As experiências visuais do 5º Festival Ecrã

Entre longas, médias, curtas, videoartes, artes imersivas e games, Julho de 2021 nos trouxe as experimentações artísticas e sensoriais do 5º Festival Ecrã (Arte: Vitor Tenca/Texto de Abertura: Caio Machado e João Batista Signorelli)

Depois da jornada através do Cinema Fantástico que foi o Fantaspoa XVII, o Persona volta para o mundo dos festivais de Cinema, mas desta vez se aproximando ainda mais do experimental e incomum. A 5ª edição do Festival Ecrã de Experimentações Audiovisuais nos levou por caminhos dos mais abstratos, passando pelo intrigante, profundo, ou simplesmente incompreensível. De narrativas estruturadas à experiências puramente estéticas, o Ecrã foi online, gratuito e apresentou, além de longas e curtas, outras das inúmeras possibilidades proporcionadas pelo audiovisual: videoartes, performances, instalações, artes interativas e até mesmo games marcaram presença no festival que aceita tudo, menos o convencional e o conformista. 

O Festival surgiu timidamente em 2017, com apenas 10 obras ao longo de 2 dias, e cresceu a cada ano até explodir em 2020, em sua primeira edição online, quando deu a uma enorme quantidade de cinéfilos, órfãos das salas de cinema e sedentos por novidades, a chance de descobrir dezenas de obras audiovisuais inovadoras. Em sua 5ª edição, realizada de 15 a 25 de julho, o jovem festival permanece independente de patrocinadores e sem cobrar um único centavo de seus espectadores, o que significa que o evento precisa buscar meios alternativos para se manter financeiramente. Por isso, o Ecrã abriu uma campanha de financiamento coletivo para esta edição, com a qual é possível contribuir até o dia 15 de agosto. 

Através de uma plataforma própria, a quinta edição teve uma curadoria heterogênea como toda seleção de um Festival experimental deve ser. Trazendo desde obras de cineastas essenciais para o Cinema de vanguarda mundial, como James Benning e Ken Jacobs, à produções estudantis saídas diretamente das universidades brasileiras, o Ecrã ofereceu um panorama amplo de produções nacionais e internacionais das mais diversas, que buscam romper as fronteiras e arrebentar as caixinhas do tradicional e do óbvio. 

Das 120 produções presentes na programação do Festival, o Persona assistiu 40, todas comentadas a seguir por Caio Machado, Caroline Campos, Gabriel Gatti, Gabriel Oliveira F. Arruda, João Batista Signorelli e Vitor Evangelista. Nos 10 dias de Festival, vimos um pouco de tudo: filmes macabros, engraçados, surpreendentes, incômodos, ou apenas abstratos demais para serem descritos. Se você quer sair do óbvio e passar longe do previsível, pode ter certeza que logo abaixo encontrará material de sobra para se interessar. 

Longa e Média-Metragens

Cena do filme Canções Engarrafadas 1-4. A imagem mostra um fragmento da tela de um computador com a linha do tempo em um programa de edição de vídeo. Acima da linha há uma régua com marcações temporais, e na faixa de vídeo há diversos fragmentos recortados representando cortes no vídeo. Em destaque na metade direita, há um recorte maior que mostra a imagem de um homem com roupas militares com um lança-foguetes em seu ombro atirando para a esquerda.
A diretora Chloé Galibert Lainé já esteve presente na edição anterior do festival, com ‘Assistindo a Dor dos Outros’, outro filme criado a partir de gravações da tela de computador. (Foto: Chloé Galibert Lainé e Kevin B. Lee)

Canções Engarrafadas 1-4 (Bottled Songs 1-4, Chloé Galibert Lainé e Kevin B. Lee, Alemanha, França e EUA, 2020)

Canções Engarrafadas 1-4 é uma pancada das fortes. Por pouco mais de uma hora, Kevin B. Lee e Chloé Galibert-Laîné dissecam em quatro “canções” as representações do Estado Islâmico na internet feitas pela própria organização terrorista e pela mídia internacional. Os pesquisadores-artistas transformam sua investigação em ensaio, e o seu ensaio em Arte na forma de um documentário de desktop capaz de deixar qualquer um boquiaberto. 

Através de quatro e-mails trocados entre Kevin e Chloé, somos levados a questionar a veracidade e as motivações por trás de um vídeo do Estado Islâmico propagado entre os veículos de informação, a destrinchar um longa-metragem de propaganda terrorista, buscar informações a respeito de um jovem radical jihadista, e por fim especular sobre a transformação de um repórter britânico em porta-voz das mensagens do ISIS. Do poder de impacto das imagens, ao modo com elas se transformam e são ressignificadas pela internet, as canções da dupla de realizadores falam de tanta coisa, que cada uma delas mereceria um artigo inteiro por si só. Certamente, uma das melhores coisas que vi em 2021 até o momento. João Batista Signorelli


Cena do filme Edição de Vídeos com Adobe Premiere Pro: Guia do Mundo Real para Configurações e Fluxo de Trabalho. A imagem é uma captura de tela de um computador, e mostra uma sessão aberta em um programa de edição de vídeos. Acima se destacam duas imagens do filme sendo editado. Na imagem da esquerda, em primeiro plano no canto esquerdo desfocado há um homem coreano com uma camisa rosa sobre uma camiseta branca e uma câmera fotográfica próxima do rosto, e em segundo plano uma mulher coreana de camiseta azul clara olhando para o homem com expressão séria. Ao fundo em desfoque, há vegetação verde. Na segunda imagem, à direita, as mesmas pessoas são apresentadas de corpo inteiro e em pé um de frente para o outro. Ele fotografa ela, sobre um gramado rodeado por árvores. No canto direito, sobre o vão estreito entre duas árvores está o cursor do computador apontando para uma pequena silhueta humana feminina escondida ali. Na metade de baixo da imagem, à esquerda há uma lista de pastas de arquivos, e do centro para a direita a linha do tempo do filme com fragmentos de vídeos e arquivos de som.
Edição de Vídeos com Adobe Premiere… é outro filme de desktop a figurar na programação do Festival Ecrã, trabalhando, porém, em um contexto fictício. (Foto: Seong Yoon Hong)

Edição de Vídeos com Adobe Premiere Pro: Guia do Mundo Real para Configurações e Fluxo de Trabalho ( 그녀를 지우는 시간, Seong Yoon Hong, Coreia do Sul, 2020)

Em meio a uma programação de produções que buscam se aproximar do onírico, abstrato, conceitual, e por vezes incompreensível, Edição de Vídeos com Adobe Premiere Pro: Guia do Mundo Real para Configurações e Fluxo de Trabalho se torna oásis para quem busca algo acessível sem necessariamente ser convencional. É o filme-pipoca do Festival Ecrã, que mistura de maneira deliciosa o desktop-movie, o romance, a comédia, o terror, além do tradicional guia de gestão de crises para quando editores de vídeo encontram algo bem errado no material de filmagem com o qual estão trabalhando.

Um típico filme de romance é interrompido por seu diretor tentando finalizá-lo com a ajuda de uma editora experiente, e ambos acabam sendo impedidos de trabalhar devido a uma série de erros no arquivos que podem ou não arruinar o filme, e talvez a própria vida do par responsável pela pós-produção. O diretor sul-coreano Seong Yoon Hong oferece, em seu média metragem de título enorme, não apenas entretenimento puro, como também um mergulho na frustração de uma artista ao ter a sua visão arruinada por erros estúpidos e evitáveis. Mas ao final, as intenções artísticas são mais importantes do que o que é possível de ser feito com o material real? Edição de Vídeos com Adobe Premiere… nos mostra que os erros abrem brechas para experimentações, e, conforme este filme (ou seria ‘este guia’?) nos ensina, o experimento e o entretenimento são perfeitamente capazes de andar juntos. João Batista Signorelli


Cena do filme Natalis apresenta uma igreja com um santo dentro de uma redoma de vidro e metal, usando uma batina branca e uma estola vermelha. Na frente da cúpula está uma cruz pequena de metal, duas velas e duas colunas na lateral.
Raquel Monteiro guia a narrativa de Natalis por meio de cenas de câmeras de segurança e do silêncio (Foto: Raquel Monteiro)

Natalis (Raquel Monteiro, Brasil, 2021)

Se imagine visualizando gravações de câmeras de segurança ao redor do mundo, durante os dias 24, 25 e 26 de dezembro. É justamente essa a proposta de Raquel Monteiro no filme Natalis. A diretora já havia marcado no Festival Ecrã em 2020 por dirigir e roteirizar o curta Céu Na Terra, que conta a história dos encontros e desencontros de Patrícia e Paula durante o Carnaval carioca.

No caso de Natalis, Monteiro foi mais ambiciosa na proposta. Logo de início, somos introduzidos ao poema Lucrèce à la fenêtre, de Christian Prigent, que fala sobre o fazer das coisas a partir do vazio. No momento seguinte, a cineasta nos coloca em uma janela com vista para paisagens ao redor do mundo. O filme surge com grande imponência, se desenvolve na monotonia dos ambientes e se encerra com a incógnita do real sentido da obra. Para a caracterização dos ambientes, a diretora apresenta vídeos com uma velocidade menor de fotos por segundo e ritmo pausado. Esses recursos permitem que a cineasta faça de seu trabalho um laboratório aberto a novos experimentos sensoriais dentro do audiovisual e fazem com que cada um dos picotes de cena proporcionem uma nova experiência. – Gabriel Gatti


Cena do filme Toda Luz Que Podemos Ver exibe uma paisagem com vegetação rasteira e seca, montanhas ao fundo e o céu azul com poucas nuvens. Ao centro da imagem aparece um homem de roupa preta andando pela vegetação baixa.
Amor e fúria guiam a trama de Toda Luz Que Podemos Ver ( Foto: Pablo Escoto)

Toda Luz Que Podemos Ver (Toda La Luz Que Podemos Ver, Pablo Escoto Luna, México, 2020)

Em 2014, Pablo Escoto Luna fundou, junto com Salvador Amores e Jesús Núñez, a cooperativa de Cinema ríos de Nueva, para buscar novas formas de fazer Cinema no México. Com essa proposta em mente, o diretor produziu Toda Luz Que Podemos Ver, um longa bucólico que apresenta melodrama épico, aventura e, ainda, um lado psicológico  conforme a trama se desenvolve.

A narrativa se passa um dia antes da guerra entre Popocatépetl e Ixtaccihuatl, dois vulcões do Parque Nacional Izta-Popo Zoquiapan, no México. Segundo a lenda asteca, o por não conseguirem viver seu amor, uma princesa e um guerreiro foram transformados em vulcões após sua morte. No decorrer do longa, quem se destacou como protagonista foram as paisagens, repleta de montanhas, cores na vegetação e a coloração azul radiante do céu. Toda Luz Que Podemos Ver também é exitoso ao propagar a cultura no México, porém a narrativa lenta chega a ser desmotivante em certos pontos da história. Nesse espectro, o longa percorre altos e baixos durante a trama, mas entrega ao telespectador a nova forma de cinema proposta por Escoto. – Gabriel Gatti


Cena do filme Eu Ando Sobre a Água em que aparece um homem negro bem de perto, sendo visível apenas seus olhos e o nariz. Sua expressão é de tristeza.
Eu Ando Sobre a Água é marcada pelo retorno de Khalik Allah à esquina da rua 125 com a Avenida Lexington, seu principal ponto de criação (Foto: Khalik Allah)

Eu Ando Sobre a Água (IWOW: I Walk on Water, Khalik Allah, EUA, 2020)

Khalik Allah é um cineasta e fotógrafo que costuma retratar as minorias sociais em suas obras. Seu documentário Field Niggas, por exemplo, retrata a vida dos habitantes da esquina da rua 125 com a Avenida Lexington, em Nova Iorque. Todo seu trabalho é apresentado de forma real e crua, tanto que sua obra foi descrita como ópera de rua e o seu filme, Eu Ando Sobre a Água, não foge à regra.

O longa retorna à esquina da rua 125 com a Avenida Lexington para documentar o cotidiano dos haitianos em situação de rua. O documentário reflete a humanidade visceral típica dos trabalhos de Allah, que registra sua amizade com Frenchie, seus relacionamentos e seu cotidiano. Toda essa jornada se apresenta de forma similar, porém menos interessante ao filme Fome, que retrata a vida de um morador de rua na metrópole paulista. Mas apesar disso, Allah realiza um trabalho valioso em Eu Ando Sobre a Água ao dar voz aos imigrantes que vivem em situação de rua. A narrativa nada romantizada provoca no telespectador a angústia e os anseios daqueles que se encontram nessas situações. – Gabriel Gatti


Cena do filme O Céu Socialista que exibe duas mãos de uma pessoa branca unindo os indicadores e o polar para formar um triângulo. Ao fundo é possível ver o céu azul.
Ken Jacobs brinca de ser Deus em O Céu Socialista (Foto: Ken Jacobs)

O Céu Socialista (The Sky Socialist, Ken Jacobs, EUA, 1965)

O mundo é repleto de injustiça e crueldade. A Segunda Guerra Mundial, por exemplo, marcou a humanidade com o holocausto, dentre outros eventos nefastos. Pensando na ideia de um deus justo para todos, Ken Jacobs produziu O Céu Socialista. O diretor é conhecido pelo seu modo experimental de fazer Cinema, chegando a propor o termo paracinema, nos anos 1970, para definir as produções que não se encaixavam nos padrões cinematográficos.

Com esses ideais em mente, Jacobs realiza um trabalho quase como de um pintor expressionista abstrato em O Céu Socialista. O enredo se passa na rua Ferry, em Manhattan, primeiro lar do cineasta, e introduz os enredo e os personagens por meio de interlúdios, assim como nos filmes mudos. Durante a narrativa somos apresentados a uma alegoria na qual Anne Frank foi poupada da morte em Bergen-Belsen e segue sua vida até se apaixonar pelo subestimado escritor surrealista, Isadore Lhevinne. Durante as décadas seguintes à produção do longa, Jacobs apresentou sua obra em diversos formatos e durações, mas o original 8mm é o ideal para perpetuar essa trama sobre o sonho da justiça. – Gabriel Gatti


Cena do filme Imagem da Percepção em que há um homem e uma mulher, um ao lado do outro, desfigurados por efeitos digitais. Suas vestimentas e o fundo apresentam tons de marrom e bege.
Imagem da Percepção é a loucura elevada a décima quinta potência (Foto: Guli Silberstein)

Imagem da Percepção (Image of Perception, Guli Silberstein, Reino Unido, 2021)

A Arte nem sempre precisa ser bonita. A sensação de desconforto pode estar presente em grandes obras, assim como no filme Imagem da Percepção, de Guli Silberstein. O longa faz parte do projeto VideoWords, que propõe a interpretação visual de vinte e oito palavras por diversos artistas ao redor do mundo, tendo sido oferecido o substantivo loucura para Silberstein. 

Imagem da Percepção é um tributo ao visionário Uma Página de Loucura, de Teinosuke Kinugasa, que conta a história de um marinheiro que se emprega em um manicômio para libertar sua amada lá presa. Na obra de Silberstein, a experiência do filme é mais cognitiva, já que o casal e sua filha estão presos ao passado e ao presente da mente humana. Para refletir essa sensação, o diretor recorre a técnicas de processamento e  manipulação de imagens e, com isso, consegue nos colocar no lugar de um paciente do hospício. Outro ponto positivo da obra é a trilha sonora, os acordes dissonantes são a cereja do bolo para esse longa repleto de loucura, desconforto e amor. – Gabriel Gatti


Cena do filme 52 Filmes Curtos que apresenta uma mulher branca de cabelos castanhos curtos usando um sutiã azul e uma calcinha rosa em frente a um portão de metal branco.
O cotidiano é muito mais interessante visto pelas lentes de Frances Arpaia (Foto: Frances Arpaia)

52 Filmes Curtos (52 Short Films, Frances Arpaia, EUA, 2021)

A indústria cinematográfica é preponderantemente dominada por homens. A vitória de Chloé Zhao como Melhor Diretora no Oscar 2021 é um evento raro nesse meio. Nesse ambiente inóspito para as minorias, surge Frances Arpaia, uma mulher trans queer. Seus filmes experimentais trabalham a questão da vida queer e as lutas da comunidade. No caso de 52 Filmes Curtos, a cineasta buscou produzir um diário em forma de vídeos, registrando semanalmente um evento de sua vida. A ideia de criar uma “linha do tempo aberta para experimentação” surgiu em 2019 e foi interrompido durante alguns meses devido à pandemia. 

Esse caderno audiovisual permitiu com que Arpaia explorasse novas ideias e técnicas em sua produção. Para unir as gravações a fim de criar uma narrativa coesa, por exemplo, a diretora utilizou de ferramentas de criação de imagens lo-fi para tornar as imagens pixelizadas e desfocadas. Depois de todo esse período de produção, 52 Filmes Curtos resultou em um trabalho que mostra poesia no cotidiano, não deixando de destacar a personalidade da diretora, que protagonizou toda a trama do longa. – Gabriel Gatti


Cena do filme Apyãwa (Tapirapé) Iraxao Rarywa que exibe diversos indígenas, em sua maioria mulheres, vestindo roupas típicas de sua cultura, em volta de uma pessoa que usa uma vestimenta desfiada e toca um chocalho. O fundo é composto por casas, árvores e o céu azul.
Apyãwa (Tapirapé) Iraxao Rarywa mostra o Brasil que ninguém vê (Foto: Tapirapé, Reis, Oliveira, Damas)

Apyãwa (Tapirapé) Iraxao Rarywa (Paula Grazielle Viana dos Reis, Luis Oliveira, Koria Tapirapé, Vandimar Marques Damas, Brasil, 2020)

O Brasil é contemplado com centenas de povos indígenas espalhadas por todo seu território. Dentre eles estão os indígenas Apyãwa (Tapirapé) e Iny, que realizam a festa-rito-sazonal Iraxao Rarywa, no médio rio Araguais durante os tempos de chuva. No entanto, a seca dos córregos e das roças presentes no território Tapi’itãwa situado na Terra Indígena Urubu Branco (Amazônia) provocou a escassez dos principais alimentos típicos do festival. Essa história dos nativos brasileiros é contada no filme-ritual Apyãwa (Tapirapé) Iraxao Rarywa.

O documentário consiste em um projeto coletivo produzido pelos antropólogos Koria Yrywaxã Tapirapé e Paula Grazielle Viana dos Reis e pelos cineastas Luis Oliveira e Vandimar Marques Damas. Todo o trabalho executado em Apyãwa (Tapirapé) Iraxao Rarywa reforça a força do parentesco indígena e da cosmopolítica amazônica, o que torna o filme muito significativo, principalmente em um período em que os indígenas correm risco de perder suas terras com a PL 490. A força de um povo e suas culturas, que foram menosprezadas desde a chegada dos europeus, ganham força nesse trabalho simbólico. – Gabriel Gatti


Cena do filme O Céu Socialista: Arredores e Outtakes em que aparece um homem, usando camisa social branca, colete e gravata, preenchendo um copo, com desenho de uma mulher nua, com água. Em segundo plano, está uma mulher de jaqueta amarela e saia florida segurando uma jarra branca.
54 anos depois, Ken Jacobs retorna para dar continuação a sua ode (Foto: Ken Jacobs)

O Céu Socialista: Arredores e Outtakes (The Sky Socialist: The Environs And Outtakes, Ken Jacobs, EUA, 2019) 

Nova Iorque é uma cidade em eterna metamorfose. O set de O Céu Socialista permanece em pé, porém repleto de renovações urbanas. Desta vez, a trama se passa durante o outono de 1964, período que permitiu o diretor explorar o crescimento de uma metrópole. Essas transformações fizeram com que a segunda parte da história de Ken Jacobs, intitulada de O Céu Socialista: Arredores e Outtakes, se mova alguns quarteirões para o oeste da Broadway. 

O longa segue o formato clássico de 8mm, utilizado em inúmeros trabalhos do veterano Jacobs. O diretor de grande renome para o Cinema independente, realiza um trabalho satisfatório em O Céu Socialista: Arredores e Outtakes, porém segue totalmente dentro de sua zona de conforto. Com o diferencial de que desta vez, o cineasta proporciona breves momentos nostálgicos com o aparecimento do elenco original de O Céu Socialista, que em seguida já retoma o zoom para enquadrar e capturar as paisagens transmorfas de Nova Iorque. – Gabriel Gatti


Cena do filme Com Amor: Volume 1 1987-1996 exibe livros espalhados, sendo que um deles se chama Para Libertar o Cinema, em inglês, e apresenta o desenho de um homem sentado em uma cadeira olhando para trás.
Com Amor: Volume 1 1987-1996 mostra o tempo passar diante dos nossos olhos (Foto: Michael Pilz)

Com Amor: Volume 1 1987-1996 (With Love: Volume 1 1987-1996, Michael Pilz, Áustria, 2020)

O austriaco Michael Pilz iniciou sua carreira trabalhando com fotografia e filme 8mm. Com sua ascensão no Cinema, o diretor começou a desenvolver obras que abordam aspectos técnicos, materiais e mentais da cinematografia. Nesse desenvolvimento experimental, o cineasta teve a ideia de editar todos os planos que ele fez em uma ordem cronológica para apresentar uma obra filosófica do Cinema. Esse trabalho, intitulado de Cortinas, serviu como um pré-projeto para o longa Com Amor: Volume 1 1987-1996, no qual Pilz nos apresenta o que está por trás das cortinas de suas de sua mente criativa.

Nesse longa, Pilz convida os telespectadores a explorarem o mundo a partir de seus olhos e realiza um ato de liberação de memórias. Cenas, como a neve caindo e uma criança desenhando em uma vidraça embaçada, são vislumbradas pelo diretor, que demonstra o seu lado colecionador de recordações. Ao relatar essas experiências vividas, fica claro que Com Amor: Volume 1 1987-1996 se trata de um filme sobre o tempo, registrado de forma crua e verdadeira pelas lentes de um diretor. – Gabriel Gatti


Cena do filme Sombra exibe dois rapazes vestidos somente com roupas pretas. Usam maquiagem branca e preta ao redor dos olhos. Um está de frente para o outro em uma praça, durante a noite.
Sombra é um filme revoltado com nada (Foto: João Pedro Faro)

Sombra (João Pedro Faro, Brasil, 2020) 

Os primeiros minutos do longa de João Pedro Faro mostram dois jovens entediados, vivendo no Rio de Janeiro enquanto bebem, fumam, escutam heavy metal e conversam.

O que poderia ser um filme sobre tédio e alienação na cidade grande se torna um exercício vazio de estilo, com alguma cena ou outra que se aproveita bem da textura da baixa qualidade de imagem e cenas tão longas que chegam a perder o sentido. Faz muito barulho e, no fim, não significa nada. – Caio Machado


Cena do filme Desaprender a Dormir exibe dois homens deitados numa cama à noite. O homem à esquerda tem cabelo comprido, barba por fazer, usa uma blusa de manga longa e está deitado de barriga para baixo. O homem à direita está sem camisa, tem cabelo bem curto, tem bigode grosso e olha para o teto.
É um milagre que Desaprender a Dormir consiga lidar com tantos temas sem se perder (Foto: Gustavo Vinagre)

Desaprender a Dormir (Gustavo Vinagre, Brasil, 2021)

O novo filme de Gustavo Vinagre traz discussões sobre vários temas, como as consequências do contato excessivo com pornografia, a existência de vida em Marte, a influência dos YouTubers sobre os inscritos e o modo como o capitalismo quer que sejamos produtivos até quando estamos dormindo. 

É surpreendente como a direção consegue abordar assuntos tão diferentes entre si de forma tão coesa e criativa. Mesmo filmado em sua maioria dentro de apartamentos, o filme consegue construir uma atmosfera misteriosa sedutora, com elementos fantásticos inesperados e impactantes. – Caio Machado


Curta-Metragens

Cena do filme Condor. A imagem mostra um elipse, com a lua parcialmente cobrindo o som, formando um anel luminoso em torno do satélite escurecido na metade direita da imagem. Todo o resto da imagem é preenchido pelo céu preto.
Condor oferece um olhar poético para um evento cósmico (Foto: Kevin Jerome Everson)

Abutre Negro (2021, Kevin Jerome Everson) e Condor (2019, Kevin Jerome Everson)

É bastante curioso o modo como muitos filmes experimentais minimalistas, ao abrirem mão de qualquer flerte com a complexidade evidente ou a elaboração, acabam ressignificando certos elementos básicos de seu conteúdo que jamais seriam objeto de atenção em circunstâncias normais. É esse o caso dos dois curtas realizados por Kevin Jerome Everson presentes no Festival Ecrã. Em Abutre Negro, os pixels aparentes de uma captação mal iluminada se transformam em textura hipnotizante, enquanto para Condor, o tempo estendido longamente em um único plano dá a cada mínimo movimento a gravidade de um enorme evento.

Ambos têm a lua como protagonista, mas se distanciam no que se refere à forma como o satélite é abordado pela câmera. Abutre Negro aparenta ser apenas um rascunho ou um ensaio para Condor: como o pássaro, o curta parece apenas se alimentar dos restos que sobraram da carcaça da produção de Condor. Já este segundo, aborda de maneira majestosa um eclipse solar em tempo real, levando o espectador a ir e voltar da mais ofuscante claridade à escuridão abismal em menos de 8 minutos. A sensação de descoberta, de compreender o que se passa, é recompensadora, e a possibilidade de testemunhar um evento cósmico como este de uma perspectiva tão privilegiada proporcionada pela câmera dão a este pequeno filme, um caráter de grandeza. João Batista Signorelli


Cena do filme Arsonista. A imagem de baixa resolução mostra o incêndio da Catedral de Notre-Dame em Paris.
Quem é o responsável pelo incêndio? (Foto: Joshua Troxler)

Arsonista (2021, Joshua Troxler)

Como devemos agir diante de uma tragédia? Seguir pela calçada como se nada estivesse ali? Parar e observar, de fora e à distância como quem não quer nada? Ou ainda interferir, envolver-se? O artista Joshua Troxler articula diferentes imagens fazendo uma ponte entre o incêndio da Catedral de Notre-Dame com o de um carro no Harlem, da macro-destruição à micro. De um lado, a ação: o fogo. De outro, o resultado: as cinzas. O vídeo pode reverter o tempo, levar toda a fumaça de volta ao seu ponto de partida. Fora dele, algo mais pode ser feito? Nas maiores e nas menores tragédias, as cinzas são sempre irreversíveis. – João Batista Signorelli


Cena do curta Azul Profundo. Um grupo de águas vivas brancas nadando em formação circular, vistas de baixo, em um oceano de azul escuro.
A composição naturalista de Azul Profundo é um mergulho breve e denso em um oceano de emoções (Foto: Sebastian Wiedemann)

Azul Profundo (2020, Sebastian Wiedemann)

Azul Profundo é uma experiência estética curta e doce que te imerge na solidão profunda do início da pandemia, no momento em que não haviam previsões realistas acerca de uma possível vacina e os prazos para tudo voltar ao normal continuavam se estendendo indefinidamente. Sebastian Wiedemann traduz poeticamente essa sensação na forma de um mar azul e melancólico, criando aos poucos um sentido de comunidade ao nos comparar à organismos marinhos e revelar que, mesmo à deriva no oceano tão profundamente azul, nunca estamos realmente sozinhos. – Gabriel Oliveira F. Arruda


Cena do curta Descompostura exibe uma foto em preto e branco em que uma mulher negra olha descontente para a câmera, enquanto está rodeada de pessoas brancas.
Descompostura peca ao não saber aproveitar a força que suas imagens carregam (Foto: Alline Torres, Víctor Alvino, Anaduda Coutinho e Marcio Plastina)

Descompostura (2021, Alline Torres, Víctor Alvino, Anaduda Coutinho e Marcio Plastina)

A estrutura fragmentada do curta utiliza imagens de arquivo e manchetes de jornais para reconstruir uma parte da história do Brasil e evidenciar a presença das mulheres negras em meios compostos predominantemente por brancos. Apesar da  música colaborar para dar um peso sombrio às imagens, Descompostura se revela esquecível por não aproveitar tão bem a força e a tristeza inerente das fotografias que exibe. – Caio Machado


Cena do curta Febre 40° exibe cinco mãos femininas em tom verde-água. Em cima delas, lê-se a frase “agora eu me uno ao espectro” distorcida. Ao fundo, vê-se vários tentáculos vermelhos.
Febre 40° é uma viagem hipnótica acompanhada de música disco (Foto: Natália Reis)

Febre 40° (2021, Natália Reis)

Com um visual lisérgico e frases instigantes que se distorcem na tela, o curta de Natália Reis investiga os limites entre o corpo humano e a tecnologia, entre o tesão e a eletricidade que corre dentro dos componentes eletrônicos. É uma verdadeira viagem ao som do clássico “Yes Sir, I Can Boogie”. – Caio Machado


Cena do curta Restos e Memórias de Filmagem exibe um homem de sessenta anos sentado em uma cadeira enquanto fala ao telefone. À sua frente, vemos a maquete de uma cidade em cima de uma escrivaninha e atrás dele vemos o monitor de um computador e as caixas de som.
É um prazer poder acompanhar o processo criativo de Alex Cox em Restos e Memórias de Filmagem (Foto: Alex Cox)

Restos e Memórias de Filmagem (2021, Alex Cox)

Alex Cox é conhecido pela direção no clássico cult Repo Man – A Onda Punk e Sid & Nancy – O Amor Mata. Em Restos e Memórias de Filmagem, acompanhamos parte da rotina do cineasta num formato que lembra bastante um vlog. O mais interessante é poder acompanhar de perto o processo criativo artesanal dele e a forma como organiza uma cena antes de filmá-la. – Caio Machado


Cena de O Sonho de Benning exibe um desenho simples, feito numa folha, de uma bola rolando até explodir. No canto inferior direito, vemos a assinatura de James Benning e o ano de 2019.
Abstrato como os próprios sonhos, O Sonho de Benning sugere uma reflexão sobre a brevidade da vida (Foto: Leonardo Pirondi)

O Sonho de Benning (2021, Leonardo Pirondi)

No breve O Sonho de Benning, ouvimos o famoso cineasta experimental descrever um sonho que teve enquanto vemos uma animação que tenta ilustrar isso. Limitado pela própria duração, é simples, abstrato e sugere uma pequena reflexão sobre a brevidade da vida. – Caio Machado


Cena de Senhor Jean-Claude exibe uma foto antiga do ator usando uma faixa na cabeça e pulando, prestes a dar um chute em alguém.
Senhor Jean-Claude utiliza apenas um frame do ator Jean-Claude Van Damme para desconstruir a noção de masculinidade propagada durante décadas (Foto: Guillaume Vallée)

Senhor Jean-Claude (2021, Guillaume Vallée)

A partir de fotogramas do filme The Quest, Guillaume Vallée faz diversas alterações na imagem de Jean-Claude Van Damme, na tentativa de desconstruir a noção de masculinidade que ele e outros astros do cinema de ação propagavam. O curta comove ao transformar a violência, contida num único frame, em ternura. – Caio Machado


Cena do curta TV a Cabo (Ou Uma Noite na Vida). Perspectiva quadrada. Uma dançarina de costas para a tela, colorizada em um tom rosa choque, com tons azuis, verdes e vermelhos do seu lado e um negro acima e abaixo.
A disrupção causada por um sinal de TV pirata durante a troca de canais vai do surreal até o macabro em questão de segundos (Foto: Rob Feulner)

TV a Cabo (Ou Uma Noite na Vida) (2020, Rob Feulner)

Quanto mais eu penso sobre TV a Cabo, mais eu aprecio a experiência mecânica e ritualística de surfar pelos canais de televisão (um sentimento que vem ficando cada vez mais raro com chegada da era do streaming) dos Estados Unidos dos anos 90, observando as mudanças culturais e políticas que estava começando ou terminando de acontecer. A interrupção causada por um sinal pirata fornece uma quebra desse ritual que varia do simplesmente psicodélico até o macabro hipnotizante, e que complementa belamente a experiência. – Gabriel Oliveira F. Arruda


Cena de Mil e Uma Tentativas de Se Tornar um Oceano exibe uma mão branca mergulhada numa substância gelatinosa transparente.
Mil e Uma Tentativas de Se Tornar um Oceano repete sua ideia tantas vezes que chega a
ser cansativo (Foto: Wang Yuhan)

Mil e Uma Tentativas de Se Tornar um Oceano (2020, Wang Yuhan)

Logo nos primeiros minutos, dá para perceber que o curta quer mostrar a presença do fluxo e movimento das ondas na vida como um todo, desde um microrganismo  até o movimento sincronizado de soldados. Depois disso, o que ocorre é uma repetição dessa tese até a exaustão. – Caio Machado


Cena do curta bai gosti / eros afogado em lágrimas. A cena mostra uma tela escura com iluminação noturna.
O glitch vira rotina nesse canto apocalíptico (Foto: Vinícius Romero)

bai gosti / eros afogado em lágrimas (2021, Vinícius Romero) 

Funcionando como o videoclipe daquela banda de rock experimental com a qual topamos sem querer no Spotify, Vinícius Romero performa a metamorfose de sensações nada palpáveis em bai gosti / eros afogado em lágrimas. Com pinta de título mitológico, o curta se estende por desconfortáveis nove minutos, queimando medos, chamuscando temores. – Vitor Evangelista


Cena do curta Vitrines, mostra um manequim de costas e o nome do curta em fonte branca
Que saudade de ir ao shopping! (Foto: Coletivo Olhares)

Vitrines (2021, Coletivo Olhares)

É o Coletivo Olhares que adentra um shopping do nascer do sol a seu pôr, mas são as imagens individuais das vitrines que intitula a obra as responsáveis por conversar com quem assiste os estáticos e performáticos 10 minutos. Os créditos sobem, depois do grupo, formado por João Pedro Diaz, Luã Leal, Mariana Martinelli e Sérgio Faria, vasculhar cada lata de lixo, mesa da praça de alimentação e cabide da Renner. Afinal de contas, quando o assunto é shopping, quem é a mercadoria? Vitor Evangelista


Cena do curta Lucina Annulata que mostra o céu
Lucina Annulata explora as múltiplas naturezas (Foto: Charlotte Clermont)

Lucina Annulata (2021, Charlotte Clermont)

São necessários menos de 5 minutos para que Charlotte Clermont capture o mundo em seu Lucina Annulata. Produção canandense que usa de aparelhos analógicos para gravar os detalhes minuciosos de cavernas, florestas e do próprio corpo humano, o curta ainda rasga o ambiente com uma estridente trilha que conflita com o cântico marítimo e infantil que inunda nossos ouvidos. – Vitor Evangelista


Cena de O Fim do Sofrimento. Com um fitro vermelho, podemos ver uma mulher negra do pescoço para cima segurando uma lança.
De qual planeta você seria? (Foto: Jacqueline Lentzou)

O Fim do Sofrimento (2021, Jacqueline Lentzou)

Que ótimo seria se o universo interferisse cada vez que nos sentimos ocos por dentro. É assim que O Fim do Sofrimento funciona; uma solução para esse sentimento constante de deslocamento que, magicamente, encontra uma fonte intergalática no curta grego de Jacqueline Lentzou. Como se a Terra fosse uma estação para marcianos perdidos, a narrativa de 14 minutos brinca com imagens vermelhas e um diálogo marcado por metáforas e lutas por amor. Um pouco simplista no que se propõe, mas afogado em sentimentos. – Caroline Campos


Cena de Amostras de Corpos. Ao fundo, há uma imagem de uma mão branca e cima de uma pedra marcada. Sobreposta, há a imagem, menor, de um quadro de riscos roxos.
1924 foi um ano interessante para a diretora (Foto: Astrid de La Chapelle)

Amostras de Corpos (2020, Astrid de La Chapelle)

O que Lenin, o Monte Everest e um fóssil tem em comum? Bem, quando você descobrir, me avise, porque se depender de Amostras de Corpos, a situação fica complicada. O curta de 14 minutos de Astrid de La Chapelle percorre as facetas da persistência da vida que, mesmo após a morte, encontra uma forma de se transmutar em algo novo. Através de um batalhão de imagens transpostas, a linha de raciocínio da francesa é clara ao mesclar passado e presente, apesar da trilha sonora sufocante e uma leve obsessão pelas mãos do líder comunista. – Caroline Campos


Imagem do curta Ao Velho Mundo. Podemos ver estilhaços de vidro por toda a tela, com um fundo preto,
Há apenas um plano no curta que preenche toda a tela (Foto: Mark Leckey)

Ao Velho Mundo (Obrigado pelo Uso do seu Corpo) (2021, Mark Leckey)

Imagine gravarem sua pataquada em um ponto de ônibus e transformarem em um curta experimental. Sim, foi isso que Mark Leckey fez em Ao Velho Mundo (Obrigado pelo Uso do seu Corpo) ao repetir em looping e acrescentar diversas camadas a uma videocassetada de um cara atravessando uma vidraça. A experiência fica cada vez mais divertida conforme o inglês vai distorcendo sons e adicionando cacos de vidro e novas interpretações ao seu curta, que se transforma, como diz a própria sinopse, em uma oração ao vidro estilhaçado. – Caroline Campos


Videoarte

Cena de Além Cá, mostra parte de dois prédios que preenchem toda a imagem, com exceção de uma pequena parte de céu entre eles. À esquerda, o prédio tem paredes escuras e janelas grandes de vidro. Ao centro e à direita, o outro prédio da cor beje tem janelas de diferentes tamanhos e tem o desenho assemelhado a vários blocos encaixados de diversos modos. Ao centro e à distância, em uma sacada cheia de plantas, uma mulher de cabelos pretos e blusa roxa segura próximo à boca uma vuvuzela verde e amarela.
Quem nunca ficou admirando as redondezas pela janela de um apartamento? (Foto: Vitória Severo)

Além cá (Vitória Severo, 2020)

Sem sair das fronteiras que podem ser alcançadas pela vista, mas indo além do isolamento e dos limites impostos pelas circunstâncias históricas, pelas paredes e altura de um apartamento, há todo um universo de pequenas histórias que podem ser acessadas simplesmente por um olhar através da janela. A pequena obra de Vitória Severo explora através de fotografias, o cotidiano daqueles que transitam à vista de seu lar, abrindo a própria janela para quem assiste. Além cá oferece um olhar atento para os pequenos detalhes da vasta paisagem urbana que um apartamento pode oferecer. – João Batista Signorelli


Cena do filme As Grandes Distâncias. O reflexo da superfície de uma lagoa sobrepõe a imagem refletida de múltiplos galhos de árvores às pedras ao fundo da lagoa.
O título ‘As Grandes Distâncias’ acrescenta mais possíveis camadas de sentido ao filme (Foto: Matheus Zenom)

As Grandes Distâncias (2020, Matheus Zenom)

Após assistir As Grandes Distâncias, minha primeira reação foi de uma leve revolta, que ganhou contornos hiperbólicos na primeira versão deste comentário sobre o filme. A insistente simplicidade do curta acendeu um pensamento que demorou a se acalmar: “Para que ver o céu em uma tela de computador se eu posso ver… o céu?” Amenizado o susto, fui levado a refletir quais teriam sido os motivos para que tal reação tomasse forma em primeiro lugar. A falta de significados explícitos? O ritmo lento? Aquela terrível afirmação (“Eu poderia ter feito isso”) da qual sempre queremos fugir, mas que sempre insiste em voltar?

A reflexão foi feita: uma obra como essa, de ritmo lento, sem significados explícitos e que eu poderia ter feito, apresenta tão poucos elementos, que estes adquirem um peso e um grau de significância muito maior do que poderia ser esperado. Água, uma árvore e seu reflexo, céu e nuvens: todos poderiam passar batido em qualquer filme com uma quantidade regular de informações, mas em As Grandes Distâncias, caso o espectador o permita, assumem o protagonismo. Sem esquecer, claro, de outros dois elementos talvez ainda mais importantes: a câmera, com sua tímida movimentação de enorme amplitude, e o tempo, que atribui um peso crescente aos elementos anteriores. As grandes distâncias entre o público e um filme como este de fato existem, mas sempre existe a possibilidade de aproximação. – João Batista Signorelli


Cena de Chorar exibe metade do rosto de uma mulher, inclinado e pintado por tinta vermelha e verde, já seca.
A expressividade da realizadora é um dos destaques de Chorar (Foto: Maya Skye Henderson)

Chorar (Crying, Maya Skye Henderson, 2021)

Filmada num close bem próximo ao rosto da realizadora, a obra é um bom exercício sobre a expressividade contida no ato de chorar e os movimentos involuntários que ele provoca no rosto. Maya Skye Henderson prova que chorar alivia mesmo, mas também cansa. – Caio Machado


Cena de Cool for the Summer exibe uma foto na galeria de um celular. Nela, uma mulher negra, com cabelo preto trançado, usa um vestido roxo e posa para a foto. Ao fundo, vemos uma bicicleta encostada na parede de um restaurante.
Cool for the Summer apresenta as consequências psicológicas da quarentena à partir do relato de Vitória Liz (Foto: Vitória Liz)

Cool for the Summer (Vitória Liz, 2021)

Em março de 2020, ninguém esperava que uma pandemia chegaria ao Brasil e mataria mais de meio milhão de pessoas. Achava-se que a vida continuaria normalmente, mas tudo mudou rápido demais depois da primeira morte por coronavírus no país. Cool for the Summer traz um enfoque extremamente sensível nessa frustração abrupta, utilizando imagens da vida normal de antes e um relato tocante sobre as consequências psicológicas avassaladoras de ser obrigado a ficar em quarentena. Para quem ainda está enfurnado dentro de casa, é impossível não se identificar. – Caio Machado


Cena de Invasão exibe uma espiral branca com uma imagem abstrata e borrada ao fundo.
Ágil, Invasão é um curioso estudo sobre como a sociedade compreende o sexo (Foto: Hannah Maia)

Invasão (Hannah Maia, 2020)

O curta utiliza materiais que vão de imagens de livros de Biologia a cenas de filmes pornográficos antigos para propor um estudo interessante e agitado sobre como a sociedade enxerga o sexo. – Caio Machado


Cena do curta Sem Título #2 exibe, em preto e branco, o rosto de uma mulher olhando para cima.
O olhar de Verónica Valenttino carrega uma intensidade difícil de ser mensurada (Foto: Priscyla Bettim e Renato Coelho)

Sem título #2 (Verónica Valenttino) (Priscyla Bettim e Renato Coelho, 2020)  

O preto e branco bem contrastado do curta compõe um retrato misterioso e bem expressivo da artista, acentuando suas marcas no rosto e o olhar que parece carregar um peso gigantesco. – Caio Machado


Instalações e Artes Imersivas

Imagem digital reconstruída do Cine Metro. Mostra parte de um prédio cinza de múltiplos andares e estilo art-déco. Um grande sinal preto na vertical acompanha o prédio com a palavra ‘Metro’.
A experiência imersiva restaura a memória de um passado que não volta mais. (Foto: Eduardo Calvet Correia)

Cine Metro (Cine Metro – Experiência Imersiva, Eduardo Calvet Correa, Brasil, 2021)

Em tempos onde a memória do Cinema brasileiro vem sendo largada às traças, uma homenagem a uma sala de cinema histórica do país é mais que bem-vinda. A experiência em realidade virtual criada por Eduardo Calvet Correa nos leva a um passeio de volta à inauguração do Cine Metro em 1936, um enorme cinema de 1800 assentos que marcou o Rio de Janeiro em sua época. Com atenção aos detalhes, Calvet Correa reconstrói digitalmente a luxuosa sala da MGM que não pode resistir ao teste do tempo: pouco sobrou do Cine Metro, que hoje é deixado ao abandono. João Batista Signorelli


Games

Imagem promocional do jogo Coisas que Perdemos no Fogo exibe o desenho de uma menininha de cabelo preso, usando vestido e sapatilhas. Ela está com a mão embaixo de um rolo de filme, como se fosse tocá-lo. Ao redor dela, há dois outros rolos de filme e, ao lado, lê-se “Coisas que Perdemos no Fogo” em letras grandes.
O jogo nacional busca conscientizar sobre a importância da preservação do audiovisual brasileiro (Foto: Thays Pantuza e Zumbido Audiovisual)

Coisas que Perdemos no Fogo (Thays Pantuza & Zumbido Audiovisual, Brasil, 2021)

Coisas que Perdemos no Fogo conta a história de uma menininha que entra dentro de seu desenho animado preferido e precisa apagar um incêndio no estúdio que o produzia  para salvá-lo. 

Com um visual lúdico e gameplay que consiste em clicar para realizar as ações desejadas, não é difícil entender a mensagem que Thays Pantuza e a Zumbido Audiovisual queriam passar: cuidar das organizações que preservam as produções audiovisuais de um país é importantíssimo. Em tempos de descaso com a Cinemateca Brasileira, manter essa discussão é essencial. – Caio Machado


Imagem do game Bagata. Um corredor amplo inteiramente digital de paredes marrons é atravessado inúmeras vezes por linhas marrom-escuras diagonais formadas por pequenos blocos retangulares. No canto direito, uma estrutura que parece ser uma placa de informações inclinada na diagonal com uma base cúbica emana uma luz vermelha.
Bagata é tão misterioso quanto seu título (Foto: Heron P. Nogueira)

Bagata (Heron P. Nogueira, Brasil, 2020)

Em primeira pessoa, somos convidados por Bagata a transitar entre corredores e salas do que parece ser um estranho museu abstrato com instalações misteriosas. Teremos algum objetivo, algum objeto para encontrar, um lugar para chegar? Nada. Isso não parece ser um problema, mas somente até uma visão externa do edifício indicar que existem muitos andares para cima, e o encontro com uma escada abrir a brecha para a possibilidade de ascender até lá. Passando por caminhos complicados e armadilhas, a subida termina em… frustração. Tapeado, acabo caindo de volta ao ponto de partida. 

A frustração vem dessa brecha entre o potencial objetivo inventado por mim, jogador, e a inexistência dele na realidade do jogo de Heron P. Nogueira. A partir do momento em que surgem contratempos à livre circulação no ambiente, somos levados a crer que esses são forças antagônicas impedindo-nos de chegar ao lugar para onde deveríamos ir; mas ao final, não era para ter chegado em lugar nenhum. Talvez houvesse algum modo de subir mais por um caminho que não encontrei, mas sem tê-lo encontrado, o que fica de Bagata para mim (além de frases misteriosas e saudade de museus) é que, ainda que isso possa ser frustrante, nem sempre é preciso chegar a algum lugar. – João Batista Signorelli


Imagem do jogo Esperando Godot: Uma Simulação exibe um visual pixelado, com dois homens parados em uma paisagem árida. Um dos homens utiliza terno e chapéu azuis enquanto o outro utiliza um terno preto.
Adaptar Beckett para um jogo é uma ideia ousada, mas mal aproveitada no jogo de Nick Murray (Foto: Nick Murray)

Esperando Godot: Uma Simulação (Waiting For Godot: A Simulator, Nick Murray, Reino Unido, 2020)  

A ideia do jogo é curiosa: adaptar a famosa peça de Samuel Beckett para um jogo pixelado, em que dois personagens conversam entre si enquanto esperam. As únicas ações que o jogador pode realizar é esperar ou não esperar. De resto, só é possível observar as ações dos dois personagens sem rosto. 

Várias questões vêm à mente: quem são eles? Por quem estão esperando? Por que esperam? Que lugar é esse? Em um contexto de pandemia, o jogo pode ser interpretado como uma metáfora para a quarentena, onde milhões de pessoas aguardam em suas casas algo que nem sabem se chegará (a volta da normalidade). Porém, não funciona bem como jogo por retirar a interatividade por completo e deixar somente a passividade monótona. De qualquer forma, é interessante pela ousadia. – Caio Machado

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