A ingenuidade harmoniosa de Christopher Robin

Revisitando o Bosque dos 100 Acres e a trupe de animais da floresta comandada pelo urso amarelo, Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível chega para relembrar o regozijo da infância e que os frutos colhidos nessa época da vida podem florescer por muito tempo.

Vitor Evangelista

Adaptando a história clássica do início do século XX, o filme explora a relação de um Christopher Robin (Ewan McGregor) já adulto para com sua família, vida profissional e os fantasmas em sua infância simplória na região de Sussex, na Inglaterra.

Logo de cara, o filme pinta em tons pastéis as aventuras e enrascadas que Christopher viveu com os companheiros animais quando criança. Tudo do clássico desenho está ali. A mesa de chá, o pote de mel, os pulos de Tigrão. A direção de Marc Foster, embora um tanto indecisa, acerta o tom da nostalgia, cria um vínculo já existente entre o espectador e as personagens, e faz uso da memória afetiva como principal alicerce no progresso da narrativa.

Saindo do conforto da floresta, o longa também é certeiro e incisivo na adequação a seu novo cenário: a esfumaçada Londres do século passado. Uma sucessão de recortes da vida de Robin contam pequenos detalhes de sua vida, como conheceu a esposa, sua ida à Guerra, a ausência no nascimento da filha. Sempre ágil, o filme constrói sua base logo nos primeiros minutos, sem deixar espaço para dúvidas sobre a chegada do ponto A ao B.

“They say nothing is impossible, but I do nothing every day” (Foto: Reprodução)

No entanto, Christopher Robin não é bem resolvido quanto a que tipo de história quer contar. O longa pode ser dividido em três blocos. No limiar entre a fábula, o genérico dilema família x trabalho e uma estória de superação, o filme acaba não abraçando nenhuma dessas pontas e se torna enfadonho na busca de uma linha que progrida a história. Iremos por partes.

A fábula é o que há de melhor na produção. Tudo que diz respeito ao Bosque dos 100 Acres funciona num uníssono harmônico. A criação de mundo, a escolha de tons acinzentados para a pintura das personagens, a inocência dos animais, tudo redondo e fluído. A textura dos bichos também merece destaque, no meio termo da realidade e do caricato, o filme encontra leveza para contar a história dos habitantes da floresta.

O Ursinho Pooh (voz de Jim Cummings) representa todo o ideal da infância perfeita. Desajeitado, sossegado e sempre faminto, o urso tranquiliza a personagem-título e conduz a linha narrativa, funcionando como a amálgama do mundo real com o Bosque. Todas as cenas de interação de Pooh com Robin são potentes e emocionam.

Ió, ou Bisonho (voz de Brad Garett), é a alma do filme. Melancólico, pessimista e até suicida, o burrinho chama a atenção e rouba em cena em todas as tiradas passivo-agressivas que compõe seu roteiro. Tigrão (também dublado por Cummings) desempenha um papel unidimensional e, dentre os bichinhos, é o que mais se caracteriza num papel de coadjuvante.

Os demais animais da floresta, Leitão, Corujão, Can, Guru e Abel, são bem derivativos, apresentam cenas interessantes, mas não recebem destaque. Um desfavorecimento nesse sentido é a falta de uma conversa entre Christopher e Can, por exemplo, sobre o valor da família. Assunto esse que reverbera Robin durante as quase duas horas de filme.

A escolha da predominância do tom acinzentado evidencia a melancolia da vida adulta de seu protagonista (Foto: Reprodução)

Partindo para o núcleo humano, o longa não tem nem vergonha de desenhar a família de Robin da forma mais genérica e previsível possível. Hayley Atwell interpreta Evelyn, esposa do protagonista, e é extremamente mal aproveitada. Uma atriz desse calibre ser subutilizada numa trama batida, sem qualquer emoção ou vulnerabilidade realmente abaixa o nível de grandiosidade da produção.

O mesmo vale para a participação de Bronte Carmichael como Madeline, a filha do casal. Sem sal, com um arco mal desenvolvido e tardio que envolve tanto um descaso por parte do pai quanto a saudade que a pequena sente dessa figura em sua vida.

Nem mesmo a persona magnética de Ewan McGregor consegue dar uma luz aos humanos da produção. O ator trabalha bem a dualidade da personagem, a confusão que sente ao não conseguir dar o melhor de si em tudo que desempenha. Há aqui um homem perdido emocionalmente, que começa a encontrar seu norte quando Pooh retorna a seu convívio, colocando-o de volta nos trilhos, meio abruptamente, mas isso se pode relevar

A trilha sonora evoca o espírito do desenho clássico e impõe ao público o elo de empatia, resgatado da infância (Foto: Reprodução)

A terceira parte do longa, a mistura imperfeita entre os blocos anteriores, amarga a boca. Por um lado é mágico ver todo o crescimento de Robin depois de encontrar os velhos amigos, porém, a contrapartida disso é a questionável decisão de uniformizar a aparição dos bichos. Aqui, todo e qualquer indivíduo pode ver os habitantes do Bosque, tirando assim toda a mágica que os permeava em antigas adaptações.

No fim, conseguindo aludir às fábulas de A. A. Milne (o criador de Pooh), Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível aquece corações e relembra os espectadores adultos das doces experiências e aventuras da infância, mas é falho na tentativa de conectar seu público com qualquer elemento que não seja peludo ou dotado de uma inocência pueril e viva numa floresta encantada.

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