
Tarsila Borsari
Para dar início ao esquenta do Carnaval de 2026, Marina Sena lançou o EP Marinada vol.01 ainda no final de dezembro de 2025. Um projeto curto, com seis faixas e cerca de 19 minutos de duração. O trabalho transita entre a pulsação do feriado nacional e canções mais tranquilas para embalar o verão. O título funciona como mais um ‘gostinho’ de seu último álbum, Coisas Naturais (2025).
Desta vez, a sonoridade surge com ainda mais cores e batuques, trazendo esse sobrenatural íntimo que ganha corpo nas ruas e no coletivo. O movimento reforça a estética mística e folclórica que Marina Sena vem consolidando singularmente na música brasileira, reafirmando sua capacidade de transformar referências culturais em uma assinatura própria, firme e ainda mais reconhecível. O EP traduz o Carnaval como uma experiência coletiva, imediata e carregada de energia, sem abrir mão de camadas simbólicas.
Parte do que sustenta essa identidade tão única da artista no cenário atual está na forma como a cantora assimila e atualiza influências históricas, reforçando uma linguagem cada vez mais consistente. Inspirada por nomes como Ave Sangria e Gal Costa, Marina incorpora princípios da Tropicália e psicodelia em suas músicas de maneira única. Trata-se da articulação entre tradição brasileira e a experimentação, marcada por contrastes intencionais e pela criação de uma sonoridade híbrida, que combina repertório popular, como ritmos regionais, com influências externas. Em Marinada vol.1, essa lógica surge atualizada na forma como elementos do Carnaval e de gêneros populares contemporâneos, como o funk, se entrelaçam resultando em um som que, embora carregado de alusões, se mantém individual e distante de qualquer reprodução direta.

Nesse contexto, o processo criativo se torna parte essencial dessa construção. A partir do reaproveitamento e da recontextualização de materiais já existentes, os produtores Janluska, Enzo Dicarlo e Pedro Lucas — em entrevista à revista Bravo! — destacam a revisitação de trechos descartados, beats e fragmentos de outras produções, reorganizados sob uma diretriz clara da artista: gerar impacto imediato. Em “Carnaval”, por exemplo, Pedro Lucas resgatou um recorte de As Long As You Love Me, sucesso da boyband Backstreet Boys, o método orienta a própria atmosfera do EP, alinhando forma e intenção.
É sobre essa premissa que o repertório se desenvolve. O EP abre alas com um remix de CARNAVAL, em parceria com Psirico. O resultado evoca o pagode baiano e as batidas das baterias de escola de samba, em uma faixa vibrante que traduz com precisão a energia das ruas. Em seguida surge uma nova versão de Ombrim, faixa lançada originalmente na antiga banda da cantora, Rosa Neon. A música já havia ganhado uma releitura em brega funk com Orni Bruno e Chicão do Piseiro, e agora reaparece em um clima mais suave, intitulada que delícia o verão, com a participação de Pabllo Vittar, quebrando as expectativas de quem conhecia apenas a versão anterior e esperava algo mais acelerado para o calor.
Além das novas versões, a mineira inclui três inéditas no repertório. Saí para ver o mar surge ao lado da nova promessa da MPB, Rachel Reis, enquanto tá quente reforça a temperatura solar do projeto. Para encerrar, Maravilhosa retorna com força total, apostando novamente em um ritmo animado e carnavalesco, fechando o EP em tom de celebração.

O lançamento de Marinada vol.01 veio acompanhado de uma nova turnê que percorreu diferentes palcos e festas pelo Brasil. Nessa fase, Marina aposta em uma performance mais livre e enxuta, dividindo o palco com apenas um dançarino e explorando uma presença cênica mais visceral. A aparência também se torna parte central da narrativa: ao se pintar de dourado durante as apresentações, a cantora chegou a ser acusada até de bruxaria – e convenhamos, para uma artista brasileira, esse tipo de comentário costuma ser um bom indicativo de sucesso. Durante o Carnaval, essa presença se expandiu para além dos palcos: a mineira arrastou uma multidão com o bloco Marinada, na Pampulha (BH). Além disso, integrou a programação do CarnaUOL com um show marcado por uma performance mais sensual, consolidando sua força como um dos nomes centrais da temporada.
Mesmo antes de ocupar oficialmente todos esses espaços, Marina Sena já extrapolava a música e impactava diretamente a estética do Carnaval de 2026. Seu estilo característico e a aposta em visuais marcantes rapidamente se refletiram nas ruas, onde se multiplicaram fantasias com miçangas, tecidos metalizados e crochês, atravessadas por referências à brasilidade e à natureza. Nesse cenário, a artista consolida um brilho próprio. Ao valorizar o artesanato local dentro de uma embalagem pop contemporânea, somada a elementos como cabelos volumosos e composições visuais expressivas, Marina mantém, embora de forma sutil, um diálogo com o imaginário tropicalista.

Fora das ruas, sua vida pessoal também entrou no radar do público. O relacionamento com Juliano Floss, assumido publicamente em julho de 2024, ganhou ainda mais visibilidade com a entrada do influenciador no Big Brother Brasil 26. Dentro do programa, o brother frequentemente falava da namorada. Sob outra ótica, a relação também atravessa o trabalho da artista, Juliano é a inspiração para faixas como Numa Ilha, que ganhou remix no EP, além de participar do clipe de CARNAVAL. Em entrevistas, Marina já destacou como vivências pessoais como essa atravessam seu processo criativo, revelando um trabalho que também se constrói a partir da experiência íntima.
Entre a exposição midiática e a incorporação dessas vivências nas canções, o Carnaval da artista se desdobra como extensão de uma narrativa pessoal que acompanha o lançamento do projeto. Marina Sena é incorporada no consciente do público, afastando-se da figura de uma pop star tradicional e se aproxima cada vez mais de um símbolo coletivo. O projeto se sustenta como um retrato consistente dessa fase da artista, que já ecoa para além da música e se firma nas ruas, no corpo e no Carnaval.
