O Vilarejo e o que fazemos com histórias malignas

Ilustração da capa – O “pequeno amontoado de casas esquecidas pelo mundo” em tons de vermelho sangue (Foto: Reprodução)

 “O caráter do homem é o seu demônio”

-Heráclito

Caroline Campos

Algumas histórias são malditas. Elas carregam a perversidade e a podridão humana em suas palavras e nos deixam diante de um impasse: será que vale a pena eternizar tanta maldade? Logo no prefácio de “O Vilarejo”, Raphael Montes, autor da obra publicada em 2015 pela editora Suma, toma a sua decisão. E ela não poderia ter sido mais certeira.

Dessa forma, somos apresentados a um relato de Montes sobre como chegou em suas mãos um caderno de ilustrações contendo sete histórias, todas passadas no mesmo vilarejo. E é assim que o livro é dividido – sete contos independentes com nada além desse pequeno amontoado de casas esquecidas pelo mundo os ligando. Contos estes que podem ser lidos sem uma ordem específica, cada um relacionado com um demônio responsável por invocar um pecado capital nos seres humanos. 

As narrativas presentes em “O Vilarejo” são cruas, porém se entrelaçam em um resultado final perturbador, caótico. A cada personagem apresentado, Montes nos faz delirar com a velha disputa entre o bem e o mal, com a natureza humana em sua forma mais primitiva. Nos vemos nos perguntando como um vilarejo confinado parece se esconder de tudo e de todos, de Deus e do diabo, ficando sujeito a nada além da capacidade humana de ser cruel em situações limítrofes.  

Raphael Montes, a mente por trás do Vilarejo (Foto: Reprodução)

Mesmo sucumbindo pela fome e pela neve, os moradores ainda são pessoas normais, sem influência alguma do sobrenatural – talvez a parte mais assustadora do livro. Beirando a insanidade, suas histórias nos são apresentadas de forma rápida, porém não menos envolventes, dando o tempo necessário para definharmos em sincronia com o vilarejo.

O livro também conta com ilustrações de Marcelo Damm, coloridas e bem explícitas, contribuindo diretamente com a construção climática de cada capítulo e nos dando claros vislumbres da violência de suas personagens. Além disso, as páginas são manchadas de sangue, como se as nossas mãos estivessem tão sujas quanto a de seus protagonistas. 

Páginas salpicadas de sangue e ilustrações violentas são características do livro (Foto: Caroline Campos)

Talvez a história de Raphael Montes seja excepcionalmente marcante por nos proporcionar um questionamento tão genuíno quanto o de se faríamos a mesma coisa durante o pavor extremo. Durante a leitura, sentimos nojo, repulsa, ódio, compaixão. Mas, acima de tudo, percebemos a verossimilhança da história. O peso dos instintos. Vivemos em uma luta constante com nossos demônios, e “O Vilarejo” nos mostra que, infelizmente, não é sempre que nós vencemos.

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