cha Real Smooth – O Próximo Passo. O filme foi vencedor do Festival de Sundance 2022, assim como CODA, seu irmão de plataforma no ano passado. A história gira em torno de um jovem, interpretado por Cooper Raiff – que também dirige o longa — que trabalha como anfitrião em bar mitzvás, onde conhece uma mãe (Dakota Johnson) e sua filha autista, criando um forte laço com elas. Por mais improvável que seja a obra seguir o mesmo premiado caminho de No Ritmo do Coração, o serviço da maçã mordida já provou que sabe nos surpreender.

Ainda nos lançamentos da plataforma dos iPhones, Liam Neeson estreia nas produções do streaming interpretando um velho conhecido: o porradeiro de meia idade do qual já está acostumado retorna em Assassino sem Rastro. A produção conta a história de um assassino de aluguel com Alzheimer que sofre as consequências de se recusar a matar uma criança. Sendo uma refilmagem do filme belga A Memory of a Killer, o longa entrega um plot genérico e não convence, principalmente ao focar na ação e deixar de lado a interessante premissa de um assassino lidando com essa condição médica.

Cena do filme Lightyear. Nela vemos o personagem de Buzz e Izzy Hawthorne. Buzz, um homem branco, veste uma roupa de astronauta que não é aquela característica do personagem, mas ainda mantém parte da cabeça com aquela espécie de touca roxa. Ele segura o capacete com a mão direita enquanto olha para Izzy. Já Izzy, uma mulher negra, veste uma roupa de oficial, com um patch no braço esquerdo e na altura do peito, um deles indicando seu sobrenome. Ela usa também um fone cinza somente na orelha esquerda, com um microfone acoplado. Ela está apontando para Buzz. Os dois estão em um planeta de clima desértico com algumas casas ao fundo
Trazendo o debate da diversidade aos longas infantis, Lightyear foi proibido em 14 países do Oriente Médio e Ásia (Foto: Pixar)

Indo ao infinito e às salas de cinema, acompanhamos a jornada intergalática repleta de ação de Buzz (Chris Evans) e outros astronautas do Comando Estelar em Lightyear. Dentre eles, destacamos Alisha Hawthorne (Uzo Aduba), responsável pelo primeiro beijo homoafetivo da Pixar. Porém, o feito só ocorreu após uma onda de protestos contra a Disney, que, em pleno Mês do Orgulho, resolveu manter sua política do Don’t Say Gay ao originalmente censurar o casal sáfico. A obra tem a assinatura de Angus MacLane (Procurando Dory) e, apesar das críticas mistas, deve encantar os fãs do personagem, mesmo decepcionando nas bilheterias.

E a Disney decidiu investir no marketing do filme do astronauta para além dos cinemas. Isso nos deu Ao Infinito e Além: Buzz e sua Jornada para ser Lightyear, documentário original do Disney+, que desmembra a origem do emblemático personagem desde sua primeira aparição em Toy Story. O longa serve como um aquecimento para Lightyear, mostrando as etapas de produção da nova aventura da Pixar, e das mudanças estéticas para caracterizar o patrulheiro espacial.

Ainda no streaming do rato, temos A Extraordinária Garota Chamada Estrela Em Hollywood, sequência de A Extraordinária Garota Chamada Estrela. O longa, uma típica aventura adolescente dos anos 2000, mas dessa vez repaginada, continua acompanhando Stargirl Caraway (Grace VanderWaal), que sai da cidade de Mica e se muda para Los Angeles com o intuito de começar uma vida nova. A obra é baseada no livro Com Amor, A Garota Chamada Estrela, tem direção de Julia Hart e conta com nomes como Uma Thurman no elenco.

Para se afastar das polêmicas, a Disney decidiu se redimir produzindo alguns conteúdos LGBTQIA+, e um deles é Trevor: O Musical. Seguindo os moldes de Hamilton, o longa é uma versão filmada do musical off-Broadway de mesmo nome. Baseado no curta-metragem ganhador do Oscar em 1995, a trama acompanha a adolescência do jovem Trevor em 1981, e a descoberta de sua identidade enquanto tenta se encaixar em um mundo difícil. 

Ainda na mesma temática, só que dessa vez para o streaming adulto da empresa, o Star+, Fire Island: Orgulho e Sedução nos traz uma comédia romântica LGBTQIA+ inspirada no clássico Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. Apesar do longa dirigido por Andrew Ahn e protagonizado por Bowen Yang ter um tom cômico, a obra traz várias alusões sobre camadas sociais, além de uma abordagem de aspectos culturais, raciais, de gênero e sexualidade. Entre piadas e clichês, Fire Island é um grito de resistência e representatividade.

Em função das finais da NBA, uma das apostas dos streamings para esse mês foi o conteúdo voltado para um dos esportes mais amados pelos americanos, o basquete. É isso que Rise, produção do Disney+, buscou. A obra, dirigida por Akin Omotoso, conta a história dos irmãos Antetokounmpo, o primeiro trio de irmãos a se tornarem campeões do campeonato. O elenco conta com Dayo Okeniyi (Fresh), Yetide Badaki (This Is Us), Uche Agada e Ral Agada e teve uma recepção positiva por parte da crítica, com 95% de aprovação no Rotten Tomatoes

Porém, o que conseguiu mais holofotes ainda foi a aposta da Netflix, Arremessando Alto, derivado da parceria com Adam Sandler. Depois de Joias Brutas, o longa é mais uma prova que Sandler leva muito mais jeito para a veia dramática do que para a comédia. Porém, aqui, o veterano consegue mesclar suas duas personas em uma dramédia esportiva bem gostosa. 

No filme, o ator interpreta um olheiro do Philadelphia 76ers disposto a mudar de vida, até que descobre, na Espanha, o talento Bo Cruz (Juancho Hernangomez). Com um elenco composto em sua maioria por jogadores e lendas da NBA, a atuação de Sandler é um destaque, pois entrega algo muito acima da maioria de seus trabalhos. Mas os méritos precisam ser dados aos atletas, que desempenham seu papel sem prejudicar o longa. Aqui, um destaque para Juancho, jogador do Utah Jazz, que coestrela a obra.

Cena do filme Jesus Kid. Nela temos o personagem Jesus Kid, de Sérgio Marone. Ele é um homem branco, de cabelo preto e barba preta rala. Ele veste uma roupa típica de cowboy, com chapéu marrom, bandana vermelha no pescoço, camisa bege e colete preto, calça marrom, botina e um coldre com duas pistolas em sua cintura. Ao seu lado, temos o personagem de Luthero Almeida. Ele é um senhor branco, de cabelos e barba brancos. Ele está em uma cadeira de rodas e veste um pijama marrom, com uma manta azul sobre as pernas, atrás da cadeira de rodas tem um cilindro de oxigênio verde, que está ligado ao seu nariz. Empurrando a cadeira de rodas está a personagem de Maureen Miranda. Ela é uma mulher branca, com cabelo cacheado e loiro, ele só aparece dos braços para cima. E ao lado da cadeira de rodas, temos o personagem de Paulo Miklos. Ele é um homem de meia idade de cabelos pretos e barba grisalha. Ele veste camisa cinza, uma jaqueta marrom, uma calça marrom clara e uma bota caramelo. Eles estão caminhando em uma rua de cidade grande, que está vazia.
Com direção de Aly Muritiba (Deserto Particular), Jesus Kid não conseguiu o mesmo sucesso com a crítica, com alguns veículos o considerando monótono [Foto: Grafo Audiovisual]
Como sempre, as maiores surpresas da Sétima Arte ficaram com as telonas dos cinemas . Logo no começo do mês, Jurassic World Domínio abriu essa categoria, mas como uma surpresa negativa. Desta vez, a obra, que mantém a direção de Colin Trevorrow, aborda o desafio da convivência plena entre seres humanos e dinossauros. Mesmo trazendo alguns atores do clássico Jurassic Park e, assim como as obras anteriores, mantendo a boa bilheteria, o longa não foi unanimidade entre o público e desagradou a crítica, amargando com 30% no Rotten Tomatoes

Outra que deu as caras  também, mas dessa vez em um gênero específico, foi Megan Fox. Até a Morte, longa de Scott Dale, marca a volta da atriz (que já vive o terror de ser casada com Machine Gun Kelly) ao cinema de Horror. A história, uma espécie de Jogo Perigoso, narra a história de uma mulher que tenta sobreviver à investida de dois assassinos enquanto está algemada a seu marido morto. Esse jogo de gato e rato conquistou a crítica, que destaca a atuação convincente de Fox.

Cena da animação Minions 2: A Origem de Gru. Na imagem, três Minions, seres amarelos que vestem macacões azuis e óculos de grau, aparecem ao lado de Gru, um menino ranzinza que veste preto. O grupo está no corredor de um cinema. Ao fundo, um papel de parede em cores quentes que remetem aos anos 70 e o poster do filme Tubarão de 1975.
O longa dos servos amarelos foi responsável pela #GentleMinions, tendência que virou febre no TikTok (Foto: Universal Studios)

As duas maiores surpresas tinham que ficar para o final. Os destaques a seguir rapidamente perderam o status de filme e conquistaram o de experiência, ora pela sua qualidade, ora pelo seu apelo. Essa última opção é justamente o caso de Minions 2: A Origem de Gru. Hoje, a internet tem o poder de mudar o rumo dos filmes, como aconteceu com Sonic, recentemente com Morbius e, num futuro próximo, com Barbie, de Greta Gerwig. No presente, o escolhido da vez é o prelúdio de Gru (Steve Carell), em meio a história dos seres amarelos favoritos do Cinema.

Recebido com uma pompa e circunstância a princípio descabidos, o longa traz uma estética setentista para a história da (tentativa de) ascensão do malvado favorito dos Minions. A direção tem a assinatura de Kyle Balda e a trilha sonora tem como grande nome o de Jack Antonoff, responsável por trazer nomes como St. Vincent, Phoebe Bridgers, Kali Uchis e H.E.R. para a produção de covers, com destaque para uma canção original assinada por Diana Ross e Tame Impala. Leve e divertido, Minions 2: A Origem de Gru tem tudo para ser mais um (se não o maior) acerto da franquia.

Fechando com chave de ouro, Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo veio decretar seu lugar na Sétima Arte. Totalmente fora dos radares, o longa já chamava a atenção quando lançava seus trailers, mas nem a pessoa mais empolgada com o material poderia esperar a experiência que o filme é. Dirigido por Daniel Scheinert e Daniel Kwan, que carinhosamente assinam como Os Daniels, a obra é somente a segunda aventura conjunta dos diretores em longas, que tiveram sua estreia com o já intrigante Um Cadáver para Sobreviver.

Aqui, os dois replicam o que deu certo no projeto anterior, e vão muito além. Narrando a história de Evelyn (Michelle Yeoh), uma imigrante chinesa que descobre o acesso ao multiverso enquanto presta contas de sua lavanderia para a Receita Federal, o filme é extremamente despretensioso e sem compromisso. Porém, o roteiro, em sua maioria propositalmente pastelão, guarda um subtexto muito comovente, o que é capaz de te levar às lágrimas com um diálogo entre duas pedras (sim). Em qualquer realidade possível, Everything Everywhere All at Once com certeza é o filme do ano.

Cena do filme Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo. Nela vemos uma pedra, que originalmente é uma versão da personagem de Michelle Yeoh. A pedra é cinza e em um formato quase que redondo. Há também um par de googly eyes, uma espécie de olhos artesanais, muito comum em bonecos de pano. Ela está em um cenário árido, com alguns paredões ao fundos, remetente a um conjunto de cânions
A atuação de Michelle Yeoh em suas mais diferentes versões de Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo pode facilmente ser considerada o ponto alto de sua frutífera e vasta carreira (Foto: A24)

Passando para o universo das séries, a Netflix geralmente é ousada em suas produções, mas, em Junho, escolheu apostar no seguro. La Casa de Papel: Coreia entrega exatamente o que promete: um remake de um dos maiores sucessos da plataforma. Levando em conta que a série original espanhola se manteve no topo do streaming por cinco anos, e que as produções coreanas trouxeram um impacto estrondoso recentemente, não foi uma surpresa que os dois universos tenham se unido. 

A série, no entanto, pode ser mais aproveitada por aqueles que não têm familiaridade com o time espanhol, já que não há grandes alterações nos personagens e na trama. Mas, para os fãs que sentem saudade da antiga produção, pode ser interessante ver a história com um contexto novo: um assalto à Casa da Moeda de uma Coreia unificada. Uma segunda temporada deve chegar ainda esse ano.

Seguindo o plot fora da lei, A Escada, obra de ficção baseada no crime que virou documentário em 2004, investiga o assassinato de Kathleen (Toni Collette) pelas mãos de seu marido Michael (Colin Firth). Com um buzz interessante e bem-vindo para as produções do HBO Max, a produção pode surpreender nas vindouras premiações. A plataforma também investiu em Barry, que retorna após uma espera de 3 anos. Mais intensa e sombria, a história sobre o assassino de aluguel que quer mudar de vida chega em seu melhor ano e se consolida como uma das mais originais da atualidade. Bill Hader, protagonista e criador, prova que sua escrita só evoluiu, assim como suas habilidades na direção.

No Hulu e em breve no Star+, Under the Banner of Heaven, série baseada no best seller de mesmo nome, segue a cartilha de um bom American Crime. Estrelada por Andrew Garfield, a obra acompanha um crime real dos anos 80, cometido em nome de Deus por dois irmãos mórmons. Tanto a obra como Garfield, que interpreta um detetive religioso, conseguem conduzir bem o dilema religioso e mesclá-lo em um thriller criminal extremamente envolvente, com lampejos que lembram os melhores anos de True Detective.

Cena da terceira temporada de Barry. Na imagem Barry, personagem de Bill Hader, um homem branco de cabelos pretos está dentro de um carro. Ele veste um terno cinza e uma calça social. Ele está com as mãos no volante e olha pela janela. Do lado de fora, há uma pessoa com roupas de motoqueiro nas cores cinza e vermelho e com um capacete branco e uma viseira preta com os contornos vermelhos. Ela aponta um celular para Barry. No fundo, vemos um céu de dia ensolarado
Com a terceira temporada de Barry, a HBO provou que a espera compensa (Foto: HBO)

Marcando o retorno dos heróis desajustados mais queridos da Netflix, The Umbrella Academy chega ao seu terceiro ano com uma base sólida de fãs, que, infelizmente, se decepcionou. É evidemte que a produção chegou em um nível de conforto: as temporadas anteriores foram tão grandiosas a ponto da mais recente não conseguir dar conta de seu próprio tamanho, e grandes ganchos do segundo ato acabaram se desperdiçando. Mesmo assim, a obra ainda entrega uma boa aventura com muitos pontos positivos, com destaque para as dinâmicas entre Klaus (Robert Sheehan) e Número 5 (Aidan Gallagher), e para a transição de Viktor (Elliot Page), que apesar de singela, foi executada com carinho.

Em relação aos super-heróis do HBO Max, a quarta temporada de Young Justice, intitulada de Phantons, traz de volta os poderosos adolescentes e suas missões desafiadoras. Com a produção ocorrendo durante o auge da pandemia, em 2020, algumas das etapas de desenvolvimento foram diferentes das demais séries de animação, como a dublagem feita individualmente. Dentre as tramas principais da temporada estão a viagem de Miss Marte, Superboy e Mutano para o casamento de M’gann e Conner em Marte, onde os personagens se deparam com um assassinato e com o preconceito racial, que se desenvolvem junto a outros eventos no planeta vermelho.

Indo para os heróis das estrelas, no Disney+, Obi-Wan Kenobi narra os acontecimentos após a queda e corrupção de Anakin Skywalker (Hayden Christensen) para o lado sombrio da força. O personagem principal interpretado por Ewan McGregor, que deu nome a produção, lida com as consequências da perda de um amigo e do fracasso como Mestre Jedi. A minissérie apela para a nostalgia dos fãs de Star Wars, mas, ao mesmo tempo, se mostra ousada em tentar expandir a trama original e apresentar outras facetas dos personagens já popularmente conhecidos. 

Cena da série de animação Baymax. No centro da imagem está Baymax, um robô grande, branco e com a aparência parecida com a de um marshmallow. Por todo o seu corpo há pequenos curativos coloridos, e alguns maiores e na cor marrom ao redor de sua cabeça, de seu tronco e de sua perna direita, além de um gesso no seu braço esquerdo. Baymax está em uma sala de aula; atrás de si há, da direita da imagem para a esquerda, uma bandeira dos Estados Unidos, um quadro de avisos, uma lousa branca, um cartaz científico, e um armário (com alguns livros e o globo do mundo em cima). Perto da lousa está a professora, uma mulher branca, com cabelos curtos e castanhos, vestindo um suéter marrom e uma saia creme. Também é possível ver cinco crianças sentadas de costas para a câmera. São dois garotos negros do lado esquesdo da imagem, e, do lado direito, uma menina ruiva (de rabo de cavalo), um menino loiro e uma menina de cabelos castanhos.
Derivada de Operação Big Hero e criada por Don Hall, Baymax! narra a rotina do robô carismático como assistente pessoal em San Fransokyo (Foto: Disney)

Queer as Folk, reboot da série britânica de mesmo nome, é comandada por Stephen Dunn e acompanha um grupo diverso em Nova Orleans, que encontra apoio na comunidade queer da cidade após uma tragédia. Russell T. Davies, criador da produção original, atua como produtor executivo, e o elenco conta com nomes como Devin Way, Fin Argus, Jesse James Keitel e Kim Cattrall.

A comunidade queer também marcou presença nos reality shows. A segunda temporada de Drag Race España se encerrou com a vitória de Sharonne. A competição para nomear a próxima Super Estrela Drag da Espanha foi acirrada, mas a apresentadora Supremme de Luxe decidiu coroar a rainha de Barcelona por seu desempenho invejável nos desafios. Além da grande vencedora, Estrella Xtravaganza e Venedita Von Däsh chegaram até a final, e Samantha Ballentines conquistou o título de Miss Simpatia. 

Legendary, o reality de voguing do HBO Max, retorna sem o glamour da segunda temporada e sem uma grande estrela no painel de jurados. A saída de Megan Thee Stallion para a entrada de Keke Palmer foi uma troca inicialmente injusta com o público, mas que ao longo dos dez episódios exibidos em quase dois meses, se mostrou eficiente para a competição de 2022 – além da participação especial de Anitta e do retorno da lendária Dominique Jackson, que deram o que falar. No geral, com elencos nada inspirados e desafios repetitivos, Legendary se tornou apenas ordinária.

A plataforma também apostou em A Ponte – The Bridge Brasil, reality original que foi a grande surpresa do mês e reúne um grupo de anônimos e famosos para construir uma ponte e chegar a um prêmio recheado. Sendo tudo que a nova versão de No Limite sonhou em se tornar, a produção escalou nomes como Pepita e Dani Winits, servindo drama, confusão e a diversão mais genuína que o mundo das competições de realidade ofereceu no ano até agora.

Falando sobre o reality da família mais amada e odiada dos Estados Unidos, a 1ª temporada de The Kardashians chegou ao fim, mas logo deve voltar para um segundo ano. O programa que acompanha o clã trouxe menos episódios do que o falecido Keeping Up with the Kardashians, porém, a premissa continou a mesma: dramatizar os eventos que acontecem na intimidade dos ricaços. Nas redes sociais, o programa viralizou com momentos como o relacionamento de Kim com Pete Davidson e a maneira peculiar com que Kendall corta pepino.

Wendy Williams em um de seus programas. Ela está posicionada no centro da imagem, é uma mulher na casa dos 50 anos, com cabelos longos, ondulados e em um tom de loiro escuro. Ela usa uma maquiagem cinza brilhante nos olhos, combinando com a sua blusa de mangas longas (e um ombro exposto) cinza e com seus anéis e pulseiras na cor prata. Wendy está sentada em uma poltrona roxa, à sua direita está uma pequena mesa de vidro - com um vaso de flores em tons de rosa e uma caneca branca com o seu nome escrito em cima. Atrás de si há somente uma parede cinza com uma textura quadriculada.
O último episódio do programa estadunidense The Wendy Williams Show foi ao ar sem a presença da apresentadora que dá nome a atração (Foto: Paras Griffin)

Mudando os ares, o Paramount+ trouxe um pouco de política em Junho. Em The First Lady, Viola Davis, Michelle Pfeiffer e Gillian Anderson interpretam as primeiras damas mais memoráveis da História dos Estados Unidos, sob a direção da vencedora do Oscar Susanne Bier. A Primeira-Dama tinha tudo para arrebatar a audiência e a aclamação dos críticos: antes da estreia, somente as imagens promocionais de Davis na pele de Michelle Obama foram o suficiente para causar um frenesi nas redes sociais. No entanto, a produção caricata quebrou a expectativa e fez a 1ª temporada da série se tornar alvo de deboche do público. Até o momento, o futuro da obra é incerto.

A política estadunidense também foi abordada em Gaslit, que deu uma nova perspectiva ao livro escrito por Bob Woodward e Carl Bernstein, Todos os Homens do Presidente. Se na obra original há a visão dos jornalistas sobre o evento polêmico que levou à renúncia de Richard Nixon, na adaptação, dirigida por Matt Ross, a narrativa é tratada pelos olhos do grupo de corruptos que compunham a equipe então presidente. 

Ao acompanhar os bastidores das manipulações cometidas pelos homens do presidente, o resultado são cenas cômicas de um planejamento tão meticuloso que fica difícil acreditar que se trata de uma história real. O destaque fica para as interações do procurador-geral, John Mitchell (Sean Penn), e seu improvável contratempo, a esposa Martha Mitchell (Julia Roberts). A minissérie, criada por Robbie Pickering, difunde um roteiro extremamente original e bem pensado. Abusando de um suspense político misturado a um humor bastante peculiar, Gaslit remonta a história com um descaramento libertino tão fiel que parece piada.

Montagem com Gillian Anderson, Viola Davis e Michelle Pfeiffer respectivamente caracterizadas como Eleanor Roosevelt, Michelle Obama e Betty Ford. Da esquerda para a direita na imagem: Anderson, uma mulher branca de cabelos e olhos claros, veste azul; Davis, uma mulher negra de cabelos e olhos escuros, veste vermelho; e Pfeiffer, uma mulher branca de cabelos e olhos claros, veste verde. Todas estão com uma postura imponente.
A boa representação física das antigas primeiras-damas não foi o suficiente para que The First Lady conquistasse o público (Foto: Paramount+)

O Poderoso Chefão é, provavelmente, uma das maiores produções cinematográficas da História, posta em um patamar tão alto que qualquer obra que tente retratá-la acaba se tornando alvo de críticas. Dessa vez quem reviveu o longa foi The Offer, minissérie do Paramount+ que propõe mostrar os bastidores da criação do clássico. A série não é excepcional e nem revolucionária, mas a metalinguagem explícita já a torna interessante o suficiente para uma maratona. 

Peaky Blinders também traz a atmosfera derivada do Cinema de Coppola de forma bem perceptível. Mesmo sendo a sexta e última temporada da série, a história da família Shelby tem um desfecho temporário, uma vez que um filme fechando a história está para sair do papel. Porém, o final que a trama entrega condiz muito com o caminho que o próprio show tomou. Girando em torno do legado dos Shelby, a obra não perde tempo tentando redimir seus personagens, e a escrita de Steven Knight é bem mais sútil ao tratar de seus temas. 

Imagem de The Essex Serpent. Dividindo o centro da imagem estão, da esquerda para a direita, Will e Cora. Ele é um homem branco e alto, com olhos verdes e cabelos castanhos, além de uma barba rala da mesma cor; veste um casaco marrom e um cachecol verde e cinza. Ela é uma mulher branca e baixa, com olhos azuis e cabelos loiros; veste um casaco marrom claro com detalhes em preto e mangas bufantes, uma camisa creme e um lenço vermelho e creme no pescoço. Atrás deles é possível ver uma parede com desenhos de folhagens e de uma cobra verde (parte do desenho da cobra está enrolado em Will).
Sob os tons frios de The Essex Serpent, Cora (Claire Danes) e Will (Tom Hiddleston) dão vida ao calor intimista de sentir (Foto: Apple TV+)

Elevar o nível de uma temporada inaugural recheada de méritos não é simples, mas o time criativo de Hacks deu conta do recado. Pouco tempo depois de vencer 3 importantes prêmios da Academia, a comédia de Jean Smart e Hannah Einbinder retorna com a sagacidade que impregna seu DNA rebelde. No novo ano, Deborah entra em turnê ao mesmo tempo em que descobre uma traição de Ava. Entre a viagem de ônibus, um cruzeiro de lésbicas e um show televisivo, Hacks sobe cada vez mais no pódio de grandes comédias sobre o ato de se fazer comédia. Com um final com cara de desfecho de novela, uma terceira temporada já foi anunciada e só nos resta aguardar o que as megeras preparam a seguir.

A comédia também ficou por conta do segundo ano do revival de iCarly, que retomou o clima de amizade entre os personagens principais após a série de desilusões amorosas na 1ª temporada. Com participações especiais como a de Josh Peck, a sitcom continuou a acompanhar a jornada de Carly e seus amigos em aumentar o alcance do seu canal na web. A renovação ainda não foi anunciada, mas, com o clamor dos fãs, tudo indica que a produção deverá ser retomada.

Cena de Shining Girls. No centro está Kirby, uma mulher branca com cabelos longos, lisos e castanhos; veste uma jaqueta verde musgo e carrega uma expressão tensa. Ajudando a enquadrá-la no centro e fechando quase todo o fundo da imagem estão duas cortinas plásticas translúcidas. Atrás de Kirby é possível ver alguns objetos grandes também cobertos por plástico.
O suspense miraculoso de Shining Girls tem como grande mecanismo o uso de reviravoltas e jogos com o espectador (Foto: Apple TV+)

A Mulher do Viajante do Tempo, adaptação do romance homônimo de Audrey Niffenegger, mistura o romance com a ficção científica e acompanha o casal formado por Henry (Theo James) e Claire (Rose Leslie). Apesar de sua relação ser vista como perfeita pelos outros, o casamento dos dois enfrenta um grande problema: Henry tem um distúrbio que o permite viajar no tempo. Criada por Steven Moffat, que é bem familiarizado com o conceito de viagem no tempo, a série conta com Everleigh McDonell, Desmin Borges e Kate Siegel e já foi cancelada pela HBO após péssima recepção do público.  

Também pincelando o romance e em clima de despedida, a 3ª e última temporada de Com Amor, Victor, disponibilizada no Star+, entrega o fim do arco de seus personagens com a maturidade necessária. Desde seu lançamento em 2020, a série spin-off do filme Com Amor, Simon criou uma narrativa sobre evolução e autoconhecimento, principalmente de pessoas da comunidade LGBTQIA+. 

Entre reviravoltas e crises de identidade, a temporada escolhe se distanciar do que é exatamente previsível e deixar os romances com “felizes para sempre” em segundo plano. Com foco no crescimento, Victor (Michael Cimino) e seus amigos passam por problemas nos relacionamentos, nas famílias e, essencialmente, consigo mesmos. Love, Victor mostra a adolescência como um período de transição, em que os sentimentos, mesmo que verdadeiros, não são mais importantes que o desenvolvimento e o cuidado pessoal. 

Em um mês lotado de lançamentos no Cinema e na TV, os concorrentes às premiações começam a aparecer. Abrindo a temporada de competição e se cansando da rivalidade entre streamings, a Academia de Televisão anunciou seus indicados ao Primetime Emmys de 2022 no último dia 12, sem dar de bandeja quais foram as plataformas e canais que mais tiveram seus nomes anunciados. Com 17 nomeações, é improvável Hacks não reaparecer no Cineclube nos próximos meses – dentre as modalidades, a série figura em todas as categorias de atuação feminina em Série de Comédia, algumas com mais de uma atriz concorrendo, além de disputar o troféu principal.

Na publicação mensal do Persona, Barry é outra que tem chances de pipocar de novo por aqui, e The Staircase torce para ser lembrada na edição de Setembro, quando os vencedores do Emmy 2022 serão anunciados. Andrew Garfield, que garantiu a aparição de Under the Banner of Heaven na lista de indicados do Oscar da TV, pode não voltar a representar a série por aqui, mas seu nome com certeza será lembrado de outras produções. Sem apresentador anunciado, a cerimônia do Emmy 2022 será realizada em 12 de Setembro, mas antes disso, o mês 7 reserva espaço para Os Garotos do Prime, a super-heroína da Disney e até o Rei do Rock de Baz Luhrmann. 


Texto: Gabrielli Natividade da Silva e Guilherme Veiga

Pesquisa e Pauta: Caio Machado, Gabriel Gatti, Jamily Rigonatto, Nathalia Tetzner e Vitor Evangelista

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