A História do Som: Paul Mescal e Josh O’Connor brilham em uma ode ao amor e a música

Cena do filme A História do Som: Dois homens, Lionel e David ( da esquerda para a direita), brancos e de cabelos castanhos, estão sentados lado a lado em um banco de madeira em uma sala de uma estação de trem antiga. Ambos vestem roupas de época, em tons marrons. Lionel olha para o outro enquanto conversa; David toca o próprio pescoço com a mão e parece pensativo. Ao fundo, há outras pessoas sentadas; um homem lê o jornal e um casal conversa entre si.
A História do Som faz um retrato de uma relação rodeada de partituras e acordes (Fonte: Mubi)

Mariana Bezerra 

Toda história de amor deveria poder ser vivida em alto e bom som, mas, nas trincheiras, resistem aquelas que precisaram criar uma melodia própria – e silenciosa – para si. A História do Som, dirigido por Oliver Hermanus, é baseado em um conto homônimo de Ben Shattuck, responsável pela adaptação do próprio texto em roteiro. O longa teve sua primeira exibição no Brasil na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo nas seções Foco Reino Unido e Perspectiva Internacional. O filme apresenta a música em um lugar quase de protagonista e mergulha na Quarta Arte para contar a história de Lionel (Paul Mescal) e David (Josh O’Connor), dois artistas que se conhecem em Boston, no fim da década de 1910, e cuja relação reverbera para muito além de sua breve duração.

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Roussil – A Liberdade da Imaginação prova que o Cinema é uma das principais armas contra o esquecimento

Uma escultura alta e abstrata de Robert Roussil, de cor clara, com uma forma humanóide estilizada. A figura, que se assemelha a uma pessoa dançando com braços curvos e erguidos, está posicionada ao ar livre contra um fundo escuro de um paredão rochoso.
As esculturas de Roussil resistem ao tempo – monumentos de imaginação e aço (Foto: Tulp Films)

Arthur Caires

Há algo muito humano no ato de lutar contra o esquecimento. A Arte, quando nasce, já carrega em si uma resistência ao tempo, uma tentativa de permanecer quando tudo o mais se dissolve. R. Roussil – A Liberdade da Imaginação, dirigido por Maxime-Claude L’Écuyer e que está em exibição na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na categoria Competição Novos Diretores, surge como um desses gestos de resistência. Mais do que resgatar a figura de um escultor esquecido, o filme convoca o espectador a pensar na Arte como um modo de permanecer vivo na memória dos outros, mesmo quando a matéria se desgasta.

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X-Slasher degusta Bauru até o último pedaço

Cena do filme X-SlasherNa imagem, a mão de uma mulher branca folheia um livro de invocação. Na página direita, há um sanduíche com mãos, olhos de pepino e pés de tomate desenhado dentro de um losango, com várias escrituras. Enquanto na esquerda, está o mesmo lanche, mas desmontado. A iluminação é escura e amarela.
O filme foi produzido por meio da Lei Paulo Gustavo (Foto: Leticia Bonatelli)

Davi Marcelgo

Elm Street, Woodsboro e Nova York são algumas cidades, fictícias ou não, que protagonizaram clássicos do slasher americano. A forma como a população se comporta e os lugares que os jovens frequentam são aspectos importantes na trama destes filmes, sobretudo porque a tranquilidade dos subúrbios americanos ou o julgamento de um município interiorano são elementos que o Terror deturpa e radicaliza para tensionar os personagens e o público. Em X-Slasher (2025), dirigido por Leticia Bonatelli, os sangues nas pontas de faca desembarcam em Bauru (São Paulo), sendo o ambiente crucial para a história que quer contar.  Continue lendo “X-Slasher degusta Bauru até o último pedaço”

Persona Entrevista: Noá Bonoba

Atriz e protagonista de Morte e Vida Madalena fala sobre sentimentos e diversidade na produção cinematográfica

Arte do Persona EntrevistaNa ilustração, no canto direito, há um quadrado com uma fotografia da atriz Noá Bonoba. Ela está de perfil, veste uma roupa vermelha com botões. Ela é uma travesti de cabelos cacheados e alaranjados. No canto esquerdo, há a logo do Persona, um olho com um ícone de play na íris., que é da cor azul-piscina. Abaixo, está escrito em branco "Persona", seguido de "Entrevista". Mais para baixo, para a direita, está a logo da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. No canto inferior esquerdo, está escrito o nome da atriz "Noá Bonoba". O fundo da imagem tem a arte do festival, assinado por Valter Hugo Mãe. Várias bolas brancas e ondas azuis.
A dramaturga dedicou a obra a  todas as profissionais trans do audiovisual e para as que “trabalham com atuação nesse país”. (Arte: Arthur Caires)

Davi Marcelgo

Antes da última sessão de Morte e Vida Madalena (2025) na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo começar, Noá Bonoba, a atriz que interpreta a personagem título, advertiu a plateia: “É um filme muito divertido, muito engraçado”, mas… dava para confiar? Afinal, dificilmente uma profissional vai criticar seu trabalho, quanto mais dentro de um dos principais festivais do Brasil. Entre situações inusitadas e expressões hilárias, quem ignorou o aviso de Bonoba teve uma grata surpresa, o filme é o superlativo de divertido.  Continue lendo “Persona Entrevista: Noá Bonoba”

O Último Beat revisita uma geração pelo olhar íntimo de quem ficou

O poeta Lawrence Ferlinghetti, em cena do documentário 'A Última Batida', sentado em uma mesa na área externa de um café. Ele usa um boné escuro, um cachecol vermelho e um casaco texturizado, e sorri levemente para a câmera. Ao fundo, desfocados, outros clientes sentam-se em mesas e uma placa verde de 'ESPRESSO' se projeta da fachada.
O rosto de Ferlinghetti carrega o peso doce de quem já viu o mundo mudar (Foto: 39 Films)

Arthur Caires

Há encontros que parecem ter sido marcados pela própria história. Em 2007, o cineasta Ferdinando Vicentini Orgnani cruzou o caminho de Lawrence Ferlinghetti, poeta, editor e um dos pilares da Geração Beat. Dali nasceu uma amizade, e dela, um testemunho. O filme O Último Beat, exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na categoria Apresentação Especial, emerge como o registro derradeiro de um homem que fez da palavra um ato político. Mais do que um retrato biográfico, o documentário soa como um eco distante – uma reverberação tardia da utopia beat, que ainda tenta resistir ao peso do complexo militar-industrial que Ferlinghetti denunciava com ironia e lucidez.

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Não tenha medo, A Memória do Cheiro das Coisas é apenas uma redenção que não se purifica

Na fotografia, um homem branco idoso de barba grisalha está sentado à beira de uma cama em um quarto de hospital com paredes azuis. Ele usa um colete de tricô, majoritariamente da cor verde oliva, sobre uma camisa social branca enquanto olha para baixo, com expressão melancólica. Ao fundo, há uma luminária acesa e uma mesa de cabeceira amarela com porta-retratos e um abajur.
Com coprodução brasileira, A Memória do Cheiro das Coisas estreou mundialmente no Festival de Xangai (Foto: Persona Non Grata Pictures)

Gabriel Diaz

Há algo inevitavelmente político em qualquer tentativa de revisitar o passado colonial português – sobretudo quando essa memória é filtrada pelo olhar do envelhecimento, a doença e a solidão. Diretamente da seção Perspectiva Internacional na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o diretor António Ferreira apresenta A Memória do Cheiro das Coisas, um filme que mergulha nesse terreno delicado, tentando equilibrar a culpa histórica com o afeto cotidiano, e parte dessa convergência para construir um drama intimista que atravessa corpo e história. 

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Vampiros ladram, mas não mordem em Love Kills

Cena do filme Love Kills.Na imagem, com cores em tons de verde neon, a personagem Helena está com as duas mãos nas bochechas com expressão de prazer. Ela é uma vampira e se delicia com sangue na boca, que está aberta, mostrando as presas. Ela está de olhos fechados e a fotografia fecha o plano em seu rosto. Ao fundo, em desfoque, há uma parede laranja. Helena é uma mulher negra, na faixa dos 35 anos, de cabelos dread na cor preta. Suas unhas estão pintadas em tom escuro.
Love Kills foi exibido no Festival do Rio 2025 (Foto: Filmland Internacional)

Davi Marcelgo

Existem filmes que transformam cidades em personagens ou fazem delas elementos importantes para a trama. Na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, por exemplo, o longa A Árvore do Conhecimento (2025) usa as transformações de Lisboa como ponto de partida de sua história. Já Baby (2024) faz das ruas da capital paulista um local de refúgio e identidade. Essa característica não está presente em Love Kills, apesar de a diretora Luiza Schelling transformar a terra da garoa em sua Transilvânia, ela pode ser substituída por qualquer outro cenário. A produção faz parte da seção Mostra Brasil do evento e reproduz a linguagem e a gramática de países externos.  Continue lendo “Vampiros ladram, mas não mordem em Love Kills”

A Incrível Eleanor: envelhecer também é viver; uma reflexão sobre amor e luto

Cena do filme A Incrível Eleanor.Na imagem, aparece Eleanor, uma mulher branca, idosa, de cabelos brancos, ​​que está sentada em uma lanchonete, usando um casaco rosa e uma blusa verde-azulada. Ela está com as mãos apoiadas sobre a mesa e olha para o lado parecendo pensativa. À sua frente há dois copos grandes de refrigerante. Ao fundo, há mesas e cadeiras vermelhas e pretas.
Após mais de uma década morando com sua amiga na Flórida, Eleanor volta para Nova Iorque e questiona sua relação com esse antigo, mas, também, novo lar (Fonte: Sony Pictures)

Mariana Bezerra 

A Incrível Eleanor, estreia de Scarlett Johansson na direção, foi lançado no início de 2025 no Festival de Cannes. Ainda sem data de lançamento nos cinemas nacionais, a primeira sessão do longa, no Brasil, aconteceu na 49ª Mostra de Cinema de São Paulo, como parte da seção Apresentação Especial. Como já ocorreu com outras atrizes que conquistaram renome na frente das câmeras, Johansson se posicionou, pela primeira vez, por trás delas. Aqui, a estrela de Hollywood concede um respiro às próprias personagens e se aventura em uma função responsável por orquestrar um resultado belíssimo, que surpreende pela delicadeza e pela simplicidade.  Continue lendo “A Incrível Eleanor: envelhecer também é viver; uma reflexão sobre amor e luto”

Loucuras mostra a poligamia como remédio para um distúrbio incurável

Uma mulher e um homem estão muito próximos, encostados um no outro. A mulher segura o ombro do homem com as duas mãos e o observa com expressão emocionada. Ele retribui o olhar, de óculos e expressão corada. Ambos vestem roupas escuras, e o ambiente parece interno, com luz suave.
O longa quebequense apresenta uma história de exploração e autodescoberta sexual (Foto: Coop Vidéo de Montréal)

Gabriel Diaz

Sob o disfarce de liberdade, ainda há a fragilidade de uma geração que tenta racionalizar o desejo. Segundo o dicionário Michaelis, a poligamia é, em essência, a união reprodutiva entre três ou mais indivíduos de uma espécie. Nos países ocidentais, especialmente no Canadá (onde o filme se originou), ela é criminalizada por ser considerada uma ruptura da estrutura social monogâmica. Porém, em Loucuras, exibido na seção Competição Novos Diretores da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o conceito se converte em metáfora: não a transgressão da lei, mas a do próprio sentimento. O diretor Éric K. Boulianne, também protagonista, transforma a ideia de ‘muitos amores’ em uma tentativa desesperada de curar o vazio de um casamento esgotado.

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Nova ’78 chega como eco distante do grito que um dia moveu William S. Burroughs

 Cena do documentário Nova ’78. William S. Burroughs, um homem branco, idoso, de sobretudo claro e óculos, caminha por uma rua de Nova York na década de 1970, cercado por carros antigos e placas de postos de gasolina.
O documentário foi exibido no 78º Festival de Cinema de Locarno (Foto: Pinball London)

Eduardo Dragoneti

Assistido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Nova ’78 é uma viagem fragmentada ao coração da contracultura dos anos 1970. Dirigido por Aaron Brookner e Rodrigo Areias, o documentário parte de imagens até então inéditas, gravadas pelo tio de Aaron, Howard Brookner, da Nova Convention (1978), evento que celebrou o retorno do multiartista William S. Burroughs (1914-1997) aos Estados Unidos e reuniu nomes de diferentes vertentes da Arte, como Patti Smith, Frank Zappa, Laurie Anderson, Allen Ginsberg e Philip Glass. O resultado é uma cápsula de tempo que tenta reconstituir um encontro histórico, mas que – ao emergir mais de quarenta anos depois – carrega o peso de chegar tarde demais.

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