Aquaman mergulha na visão espalhafatosa de James Wan e revigora a DC no cinema

2/3 do filme se passa embaixo d’água e a preocupação do diretor em tornar críveis essas sequências é enorme. Atente-se ao cabelo dos personagens nas cenas no mar (Foto: Reprodução)

Vitor Evangelista

Nadando contra a corrente do fracasso comercial dos últimos filmes da DC, Aquaman chega repaginado, reimaginado e nas mãos de um cineasta experiente, dono de uma visão revigorante para os Mundos da DC nas telonas. O filme do Rei de Atlantis discute problemas já vistos no gênero, mas triunfa nas cores e na escolha certa de James Wan em expandir toda a cenografia, beirando a breguice mas acertando em criar o filme de super-herói mais bonito do mercado.

Quando Zack Snyder planejou o Universo Expandido da DC Comics, uma aura cinzenta e carregada de angústia predominou em seus Homem de Aço (2013) e Batman vs Superman (2016). A bola de neve começou a rolar nas refilmagens de Esquadrão Suicida (2016) e arrebatou os estúdios na desastrosa colcha de retalhes que eles insistem em chamar de Liga da Justiça (2017).

É importante ressaltar que esse retorno ruim veio do apogeu da rival Marvel, que insiste em encaixar figuras fantasiadas em fórmulas pré-cozidas e surrupiam uma ou outra piada em cada meia dúzia de cenas. O resultado são filmes divertidos e escapistas, mas que muitas vezes não tem muito o que dizer.

O mercado comercial estava preparado para o mundo épico e melancólico que Snyder desenhou sob seu Superman (que não vê problemas em matar seus inimigos) ou no Homem-Morcego (que marca bandidos com ferros de gado). A audiência respirou (quase) aliviada na estreia solo da Mulher Maravilha (2017), filme competente, que responde a todas as demandas propostas, coloca uma mulher como protagonista e se conclui como um bom feijão com arroz, mas ainda cicatrizando a óptica soturna do antigo diretor.

Na contramão de Liga da Justiça, o filme escancara as cores dos uniformes e não se preocupa em soar brega ou datado (Foto: Reprodução)

Aquaman é o único filme do estúdio de 2018 (esqueçam a baboseira infantil dos Jovens Titãs em Ação). A história de origem de Arthur Curry (Jason Momoa) toma início após a última batalha da Liga e segue a cartilha do herói renegado que necessita voltar a sua terra natal para impedir que um tirano coloque em perigo o mundo dos oceanos e o da superfície. Ao lado da princesa Mera (Amber Heard), eles partem em busca de um artefato que o tornará apto de reivindicar o Trono de Atlantis.

Zack Snyder (creditado como produtor) é responsável pela pior coisa do filme: seu casal principal. Momoa e Heard foram escalados em Liga da Justiça. O Aquaman de Momoa é corpulento, de poucas palavras e nunca recusa um copo de cerveja; a interpretação em momento algum sai de sua zona de conforto. Até as tatuagens do herói foram inspiradas nas do ator. Momoa parece ter chegado no set com a roupa do corpo e colocado para rodar as cenas. Já Amber Heard, ornada de figurinos magníficos saídos diretamente das páginas das histórias em quadrinhos, não consegue expressar a sabedoria e a força que Mera carrega. Herdeira de um dos Reinos do Oceano, a princesa é essencial para a jornada de Aquaman, luta contra todos os capangas, além de sempre ser ela quem resolve os pepinos que os dois se metem.

Claro que a culpa da interpretação fraca não cai somente nas costas dos atores. Uma das maiores deficiências do cinema de James Wan (Invocação do Mal) é sua direção de atores em cenas que não envolvam fantasmas, espíritos ou alguma possessão demoníaca. Mas talvez uma re-escalação da dupla principal fosse a melhor saída, visto que os demais personagens se saem muito bem brincando com a megalomania extravagante do roteiro de David Leslie Johnson-McGoldrick e Geoff Johns.

Amber Heard aceitou o papel de Mera pela princesa não ser apenas um adereço de cena: é ela que conduz a narrativa e guia o herói (Foto: Reprodução)

O elenco ainda conta com Nicole Kidman, como a Rainha Atlanna. A mãe do herói domina completamente as cenas, convence como uma guerreira e é dona da melhor sequência de ação do filme. Kidman faz par com o faroleiro Thomas Curry, interpretado por Temuera Morrison, que é funcional mas tem pouco espaço para brilhar, sempre dividindo tela com a atriz australiana.

Mergulhando nos reinos do Oceano, Vulko (Willem Dafoe) é o mentor Arthur Curry. O personagem transmite uma sabedoria sagaz, quase sacana. Os flashbacks inseridos para mostrar o treinamento do jovem Aquaman se encaixam bem na trama e Vulko sempre tem uma tirada inteligente ou um momento de encher os olhos. Até onde sei, Aquaman é o único filme da história que propicia ao público uma cena de Willem Dafoe montado num tubarão-martelo.

Aquaman tem dois vilões. O principal é o Rei Orm (Patrick Wilson, em mais uma parceira com Wan). Embriagado de poder, o herdeiro legítimo de Atlantis consegue elucidar um senso de grandiloquência interessante no gênero, adendo também ao seu discurso de ‘dominação mundial’ (talvez aquática) que conversa com problemas reais, como aquecimento global e poluição dos mares. O vilão secundário, e que promete voltar para uma eventual sequência, é o Arraia Negra (Yahya Adbul-Mateen II). O Arraia é o maior inimigo do Aquaman e sua introdução no filme é bem estruturada, com sequências de ação impressionantes, sem contar o visual do vilão. Impecável.

Patrick Wilson já havia protagonizado os dois Invocação do Mal, de James Wan, e volta na pele do Rei Orm, o Mestre dos Oceanos (Foto: Reprodução)

Quanto à trama do filme, o roteiro não se esforça em sair do senso comum ou dos jargões de gênero que poderiam ser peneirados em mais algumas revisões do material. Por conta do sucesso da Marvel nesse ano, pode ser que a equipe criativa de Aquaman tenha sido pressionada a entregar o texto o mais rápido possível, deixando passar defeitos bobos, que acabam diminuindo o produto final.

Se o roteiro poderia ser mais trabalhado, o mesmo não pode ser dito da parte visual da produção. James Wan conceitua reinos subaquáticos, recria conceitos das histórias do quadrinista brasileiro Ivan Reis e eleva todo o patamar criativo em comparação com os filmes do gênero.

Evocando Star Wars, Avatar (2009) e até Os Jetsons, o fundo do mar de Wan brilha. Usa do néon e dos tons quentes para preencher a tela do cinema, atento aos detalhes. Cada um dos sete mares e seus residentes foi estudado, trabalhado de modo que elucide a imaginação da audiência, que anseia por mais. Sobra até espaço para uma sequência escura e tenebrosa com um reino que permite que Wan se delicie no terror. Aquaman pinta uma série de quadros e obras de arte a cada cena de batalha. E são muitas.

O filme conta com uma participação mais que especial da veterana Julia Andrews (Mary Poppins), fique com os ouvidos atentos (Foto: Reprodução)

São tantas lutas que, lá pelo inchado segundo ato, o filme abusa de uma perseguição na Itália, filmada em um híbrido de plano-sequência, muito boa mas que poderia ser podada. Assim como todo bloco pelo deserto, onde Aquaman e Mera caminham em busca de pistas para o Tridente. Redundante, não tem muito a dizer, acaba reforçando a deficiência do casal em simpatizar um com o outro e com o público. Se o filme dosasse melhor esses momentos, seu clímax teria sido melhor aproveitado.

É fato que a sequência de batalha final entre os guerreiros de diversos mares é o melhor 3º ato que o cinema de heróis já viu. Entretanto, depois de quase duas horas e meia de filme, seu desfecho perde fôlego, e cansa. O humor é desconfortável, a trilha sonora não encaixa muito bem, mas esses fatores só agregam ao longa.

Durante muito tempo o Aquaman foi motivo de piada, tanto entre público quanto dentro da Sala da Justiça. Sabendo disso, Wan mune sua visão do Rei dos Mares com uma qualidade técnica impecável — com a câmera que viaja sem cortes pelos ambientes e lutas muito bem coreografadas —, um visual primoroso e uma história de origem que honra seu herói e, o melhor de tudo, lufa ar para os pulmões calejados da DC.

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